O incentivo à violência no esporte: quem ganha com isso?
Por que torcedores defendem seus times de futebol como se fossem guerreiros?

Nos dias de hoje, estamos constantemente rodeados por uma atmosfera de confronto e antagonismo, e essa dinâmica se manifesta em diferentes aspectos da vida cotidiana, desde debates acalorados nas redes sociais até a forma como consumimos esportes.
A herança dos costumes tribais e da Idade Média
Mesmo que a sociedade moderna pareça tão avançada, ela ainda carrega resquícios de costumes tribais e da Idade Média. Naqueles tempos, o enfrentamento direto era uma das principais formas de resolução de conflitos, e a bravura em combate era um valor celebrado. A competição entre tribos ou reinos moldava a identidade coletiva e criava um senso de pertencimento. Hoje, essa rivalidade se traduz nas competições esportivas, onde as torcidas não são apenas grupos de apoio, mas verdadeiras facções em batalha.
A transformação de estádios em arenas
Na Grécia Antiga, o estádio era uma unidade de medida de distância, aproximadamente 192 metros, e as corridas realizadas com essa medida eram chamadas de estádio também. Com o tempo, o estádio se tornou sinônimo de competições esportivas. Já “arena” vem do latim e significa areia, que cobria o chão do Coliseu para absorver o sangue dos gladiadores nas lutas violentas até a morte. Assim, a troca de estádio por arena é intencional, reforçando a imagem de que o jogador é um “guerreiro” e o espectador, quase um soldado em campo.
O poder financeiro da indústria esportiva
No cenário global, estima-se que o futebol movimente, anualmente, mais de 500 bilhões de dólares. Esse valor gigantesco sustenta uma indústria em que o confronto e a polarização não são apenas elementos de entretenimento, mas componentes fundamentais para o lucro. No Brasil, o mercado do futebol gira mais de 50 bilhões de reais por ano. Com tanto dinheiro em jogo, os jogadores são pagos como celebridades e guerreiros modernos, e suas habilidades são uma moeda de alto valor. Essa configuração cria um ciclo em que a emoção exagerada das torcidas se torna o motor econômico dessa indústria.
A mídia como amplificadora de conflitos
O teórico canadense da comunicação, Marshall McLuhan, observou que “o meio é a mensagem”, enfatizando que os próprios canais de comunicação moldam as ideias e valores que transmitem. Essa abordagem vai além de uma simples estratégia de marketing, mas assume um papel de manipulação psicológica para condicionar o público a enxergar o esporte como uma guerra, e os times rivais como inimigos. Redes de televisão e plataformas de streaming lucram com os direitos de transmissão e com a propaganda, promovendo uma visão distorcida do esporte, construindo e sustentando “heróis” e “vilões”, e alimentando um ciclo de conflitos e violência. Quanto mais tensão é gerada, maior é a audiência e, consequentemente, os lucros.
Um exemplo notável dessa cultura de confronto é a histórica rivalidade criada entre Brasil e Argentina, que alimenta discussões e confrontos entre torcidas, tornando-se uma questão de orgulho nacional. A tensão é constantemente mantida pela mídia, que incentiva o clima de conflito e estimula um nacionalismo agressivo, irracional, como se os países fossem inimigos em guerra.
Outros esportes, como o MMA (Mixed Martial Arts), promovem o confronto físico extremo e atraem milhões de espectadores, e de dólares, valorizando a violência como forma de entretenimento. Isso contribui para a normalização do uso da força como meio de resolver disputas.
A atração por grupos violentos
Para o psicólogo social britânico Henri Tajfel, criador da Teoria da Identidade Social, as pessoas têm a necessidade de pertencer e de se diferenciar de outras. Em grupos organizados de torcida, a busca por identidade é ainda mais intensa, pois eles se apresentam como uma “família”, onde a lealdade e a rivalidade têm um valor central. A sensação de ser parte de algo maior, e de ter um inimigo em comum, fortalece o vínculo do grupo, e incentiva comportamentos agressivos.
Em 2020, estudo liderado pelo psicólogo britânico Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, encontrou uma correlação entre a solidão e o aumento de comportamentos antissociais em torcidas violentas, quando pessoas insatisfeitas com as próprias vidas se sentem marginalizadas, e tendem a buscar aceitação em grupos onde a agressividade e a exclusão de “inimigos” constroem uma identidade comum, e a violência passa a ser uma forma de se sentir “aceito”, e até “respeitado”.
Exacerbação da violência
Só no Brasil, mais de 150 torcedores morreram em confrontos ligados ao futebol nos últimos anos. Recentemente, no Rio de Janeiro, durante e após uma partida entre Flamengo e Peñarol pela Copa Libertadores, torcedores dos dois clubes envolveram-se em uma briga generalizada nas ruas, que deixou feridos e causou tumulto em áreas públicas. Em São Paulo, membros de uma torcida organizada do Palmeiras emboscaram um grupo de torcedores do Cruzeiro, resultando na morte de um deles. Isso mostra como a rivalidade deixa de ser apenas uma representação esportiva e se torna violência real, desencadeada por um senso de “dever” em defender o time/tribo. Nesse caso, também se vê a destruição de valores antigos, pois tanto Cruzeiro, quanto Palmeiras, se chamavam Palestra Itália, antes da Segunda Guerra Mundial.
Impactos psicológicos e sociais
Albert Bandura, psicólogo social canadense, descreveu o “desengajamento moral” como um mecanismo psicológico, que facilita a aceitação de atitudes agressivas, e até violentas, contra os rivais, pois a pessoa se convence de que o adversário não merece respeito ou empatia. Bandura argumenta que, ao permitir que se veja o “outro” como menos humano, a sociedade cria as condições perfeitas para o confronto contínuo. Quando a mídia e o mercado esportivo promovem essa desumanização, estão pavimentando o caminho para um ambiente no qual a violência e o ódio se tornam aceitáveis.
A exposição contínua a essa cultura de hostilidade pode aumentar o estresse, a ansiedade, a frustração, a raiva, a predisposição à violência de forma geral, ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), entre outros.
“Panis et circenses”
O peruano, prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, em seu livro A Civilização do Espetáculo, argumenta que a sociedade moderna se tornou obcecada pelo entretenimento superficial, sacrificando valores fundamentais, e a profundidade das relações humanas, em troca de prazeres imediatos. Llosa vê o entretenimento como uma nova forma de Panis et Circenses, ou “pão e circo”, uma estratégia usada pelos governantes de Roma para distrair o povo de questões políticas e sociais importantes por meio de jogos e festas públicas. Hoje, o “circo” da modernidade inclui os grandes eventos esportivos, que canalizam a frustração das pessoas para desavenças, que servem mais ao espetáculo do que ao esporte.
Como contraste, nos Jogos Olímpicos a competição é intensa, mas o respeito mútuo é a base. Após as provas, atletas, que competiram lado a lado, se abraçam e se vê a celebração da superação e do respeito. Essa atitude prova que a violência no esporte pode ser evitada. O confronto é incentivado por uma mentalidade tacanha e materialista, e as Olimpíadas mostram que o esporte pode, sim, unir ao invés de dividir, e, ainda, gerar lucros.
O que podemos fazer na prática?
A violência entre torcidas demonstra o quão longe a sociedade está disposta a ir em nome do entretenimento e de um pertencimento ilusório. Para quebrar esse ciclo, é necessário reavaliar o papel do esporte, resgatando seus valores olímpicos. As disputas esportivas devem ser promovidas não como uma guerra simbólica, mas como uma oportunidade de construção social, desenvolvimento humano e entretenimento que une famílias.
No Brasil de hoje, em um quadro mais amplo, adversários foram transformados em inimigos, e quem pensa, ou age diferente, tem de ser eliminado, dentro dessa lógica manipuladora e narcísica. O que está em jogo não é só o resultado de uma partida, mas a convivência pacífica e respeitosa dentro e fora das praças esportivas.
Ouça no meu podcast “Psicologia Cotidiana” este tema com outras reflexões.
Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. @psicomanzione
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