A dor das crianças nas separações: o egoísmo dos pais
Nas separações, as crianças são esquecidas enquanto os pais brigam. Quem cuida do impacto emocional que elas silenciam?
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Quando um casal decide se separar, o que antes era um lar seguro pode se transformar em um campo de batalha. Entre acusações, ressentimentos e uma dor que parece não ter fim, muitas vezes os filhos são esquecidos no processo. É como se, de repente, aquele amor que prometia proteger e acolher se perdesse em meio à confusão. Quem sofre mais são os pequenos que, sem entender direito o que está acontecendo, assistem ao mundo que conhecem desmoronar.
O egoísmo que machuca os filhos
É fácil, durante uma separação, cair na armadilha de pensar apenas na própria dor. Mas esse egoísmo pode ser devastador. Quantas vezes você já ouviu falar de pais que transformam os filhos em mensageiros? “Diga ao seu pai que ele está atrasado com a pensão!” ou “Pergunte à sua mãe por que ela nunca atende minhas ligações!”. Parece simples, mas, para uma criança, esses momentos são como facas, que vão cortando sua segurança emocional.
E quando os filhos se sentem abandonados? Não é só o abandono físico de quem some sem deixar rastros. É aquele abandono emocional, quando os pais estão tão ocupados brigando ou reconstruindo suas próprias vidas, que esquecem de olhar para os filhos. Melanie Klein, psicanalista que estudou profundamente o impacto dos relacionamentos na infância, dizia que as crianças internalizam essas tensões e as transformam em angústias, que podem acompanhá-las para sempre. Filhos não pedem para estar nessa situação, mas você pode fazer com que eles sofram menos.
Imagine uma menina chamada Ana, de 10 anos, que vê os pais discutirem todos os dias até finalmente se separarem. Ana começa a pensar que, talvez, se ela fosse mais boazinha ou tirasse notas melhores, os pais ainda estariam juntos. Essa culpa, tão comum entre crianças em situações assim, pode crescer junto com elas, levando a sentimentos de inadequação e até depressão no futuro. Ana, ainda, pode ver o sofrimento do pai ou da mãe e, impotente, ficar insegura ao saber que quem deveria dar segurança a ela não consegue nem se controlar.
Quando a criança se torna um instrumento de vingança
Um dos maiores erros que os pais podem cometer é usar os filhos como armas para atingir o(a) ex-parceiro(a). É aqui que entra a alienação parental, um comportamento cruel que destrói os vínculos mais importantes na vida de uma criança. O psicólogo Richard A. Gardner, que cunhou o termo “Síndrome da Alienação Parental”, explica que esse tipo de manipulação pode fazer com que a criança desenvolva sérios problemas emocionais, como ansiedade, dificuldade de confiar nas pessoas e, até mesmo, ressentimento em relação aos próprios pais.
Pense no João, de 12 anos. Após a separação dos pais, ele passou a ouvir a mãe dizer: “Seu pai nunca se preocupou com você.” Aos poucos, João começou a acreditar nisso e se distanciou do pai. Mas, no fundo, ele sentia uma confusão imensa — como se estivesse traindo alguém ao escolher um dos lados. Anos depois, já adulto, João percebeu que havia perdido momentos importantes com o pai, e essa perda irreparável se transformou em um vazio difícil de preencher, além de um certo ressentimento da mãe, que o usou para alimentar seu próprio egoísmo. É lamentável e inescrupuloso utilizar os filhos como algum tipo de meio de atingir o outro só porque não consegue aceitar o rumo do seu casamento. Os pais, obviamente, vêm antes das crianças e não precisaram delas para se conhecer e procriar, então agora não serão os rebentos que irão consertar nada: deixe-os em paz!
O impacto de uma nova relação
E o que acontece quando um dos pais decide refazer a vida com outra pessoa? Não há problema nenhum nisso, é claro. Mas como fica a criança nesse processo? Muitas vezes, ela não é preparada para essa mudança e sente que está perdendo o pouco que restou da atenção dos pais. É como se, além de ver o casamento acabar, ela tivesse que disputar o amor do pai ou da mãe com um(a) estranho(a).
Um exemplo disso é o caso de Marisa, de 9 anos, cujo pai arrumou uma nova namorada um tempo após a separação. Ele começou a levar a namorada em todos os passeios que fazia com a filha, sem nunca conversar com Marisa sobre como ela se sentia. A menina, que já estava fragilizada pela separação, começou a se fechar emocionalmente. Sentia ciúmes, raiva e, em alguns momentos, até vergonha de dizer que queria passar um tempo sozinha com o pai. Sem o apoio emocional de que precisava, Marisa desenvolveu crises de ansiedade, que afetaram seu desempenho escolar e suas amizades. Se o pai ou a mãe não sabe como conversar ou o que dizer aos filhos, procure orientação profissional para evitar profundos estragos futuros, o que não parece ser o desejo de quem ama os filhos. Além disso, a nova pessoa na vida de um dos pais, pode dar a impressão para a criança de que ela não merece mais o amor que tinha antes, e acaba surgindo o sentimento de abandono. Tudo isso pode ser evitado ou redirecionado, basta que se coloque as crianças em primeiro lugar.
Pesquisas mostram a gravidade do problema
Um estudo da Universidade de Cambridge, publicado em 2022, revelou que crianças expostas a conflitos intensos entre os pais durante a separação têm 40% mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade. Além disso, a falta de preparo para lidar com essas mudanças pode resultar em comportamentos autodestrutivos. Maria, de 14 anos, começou a se isolar após o divórcio dos pais. Seu pai sempre trazia a nova esposa para as visitas, e Maria sentia que não tinha mais espaço para se abrir com ele. Aos poucos, ela se afastou de ambos os pais e, mais tarde, desenvolveu sintomas de depressão, que levaram anos para serem tratados. Ela teve relacionamentos tóxicos com manipuladores e agressivos, mas ela sentia que, pelo menos, tinha alguém que lhe dava atenção. Triste isso!
Como os pais podem proteger seus filhos?
Separações são dolorosas. Isso é um fato. Mas os filhos não podem, em hipótese alguma, carregar esse peso sozinhos. Carl Gustav Jung dizia que “as crianças são educadas pelo que o adulto é, e não pelo que ele diz”. Ou seja, as atitudes dos pais falam mais alto do que qualquer palavra.
Aqui estão algumas maneiras de proteger os filhos:
- Conversem com seus filhos sobre o que está acontecendo: De forma simples e clara, explique que a separação não é culpa deles.
- Não envolvam as crianças nas brigas: Elas não devem ser mediadoras, nem cúmplices em qualquer disputa entre os pais.
- Preparem os filhos para novas relações: Antes de apresentar um novo parceiro, converse com a criança, ouça seus medos e dúvidas.
- Busquem ajuda profissional: A psicoterapia é uma ferramenta poderosa para ajudar todos os envolvidos a lidar com essa transição.
Um futuro com menos dores
A separação dos pais pode ser um grande alívio para os filhos nos casos de relacionamentos tóxicos, abusivos, violentos, ou seja, com grande sofrimento. É melhor que se separem do que manter um ambiente nocivo para as crianças, que sofrem demais ao vivenciar um clima doméstico péssimo.
Se você está passando por uma separação, pergunte-se: o que você quer deixar para o seu filho? Um trauma ou uma lição de resiliência e amor? As crianças são mais fortes do que imaginamos, mas isso não significa que elas devem sofrer pelas escolhas dos pais. Cuidar delas é um ato de amor, que vai muito além da separação. E talvez, ao olhar para os olhos delas com mais empatia, seja possível encontrar um caminho mais leve para todos.
E você, já se perguntou o quanto deixa seu filho de lado e só pensa em si mesmo em diversas situações? Como está o coração da(o) sua(seu) filha(o) no meio de tudo isso?
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. @psicomanzione
Sérgio Manzione
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