Memorial celebra legado das matriarcas do candomblé e marca centenário de Mãe Stella de Oxóssi

Espaço integra o complexo museal do Solar Ferrão e fortalece a cultura afro-brasileira e o combate à intolerância religiosa


Iago Bacelar
Iago Bacelar 28/11/2025 18:30 • Cultura
Memorial celebra legado das matriarcas do candomblé e marca centenário de Mãe Stella de Oxóssi - Fernando Barbosa/IPAC
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A Bahia ganhou um novo espaço cultural dedicado à memória, à ancestralidade e à trajetória das principais matriarcas das religiões de matriz africana. O Memorial das Matriarcas Odé Kayodé foi inaugurado na noite da última quinta-feira (27). O local é a casa onde nasceu uma das mais importantes ialorixás do Brasil, Mãe Stella de Oxóssi (Odé Kayodé). O espaço funciona na Rua Gregório de Matos, 45, no Pelourinho, em Salvador.

O Memorial integra o complexo museal do Solar Ferrão. O equipamento funciona de terça a sábado, das 10h às 17h. A iniciativa é do Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura (Secult-BA), via Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi).

O projeto é fundamentado na museologia social e comunitária. O Memorial coloca as comunidades tradicionais de terreiro no centro das ações de preservação e difusão de saberes, práticas e objetos simbólicos. O espaço valoriza as memórias das matriarcas das casas primazes do Candomblé.

Estado reforça compromisso com cultura afro-brasileira

Lideranças religiosas, o povo de santo e autoridades prestigiaram o lançamento do Memorial. O equipamento se consolida como um marco para a cultura afro-brasileira. O espaço reafirma o compromisso do Governo da Bahia com a preservação do patrimônio, o fortalecimento das comunidades tradicionais e a luta antirracista.

O secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, destacou o compromisso do governo com a cultura afro-brasileira. Segundo ele, reverenciar o legado das matriarcas é reafirmar o “poder da cultura na preservação de memórias e valorização da história e do sagrado”.

“Para nós do Governo do Estado, é uma enorme satisfação abrir as portas desta casa, com todo esse legado e força, que vai impactar não só as pessoas do Pelourinho, mas todas que aqui passarem”, disse.

O projeto expográfico foi concebido para receber novas homenagens ao longo do tempo. O diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos, definiu o Memorial como uma reverência às matriarcas do Candomblé. “Com sua coragem e sabedoria, essas matriarcas reafirmaram a força e ancestralidade do nosso povo, enfrentando preconceitos e intolerâncias. O Memorial é um espaço de valorização, respeito às tradições e às trajetórias dessas mulheres, sacerdotisas que nos deixam como legado a força do axé”, disse.

Homenagem a Mãe Stella de Oxóssi e a força do acolhimento

A primeira sacerdotisa homenageada é Mãe Stella de Oxóssi (Odé Kayodé), no ano de seu centenário. A curadoria é de Mãe Ana de Xangô, yalorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, e de Ebgome Deusimar. O Memorial se apresenta como espaço de acolhimento, força e beleza.

“O que mais me emociona é sentir a presença de Mãe Stella em cada detalhe: nas fotografias, nos objetos, na palavra escrita, mas também no silêncio da casa, que guarda memórias que não se veem, apenas se sentem. É um lugar vivo, que conversa com o passado, celebra o presente e aponta para o futuro. Ao entrar nesta sala, parece que Mãe Stella está lhe recebendo”, afirmou Mãe Ana de Xangô.

No local, o público encontra um conjunto de fotografias emblemáticas logo na entrada, à esquerda. À direita, uma linha do tempo apresenta a trajetória de Maria Stella de Azevedo Santos. Ela foi iniciada no Candomblé aos 14 anos por Mãe Senhora, no Ilê Axé Opô Afonjá. A ialorixá recebeu o nome religioso Odé Kayodé, que traduzido do iorubá significa “o caçador traz alegria”.

Memorial conta trajetória de Mãe Stella

Mãe Stella de Oxóssi nasceu em maio de 1925. Ela liderou o Ilê Axé Opô Afonjá por 42 anos. Ela atuou também na área da saúde. A ialorixá formou-se na Escola Baiana de Enfermagem e Saúde Pública na década de 1940. Ela trabalhou por mais de 30 anos como visitadora sanitária. Mãe Stella faleceu em dezembro de 2018, aos 93 anos.

O Memorial reúne quatro espaços expositivos internos. Um dos espaços abriga um terminal de vídeo com entrevistas de Mãe Stella. Em outro espaço, o público pode viver uma experiência imersiva. O visitante participa de um xirê digital criado pelo VJ Gabiru. Na área externa, um canteiro com folhas sagradas trazidas do Ilê Axé Opô Afonjá e um mural da artista Nila Carneiro homenageiam a yalorixá.

Mãe Ana de Xangô destaca que o eixo central do projeto é a educação crítica, humanista e inclusiva. Esta perspectiva era defendida por Mãe Stella. A yalorixá explicou que o Memorial não oferece apenas objetos e memória. O espaço oferece caminhos pedagógicos como atividades, oficinas, visitas guiadas e rodas de conversa. A ideia é transformar a curiosidade do visitante em conhecimento e formar jovens conscientes do valor de sua história e identidade.

De acordo com a secretária de Promoção da Igualdade Racial, Ângela Guimarães, o Memorial é mais do que um equipamento cultural. Segundo ela, o espaço representa uma ação concreta de enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa.

“Historicamente tentaram silenciar a força do candomblé e das suas lideranças femininas. Ao celebrar a trajetória das nossas sacerdotisas, reafirmamos a centralidade das matriarcas na construção de uma Bahia plural, diversa e profundamente marcada pela herança africana”, afirmou.

Requalificação do Solar Ferrão e preservação do Patrimônio Histórico

O Memorial das Matriarcas integra o conjunto arquitetônico do Solar Ferrão. A reabertura completa do complexo museal está prevista para janeiro de 2026. A quarta e última etapa das obras de requalificação está na fase final. O investimento é superior a R$ 2,4 milhões. Os recursos são provenientes do Governo Federal e do Governo da Bahia. Esta é considerada uma das intervenções mais abrangentes já realizadas no espaço.

As obras contemplam a requalificação das instalações elétricas e hidrossanitárias. A pintura da fachada e dos ambientes internos também faz parte do projeto. A reforma inclui a adaptação de banheiros para pessoas com mobilidade reduzida e a recuperação do telhado. O Solar Ferrão recebeu melhorias no sistema de segurança. Foi realizada a implantação do projeto de prevenção e combate a incêndio e pânico. O projeto inclui hidrantes, corrimãos, guarda-corpos, sinalização de emergência e rotas de fuga.

O Solar Ferrão foi construído entre os séculos XVII e XVIII. O prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O edifício é um dos mais representativos exemplares da arquitetura colonial de Salvador. A requalificação preserva suas características originais. O trabalho assegura a continuidade do edifício como espaço de cultura e memória para a população baiana e visitantes.

Iago Bacelar

Iago Bacelar

Formado em Jornalismo pela UniFTC, com cerca de 2 anos de experiência em veículos online e 1 ano em assessoria de imprensa. Apaixonado por cultura, entretenimento e iniciando na política.

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