Egoísmo: amar quando convém
Quando interessa, o egoísta vive rodeado de gente útil para aquele momento
Imagem gerada por IA
A palavra egoísmo vem do latim “ego”, que significa “eu”. Na origem, designava a tendência de se colocar no centro das decisões, das emoções e do mundo. Com o tempo, o termo ganhou uma conotação moral e passou a ser visto como sinônimo de egocentrismo, orgulho ou falta de empatia.
Espelho do egoísta
O egoísta pode ser o rosto que se reflete no espelho todas as manhãs, disfarçado de virtude, eficiência e autocontrole. Às vezes, os outros dizem que a pessoa é egoísta, mas isso nem passa pela cabeça dela, porque acredita estar apenas se protegendo, sendo prudente, preservando sua paz ou sendo esperta.
Talvez não se reconheça como egoísta porque, na verdade, sente medo de errar, de se expor, de perder o pouco de amor que acredita ter conquistado. O egoísmo pode ser uma forma sofisticada de proteção, o medo de ser rejeitado ao se mostrar vulnerável.
Raízes psicológicas
O egoísmo, em muitos casos, pode nascer quando a criança percebe que o afeto vem acompanhado de exigências. Que ser amada parece depender de notas boas, obediência, silêncio ou um sorriso constante.
Carl Rogers, psicólogo norte-americano e criador da Abordagem Centrada na Pessoa, chamou isso de condições de valor: o amor é concedido apenas quando se atende a determinadas expectativas. Uma criança que cresce sob essas condições tende a criar uma armadura emocional, uma forma de se manter “aceitável”. Com o tempo, essa armadura pode se confundir com a própria identidade.
Erich Fromm, filósofo e psicanalista alemão, via o egoísmo não como maldade, mas como incapacidade de amar, resultado de um amor aprendido sob ameaça de perda. Já Carl Jung interpretou o egoísmo como um modo inconsciente de esconder a sombra, o conjunto das partes rejeitadas do “eu”. O medo de ser imperfeito pode transformar-se em necessidade de controle e aprovação.
Feridas do desamparo
Há pessoas que aprenderam que o amor é condicional e instável. Crianças que cresceram sem pai nem mãe fixos, que viveram “soltas” nas casas de familiares, ou que passaram parte da infância ora com o pai, ora com a mãe, podem desenvolver uma percepção profunda de abandono.
Elas talvez sintam que não podem perder mais do que já perderam e, por isso, se fecham. Muitas vezes, carregam dentro de si a ideia de que “só posso contar comigo mesmo; os outros não ligaram para mim”. Assim, nem sempre significa excesso de amor-próprio, mas, às vezes, carência dele. É uma tentativa de controlar o mundo externo quando o mundo interno parece ameaçador.
Com o tempo, essa crença pode gerar personalidades aparentemente seguras, até expansivas, mas emocionalmente rasas. Pessoas alegres em público, intensas em conversas, mas silenciosamente solitárias. Podem buscar, nos relacionamentos amorosos, o amor incondicional que faltou na infância. Em alguns casos, tornam-se exploradoras emocionais, manipulando afetos sem perceber, como se testassem o quanto o outro realmente as ama. Esses vínculos, às vezes, servem menos para amar e mais para provar algo: “ninguém vai me deixar de novo”.
Paradoxo: querer ser amado sem se doar
Há quem deseje amor sem entrega, presença sem vulnerabilidade, afeto sem reciprocidade. Esse é um dos paradoxos do egoísmo: querer ser amado, mas temer a doação que o amor exige. É comum que a pessoa espere o outro dar o primeiro passo, que se retraia diante da crítica, que se feche quando se sente ignorada. Vive à procura de garantias emocionais que não existem, porque o amor verdadeiro não é contrato, é risco.
Nesse movimento, o egoísta acaba preso à própria lógica de proteção. Evita a dor, mas também impede o encontro.
Mistura com outras máscaras
O egoísmo raramente se apresenta sozinho e pode se misturar com traços de narcisismo, quando a pessoa se sente constantemente no centro das atenções, mas usa essa posição para evitar o contato real com suas fragilidades.
Pode também se confundir com vaidade, quando a imagem idealizada de si serve como escudo para esconder a insegurança. Em alguns casos, há presença de orgulho, uma recusa em admitir limites ou pedir ajuda, que é reflexo do medo. E há, ainda, a falta de empatia, que pode surgir não da maldade, mas do esgotamento emocional de quem nunca foi verdadeiramente acolhido.
Esses traços podem coexistir e se alimentar mutuamente, criando personalidades aparentemente fortes, mas emocionalmente frágeis. Cada uma dessas máscaras tem a função psíquica de proteger o “eu” do desamparo original. Por isso, compreender o egoísmo exige cautela, pois nem todo comportamento centrado em si é sinal de maldade; às vezes, é apenas a tentativa desesperada de se manter inteiro em meio a tantas perdas internas.
Ingratidão e o uso do outro
Há pessoas que se transformam na melhor versão de si mesmas apenas para conseguir o que desejam. São encantadoras enquanto precisam, atentas enquanto têm algo a ganhar e disponíveis enquanto o outro lhes oferece utilidade emocional, social ou material. Quando o objetivo é alcançado, afastam-se sem culpa, como se o vínculo fosse apenas um meio.
Essas pessoas não rompem relações — simplesmente se desconectam. Um exemplo cotidiano é aquele que marca presença em três festas de Réveillon, prometendo participar de todas, apenas para decidir, na véspera, em qual delas terá mais vantagens, conforto ou prestígio. Assume compromissos em todas, mas descarta tranquilamente duas, deixando os anfitriões esperando.
A ingratidão, nesse sentido, é o braço estendido do egoísmo, pois ambos partem da mesma raiz, a incapacidade de reconhecer o outro como sujeito, e não como cenário. Trata-se de uma forma sofisticada de uso, onde a empatia se torna performance e o vínculo, ferramenta de conveniência.
É possível “curar” o egoísmo?
Talvez não se trate de cura, mas de transformação. O egoísmo pode diminuir à medida que a consciência aumenta. Quando a pessoa percebe que seu fechamento é medo, e não força, um novo espaço se abre. A mudança começa com a aceitação da própria imperfeição, com a coragem de se mostrar humana.
Carl Rogers dizia que quando alguém é aceito exatamente como é, torna-se capaz de mudar. Transformar o egoísmo talvez signifique permitir-se ser visto, admitir as próprias rachaduras e aceitar o amor sem tentar merecê-lo.
Reflexão final
O egoísmo pode não ser um defeito, mas um pedido silencioso de quem, em algum momento da vida, aprendeu que amar dói. A pergunta que resta é: quanto do seu silêncio é escolha e quanto é medo de não ser amado de novo?

Crédito: Divulgação
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
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