O que os criadores das redes sociais escondem de você?
Os filhos deles vivem longe das telas que estão moldando os jovens no mundo. Qual será o motivo?
Imagem gerada por IA
Os criadores que evitam suas próprias criações!
Steve Jobs foi o cofundador da Apple, empresa que transformou a relação humana com tecnologia pessoal ao criar produtos como o iPhone e o iPad. Em entrevista ao “The New York Times”, ele afirmou que seus filhos não usavam o iPad, e que havia regras rígidas de tempo de tela. Esse posicionamento surgiu de alguém que conhecia em detalhes o poder de estímulo, a dinâmica de retenção e a capacidade de imersão dos produtos que colocou no mundo.
Bill Gates, cofundador da Microsoft, foi responsável por popularizar o computador pessoal e moldar a era digital desde os anos 1980. Em entrevistas ao “The Mirror” e ao “The Times”, declarou que proibiu smartphones para seus filhos antes dos 14 anos, e que instituiu toque de recolher digital em sua casa. Suas decisões refletem preocupação com maturidade cerebral, autocontrole e desenvolvimento emocional.
Mark Zuckerberg é o cofundador da Meta Platforms, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp. Em entrevistas públicas, afirmou que limita telas voltadas ao entretenimento para seus filhos e prioriza atividades “offline” dentro da família. Em audiência no Comitê Judiciário do Senado dos EUA, em janeiro de 2024, pediu desculpas às famílias que relataram danos emocionais causados pelo uso das redes sociais. Declarou que sentia muito pelo sofrimento daquelas pessoas, e afirmou que ninguém deveria enfrentar aquilo. Esse pedido de desculpas não o fez alterar a estrutura das plataformas, mas revela que o próprio arquiteto do sistema sabe do impacto negativo dos seus produtos.
A terceirização silenciosa da infância
Tornou-se comum observar pais dando telas para crianças muito pequenas como forma de aliviar responsabilidades, que antes eram assumidas diretamente. O celular ou tablet é a chupeta eletrônica, que acalma o bebê inquieto no restaurante, a criança impaciente no fim de semana, e evita uma birra no supermercado.
A criança aprende, desde cedo, que tédio, frustração e desconforto são sensações que precisam ser eliminadas imediatamente. Aprende que basta um toque para que tudo melhore. Essa lógica fragiliza a tolerância à frustração, reduz a criatividade espontânea e compromete a construção de autonomia emocional.
Como era possível educar, acalmar, orientar e distrair crianças sem recorrer a vídeos, celulares e estímulos constantes? A resposta é simples: havia presença, conversa, imaginação, frustração necessária, brincadeiras manuais, exploração, silêncio e vínculo.
O choque que chega na adolescência
Quando a adolescência chega, muitos pais se surpreendem com irritabilidade, dependência de tela, ansiedade, impulsividade e dificuldade de foco apresentadas pelos filhos. Tentam impor limites, mas é tarde demais. O adolescente reage porque a tela já foi incorporada como parte da própria identidade. A naturalização começa na infância e a permissividade de ontem se transforma na impotência de hoje.
Crianças e adolescentes foram expostos a estímulos digitais intensos antes que qualquer pesquisa sólida definisse os impactos neurobiológicos de longo prazo. Isso criou um descompasso perigoso: o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole e tomada de decisões, ainda está em formação nessa fase, atingindo sua plena maturação apenas após os 20 anos.
A pressão social e a armadilha da “redução de danos”
A sociedade passou a acreditar que estar conectado é sinônimo de estar incluído, e muitos pais cedem ao argumento “todos os amigos têm” por medo de que o filho seja excluído. O critério deixa de ser o que é saudável e passa a ser o que gera menos atrito.
Para lidar com a consciência pesada diante dessa concessão, cria-se um repertório de justificativas racionais: “é para a segurança dele”, “preciso que ele me avise quando sair da escola” ou “os jogos ajudam no raciocínio lógico”. Embora existam situações práticas, muitas dessas frases funcionam como um escudo psicológico. No fundo, a entrega do dispositivo mascara a incapacidade do adulto em sustentar o conflito e tolerar a frustração da criança. Dizer “não” exige energia; ceder é o caminho da conveniência.
Aqui cabe um paralelo duro, mas necessário, com a liberação precoce de bebidas alcoólicas. Ainda existem famílias que seguem a lógica de que “é melhor ele beber o primeiro gole em casa, sob os meus olhos, do que beber na rua escondido”. A intenção é de proteção e controle, uma tentativa de “redução de danos”. Com o celular, o raciocínio é idêntico: os pais acreditam que, ao introduzirem a tecnologia cedo e “dentro de casa”, estão no controle da situação.
O erro em ambas as lógicas é biológico. Assim como o fígado de um adolescente não possui as enzimas necessárias para metabolizar o álcool sem sofrer danos, o cérebro infantil não possui as estruturas inibitórias para lidar com a dopamina desenfreada dos algoritmos. A supervisão dos pais não altera a química do vício. Oferecer a tela cedo para “preparar” a criança é tão ineficaz quanto oferecer álcool para “ensinar” o fígado a beber. Em ambos os casos, o que se faz é apenas antecipar a dependência.
O mundo fecha o cerco
Essa percepção de risco tornou-se tão evidente que ultrapassou a esfera familiar e virou política pública. Enquanto muitos pais ainda hesitam, governos de diversos países, incluindo o Brasil, avançam para proibir o uso de celulares nas escolas.
A conclusão institucional é óbvia: o aprendizado e a socialização são incompatíveis com a distração dos celulares. Se a escola, um ambiente controlado e focado no saber, precisou da força da lei para retirar as telas das mãos dos alunos, é um sinal claro de que a autorregulação falhou. E se o Estado intervém, porque o ambiente escolar não suporta a concorrência com o celular, por que acreditamos que uma criança sozinha no quarto terá forças para resistir?
Um caminho possível para as famílias
Pesquisas recentes indicam que 69% das crianças brasileiras de até 5 anos ultrapassam o limite considerado seguro para uso de telas. Para crianças de 0 a 2 anos qualquer tempo de tela é exposição excessiva, e para crianças entre 2 e 5 anos é mais de 1 hora diária. Outro levantamento, realizado em 2025, mostra que 78% das crianças de até 3 anos, e 94% das de 4 a 6 anos utilizam telas todos os dias. A hiperexposição não é a exceção, mas a regra.
A solução não está no extremismo, mas na consciência. Sugiro práticas simples, aplicáveis e eficazes, que aumentam presença e reduzem hiperestimulação:
- Adie ao máximo a entrega de celulares e tablets para crianças.
- Crie rotinas familiares sem telas durante as refeições e dentro dos quartos.
- Incentive atividades que exigem presença e foco, como leitura, brincadeiras, esportes e artes.
- Converse abertamente sobre o uso da tecnologia, seus efeitos emocionais e impactos negativos no humor e na atenção.
- Seja o exemplo: nenhuma regra funciona se os pais não demonstrarem um uso equilibrado.
Essas medidas não eliminam a tecnologia, mas fortalecem vínculos, restauram a capacidade de atenção e desenvolvem a autonomia emocional.
Uma conclusão incômoda
Os criadores das grandes plataformas não evitam a tecnologia por respeito ao impacto que ela produz. Conhecem os riscos, o mecanismo do vício e o efeito da hiperestimulação sobre o desenvolvimento emocional das crianças. Usam esse conhecimento para proteger seus filhos, enquanto milhões de pais entregam cedo demais aquilo que os próprios inventores restringem.
A pergunta final continua sendo a mesma, dura e indigesta: se quem criou evita, por que você não evita também?

Crédito: Divulgação
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
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