Como estudar após os 60 anos virou um novo projeto de vida e inspirou outras gerações
História revela como a maturidade pode ser um tempo fértil para novos projetos e escolhas conscientes
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Aos 61 anos, a pedagoga Luiza Ribeiro, diretora de Desenvolvimento Artístico Cultural da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, acaba de realizar mais um sonho: concluiu com louvor o mestrado sobre políticas ambientais no ensino superior. Para ela, o novo diploma não é um ponto de chegada, mas um símbolo de uma fase onde o aprendizado é movido pelo sentido e pela leveza, e não apenas pela obrigação produtiva. Sua trajetória é um exemplo prático de que a maturidade, longe de ser um período de estagnação, pode ser o terreno mais fértil para a reinvenção pessoal e profissional.
Luiza carrega consigo uma bagagem que atravessa décadas de sala de aula e gestão acadêmica, tendo passado por diversos níveis do ensino. Sua história com a “Bahiana” já soma 25 anos, período em que transitou da atenção psicopedagógica ao desenvolvimento de pessoas, até assumir o desafio de sistematizar a arte e a cultura na instituição. Essa transição recente para a diretoria coincide com um despertar interno, impulsionado por programas de longevidade e por uma necessidade de responder a inquietações que a pandemia de Covid-19 tornou urgentes.
Mestrado como reorganização de si
A decisão de encarar o mestrado profissional na UNEB veio em um momento em que Luiza buscava “algo mais”. Influenciada por um programa de preparação para a maturidade na própria instituição onde trabalha, ela percebeu que o futuro não era algo para se esperar, mas para se desenhar. O tema escolhido — políticas ambientais no ensino superior — nasceu da vivência prática no Comitê Bahiana Verde, fundado por ela em 2017. A defesa da dissertação, ocorrida há poucos dias, foi o ápice de um processo que uniu o rigor acadêmico à segurança que só a experiência de vida proporciona.

Foto: Acervo pessoal
“Fazer um mestrado pós 50, 60 anos, é uma delícia, porque o que vale é o processo, você tem mais segurança, fica mais leve, com certeza. Tive que aprender a escrita acadêmica, tive que aprender sobre metodologia, tive medo, tive tudo, mas em doses bem menores e bem menos desestruturantes do que quando a gente faz sem a vivência, sem a experiência da vida. Chega uma hora que você escreve, escreve, escreve e diz: ‘bom, isso é o que eu posso entregar, eu dei o meu máximo’. Eu tinha sede de ouvir o que eu precisava melhorar”, contou, em entrevista ao Portal M!.
Apesar da vasta experiência, o ambiente acadêmico trouxe seus próprios fantasmas. O medo de ser “formatada” pelo rigor ou de falhar na hora da apresentação acompanhou a jornada. No entanto, o diferencial da maturidade foi o foco: Luiza não buscava a nota ou o status de ser a melhor, mas a profundidade do aprendizado. Ela enfrentou os ritos de passagem acadêmicos com rebeldia consciente, adaptando as exigências ao seu jeito informal e autêntico de ser.
“Eu acho que o primeiro medo é que eu sou muito informal, então eu tinha muito medo de entrar no quadrado do acadêmico. Eu tinha medo de ser formatada. Eu tive o medo que todo aluno tem: ‘vou esquecer, não vou aprender, será que eu estou escrevendo certo?’. Hora nenhuma eu pensei em nota. Hora nenhuma eu pensei que tinha que ser o melhor de todos. Eu queria fazer como eu fiz e aprender o que eu aprendi”, conta.
Inspirar para transformar
Atualmente, Luiza vê sua conquista como uma forma de inspirar tanto os mais jovens quanto os seus contemporâneos. Com amigos que variam dos 14 aos 80 anos, ela entende que a idade é um dado, mas a postura diante da vida é uma escolha. Tendo superado dois episódios de depressão no passado, ela se descreve como uma pessoa expansiva que celebra a existência por meio de encontros e festas, como a tradicional “No Que Deu”, que criou há décadas. Para ela, longevidade ativa é manter a essência viva e aberta ao novo.
“Eu gosto de dizer que eu fiz o mestrado com 61 anos, por exemplo. Primeiro, porque tem a ver comigo, com a minha área de educação, de pedagogia. Segundo, porque eu acho que isso inspira mesmo outras pessoas, o mais jovem que está com medo de alguma coisa, porque eu olhei para as pessoas mais velhas e admirei meu pai, minha mãe, meus amigos. Eu acho que é só você ser o que você é, sem querer muita coisa”.
Para Maiza Neville, autora do livro Diversidade geracional: mutações, transformações e impactos dos 50+ nas organizações, a longevidade ativa não é um destino onde se chega, mas um estado de presença e movimento contínuo. Sua análise foca na transição do “medo da obsolescência” para a “consciência de valor”, um processo que exige coragem para encerrar ciclos e honestidade para iniciar novos, independentemente do que diz o calendário.

Foto: Acervo pessoal
Fundadora e Diretora Executiva da Damicos Consultoria, Maiza observa que a reinvenção na maturidade muitas vezes é freada por receios silenciosos de perder relevância. No entanto, ela defende que o medo deve ser encarado como um convite à reflexão, e não um sinal de incapacidade. O segredo dessa fase, segundo a especialista, está em reconhecer o repertório de vida como um patrimônio sólido que permite fazer escolhas com mais serenidade e menos peso.
“Sempre acreditei que longevidade ativa não é sobre ‘chegar bem ao futuro’, mas sobre permanecer em movimento — mesmo quando o caminho muda. Ao longo da vida, precisei reaprender a começar, reorganizar prioridades, encerrar ciclos e abrir outros. E aprendi algo essencial: a reinvenção não pertence a uma idade específica. Ela acontece quando escutamos, com honestidade, o que faz sentido agora. Esse movimento interno parece simples, mas exige coragem”.
Patrimônio do repertório
A consultora destaca que a maturidade traz consigo a capacidade de distinguir o que é essencial do que é apenas cobrança externa. Em vez de rupturas dramáticas, Maiza sugere que a longevidade ativa se constrói com perguntas simples: o que ainda faz sentido oferecer ao mundo? Essa clareza transforma o cotidiano, permitindo que o retorno aos estudos ou a descoberta de novos interesses sejam encarados como escolhas libertadoras, e não como obrigações de produtividade.
“O que muitas pessoas não reconhecem e que esta fase da vida torna mais evidente, é a existência de um patrimônio silencioso: a consciência de valor. Não se trata apenas de competências profissionais, mas de repertório de vida. Da capacidade de distinguir o que importa do que pesa. De enxergar particularidades, fazer escolhas com mais serenidade. É esse valor que sustenta qualquer reinvenção”.
Para Maiza, a integração entre honrar a própria história e abrir espaço para o novo é o que fortalece o indivíduo 60+. Esse “novo” não precisa ser uma mudança de vida radical; ele se manifesta em pequenos gestos, como testar um desejo antigo em pequena escala ou buscar conversas que ampliem perspectivas. O importante é o deslocamento do campo do desejo para o campo da ação consciente, respeitando o ritmo e a energia de cada um.
“A longevidade ativa se fortalece quando integramos três movimentos: reconhecer o medo, honrar a trajetória e abrir espaço para o novo. E esse novo não precisa ser grandioso. Pode começar pequeno — quase discreto. Revisitar um interesse antigo que ficou adormecido; organizar a semana com uma pequena meta de experimentação; dizer ‘sim’ a algo que desperte curiosidade”.
Presença e pertencimento
A visão de Maiza Neville desconstrói a ideia de que ser ativo aos 60 anos ou mais significa trabalhar exaustivamente ou provar eficiência constante para a sociedade. Pelo contrário, trata-se de ocupar espaços com autenticidade. Estar inteiro na etapa atual, reconhecendo tanto os limites quanto as novas possibilidades, é o que torna o tempo de vida mais consciente e, consequentemente, mais significativo.
“Porque permanecer ativo não significa trabalhar sem parar ou provar eficiência a qualquer custo. Significa sentir-se pertencente, útil, integrado ao mundo. Significa ocupar espaços com mais autenticidade e leveza, mesmo quando a vida muda ao redor. A longevidade ativa é, essencialmente, um estado de presença. Estar inteiro na etapa atual, reconhecendo limites e possibilidades, pode tornar esse tempo mais consciente”.
Ela frisa que a reinvenção é um passo de cada vez, não sendo necessário ter todas as respostas antes de começar; o movimento em si é o que gera a clareza necessária para o caminho.
“Se há algo que aprendi acompanhando tantas trajetórias, é isso: a reinvenção não começa quando tudo está claro. Ela começa no instante em que decidimos dar um passo — mesmo sem saber exatamente aonde ele vai nos levar. O próximo passo é seu. E ele pode ser menor, mais simples e mais transformador do que você imagina”.
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