Patrimônio Imaterial de Salvador, Festa de Iemanjá reafirma fé, memória e protagonismo dos pescadores
Celebração mobiliza fé, memória, ações de preservação e transforma o Rio Vermelho em um dos maiores cenários religiosos do Brasil
Bruno Concha/PMS
Na próxima segunda-feira (2), Salvador vivenciará mais uma edição de um dos seus eventos mais emblemáticos: a Festa de Iemanjá, no bairro do Rio Vermelho. A celebração reúne milhares de fiéis, pescadores, moradores e turistas, consolidando-se como uma das manifestações populares mais importantes do calendário cultural da capital baiana. Realizada tradicionalmente a partir da Colônia de Pescadores Z1 e da Casa de Iemanjá, a festa representa um encontro entre religiosidade, ancestralidade africana, cultura popular e preservação da memória coletiva.
Festa de Iemanjá recebe apoio do poder público e é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador
A dimensão da celebração envolve uma ampla mobilização do poder público municipal, com a atuação integrada de serviços de mobilidade urbana, trânsito, saúde, segurança e ordenamento dos espaços públicos, garantindo suporte ao grande fluxo de pessoas que se desloca para o bairro ao longo do dia. Reconhecendo sua relevância histórica e simbólica, a Festa de Iemanjá foi oficialmente registrada, em 2020, como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador pela Fundação Gregório de Mattos (FGM).
“A Festa de Iemanjá é uma forma de reafirmar a relevância de uma celebração dedicada a um orixá na cidade mais negra fora da África. A FGM tem um papel fundamental na preservação dessa festa, considerando sua singularidade e antiguidade. Trata-se de uma celebração com mais de 100 anos de existência que, desde 1º de fevereiro de 2020, foi oficialmente registrada como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador”, afirmou o diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da FGM, Vagner Rocha.
O reconhecimento institucional reforça a importância da celebração não apenas como evento religioso, mas como um marco da identidade cultural da cidade, cuja história está profundamente ligada ao mar, à Baía de Todos-os-Santos e às religiões de matriz africana.
Patrimônio cultural e políticas de salvaguarda
A Fundação Gregório de Mattos, órgão responsável pela política cultural do município, mantém atuação contínua junto às festas populares, com foco na preservação dos elementos fundamentais dessas manifestações. No caso da Festa de Iemanjá, esse trabalho inclui o diálogo permanente com a Colônia Z1, considerada a principal guardiã da tradição.
Entre as ações já implementadas estão o Plano de Salvaguarda da Festa de Iemanjá, o restauro da imagem da orixá localizada em frente à Casa de Iemanjá e a recuperação de embarcações utilizadas pelos pescadores, responsáveis pela condução do presente até o alto-mar, momento considerado o ápice simbólico da celebração.
Em 2026, a política de preservação inclui ainda a restauração da escultura da sereia do Largo da Mariquita, obra do artista Tatti Moreno, ampliando o cuidado com os marcos urbanos associados à festa. Essas iniciativas reforçam o entendimento da celebração como um patrimônio vivo, que exige atenção ao longo de todo o ano, e não apenas no dia do evento.
A Festa de Iemanjá ocupa um lugar singular entre as manifestações religiosas de Salvador por ser dedicada exclusivamente a um orixá, sem associação direta ao sincretismo religioso, característica que a diferencia dentro do conjunto de festas populares da cidade. Ao reverenciar Iemanjá, a celebração também promove reflexões sobre o respeito às águas, à natureza e à preservação ambiental, especialmente em um contexto contemporâneo marcado pelos debates sobre mudanças climáticas.
Protagonismo dos pescadores e preservação da memória
Embora conte com apoio institucional, a continuidade da Festa de Iemanjá está diretamente ligada ao protagonismo dos pescadores da Colônia Z1, responsáveis pela organização, guarda dos símbolos, condução das oferendas e realização do cortejo marítimo. São eles que mantêm vivos os rituais, os conhecimentos tradicionais e a dimensão comunitária da celebração.
A história da festa revela um passado marcado pela organização autônoma, quando os próprios pescadores arcavam com os custos e estruturavam a celebração de forma colaborativa. Com o crescimento da manifestação e sua consolidação no calendário cultural de Salvador, o evento passou a receber suporte do poder público, ampliando sua estrutura sem romper com sua essência comunitária.
Hoje, a Festa de Iemanjá se destaca como uma das maiores expressões de religiosidade popular do Brasil, reunindo devoção, turismo, cultura, economia criativa e valorização das matrizes africanas.
Origem da Festa de Iemanjá e o simbolismo das águas
A Festa de Iemanjá tem origem nos cultos trazidos ao Brasil por povos africanos, especialmente da etnia iorubá, durante o período do tráfico transatlântico. Inicialmente associadas às divindades das águas doces, as homenagens se transformaram ao longo do tempo e, em Salvador, foram incorporadas ao cotidiano dos pescadores do Rio Vermelho, que passaram a oferecer presentes à Rainha do Mar em busca de proteção e fartura.
Com o passar das décadas, a celebração se fixou no dia 2 de fevereiro, ganhou dimensão pública e se expandiu, tornando-se um dos maiores eventos religiosos do país. No campo simbólico, Iemanjá representa maternidade, proteção, fertilidade e geração da vida, enquanto Oxum, orixá das águas doces, simboliza amor, equilíbrio, prosperidade e sensibilidade. A entrega do presente de Oxum, realizada na véspera, cumpre a função de abertura espiritual dos rituais.
Programação oficial da Festa de Iemanjá 2026
A programação religiosa começa no domingo (1º), com a entrega do presente de Oxum. O cortejo sai às 23h10 do Terreiro Olufanjá, no Beiru, com chegada prevista ao Dique do Tororó por volta das 23h40, onde ocorre a entrega do presente à meia-noite. O ritual simboliza a ligação entre rios, lagoas e o mar, preparando espiritualmente a cidade para o dia dedicado à Rainha do Mar.
Na segunda-feira (2), o principal presente de Iemanjá sai às 4h30 do galpão da Colônia Z1. Às 5h, chega à Praia de Santana, acompanhado pela tradicional alvorada de fogos. O presente permanece no carramanchão até as 16h, período destinado às oferendas. Em seguida, é conduzido pelos pescadores até a embarcação que segue para o Buraco de Iaiá, a cerca de três milhas náuticas da costa, onde ocorre a entrega ao mar.
Durante todo o período, os pescadores organizam a Casa de Iemanjá e o Barracão, orientando fiéis e visitantes.
Eventos culturais e festas paralelas
Além dos rituais religiosos, a Festa de Iemanjá movimenta o Rio Vermelho com uma ampla agenda cultural, que inclui:
- Alvorada de Iemanjá – Colaboraê (1º/02, 21h, Rua Borges dos Reis)
- Iemanjá na Casa Rosa (2/02, 13h às 20h, Casa Rosa)
- Iemanjá Blue 2026 (2/02, 10h às 19h, Blue Praia Bar)
- Iemanjá Pai Inácio 2026 (2/02, 10h, Pai Inácio Rio Vermelho)
- 1ª Lavagem da Ceasinha (1º/02, 11h às 19h, Mercado do Rio Vermelho)
- Baile Azul e Branco – Ano IV (1º/02, 20h30, Varanda do Sesi)
- Som das Águas (2/02, 10h às 22h, Bombar)
- Dos Mares (2/02, 12h às 20h, Principote Salvador)
- Enxaguada de Yemanjá (2/02, 16h, Villa Caramuru)
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