Alta da Selic para 15% gera críticas de entidades do setor produtivo e centrais sindicais
Com a elevação de 0,25 ponto percentual, a Selic atinge agora o maior patamar em quase duas décadas
Marcello Casal JrAgência Brasil
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de elevar a Taxa Selic para 15% ao ano provocou forte reação de entidades da indústria, do comércio e de centrais sindicais. Para os críticos, o novo aumento dos juros básicos da economia vai na contramão do cenário atual, sufoca o setor produtivo e agrava a situação dos trabalhadores brasileiros. A informação é da Agência Brasil.
CNI diz que decisão é injustificável e sufoca o setor produtivo
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, classificou a decisão como “injustificável” e alertou que os juros altos estão comprometendo a competitividade e a sobrevivência das empresas. “Não lidávamos com um patamar tão alto desde 2006. A irracionalidade dos juros e da carga tributária já está sufocando a capacidade dos setores produtivos, que enfrentam um cenário conturbado e possibilidade de aumento de custo de captação de crédito”, afirmou Alban.
Para ele, o aumento da Selic contradiz outras decisões da própria autoridade monetária. “É um contrassenso o Banco Central se manifestar contra o aumento do IOF enquanto decide elevar a taxa de juros. Aonde se quer chegar?”, questionou.
Supermercados e comércio veem oportunidade perdida para corte
A Associação Paulista de Supermercados (Apas) também condenou o aumento. Segundo o economista-chefe da entidade, Felipe Queiroz, havia espaço para manter a taxa estável ou até mesmo iniciar uma queda. “Não há justificativas para uma taxa de juros neste patamar. O cenário atual exige políticas alinhadas ao estímulo à produção e ao crescimento doméstico”, defendeu.
Queiroz ressaltou que, mesmo com juros elevados, a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025 ainda é de 2,2%. “Se tivéssemos uma taxa mais civilizada, inegavelmente o crescimento seria maior”, completou.
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por sua vez, afirmou que a elevação surpreendeu o mercado, mas reconheceu que a inflação subjacente — que desconsidera preços mais voláteis — segue acima da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional, de 3%, podendo atingir o teto da tolerância, de 4,5%.
“O cenário de expansão fiscal e expectativas inflacionárias desancoradas justificam, na visão do Banco Central, uma postura mais contracionista, mesmo com sinais de desaceleração da atividade econômica”, avaliou o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da ACSP.
Sindicatos apontam impacto sobre o consumo e o emprego
Entre os sindicatos, o tom foi ainda mais duro. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) acusou o Banco Central de prejudicar as famílias brasileiras com uma política que transfere recursos dos consumidores e das empresas para o setor financeiro.
“Os juros altos desestimulam os investimentos e o consumo. O Brasil estaria gerando muito mais empregos de qualidade, com melhores salários, se não fosse essa política monetária que asfixia o mercado de trabalho”, declarou Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da CUT nacional.
A Força Sindical também se posicionou contra a decisão, afirmando que a nova alta é “um veneno” para a economia. “Juros altos são um convite à especulação e proporcionam lucros exorbitantes ao setor bancário, em detrimento da indústria e do comércio. Os trabalhadores estão convencidos de que, com essa política do Copom, o desemprego e a pobreza vão se aprofundar ainda mais”, disse Miguel Torres, presidente da entidade.
Selic atinge maior nível desde 2006
Com a elevação de 0,25 ponto percentual, a Selic atinge agora o maior patamar em quase duas décadas. O Banco Central justificou a decisão citando a necessidade de ancorar expectativas de inflação e consolidar a desaceleração dos preços, apesar da crescente pressão política e econômica por um alívio nos juros.
Enquanto isso, o setor produtivo e os trabalhadores pedem mudança na estratégia econômica e alertam para os riscos de manter o país preso a uma política de juros elevados em meio à fragilidade da recuperação econômica.
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