Comandante contradiz Cláudio Castro e nega planejamento do ‘Muro do Bope’ durante megaoperação no Rio
Depoimento ao Ministério Público confronta a versão do governo estadual e levanta dúvidas sobre planejamento, execução e dinâmica dos confrontos na Serra da Misericórdia
Joédson Alves/Agência Brasil
O depoimento do comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), tenente-coronel Marcelo Corbage, ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) abriu uma nova fase de pressão política e institucional sobre o governo fluminense. A fala do oficial contradiz diretamente a versão do governador Cláudio Castro (PL) a respeito do chamado “Muro do Bope”, estratégia apresentada pelo governo como a principal justificativa para a condução da megaoperação que terminou com dezenas de mortes na Serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão.
A divergência expõe uma série de incertezas sobre planejamento, posicionamento prévio das tropas, movimentação dos criminosos e risco tático, ampliando o debate sobre a condução das ações policiais no Rio de Janeiro. Especialistas ouvidos por diferentes instituições apontam que a incompatibilidade entre as versões oficiais reforça a necessidade de aprofundamento das investigações.
O que disse o comandante do Bope ao Ministério Público
Em depoimento ao MPRJ, Marcelo Corbage foi categórico ao negar que o Bope tenha se posicionado antecipadamente na área de mata para executar o que é conhecido como “troia”, uma emboscada ilegal em que agentes ficam escondidos para neutralizar suspeitos. Segundo ele, “não é verdade” que tenha havido esse tipo de movimentação prévia.
Corbage relatou que a entrada da tropa na parte alta da Serra da Misericórdia ocorreu em resposta ao movimento antecipado de integrantes do Comando Vermelho (CV). O comandante afirmou que os criminosos teriam buscado vantagem tática deslocando-se primeiro para o interior da mata com o objetivo de surpreender a Polícia Civil. O depoimento coloca em xeque a narrativa construída pelo governo estadual e sugere que a operação pode ter evoluído de modo reativo, e não a partir de uma estratégia previamente definida.
“Imagens de drone mostram criminosos se deslocando ordenadamente para a Vacaria, claramente com a intenção de preparar uma emboscada para as forças de segurança. Em razão de relativa falta de resistência, os policiais civis foram progredindo, sendo atraídos para uma armadilha”, declarou.
Cláudio Castro defendeu planejamento para ação
A fala de Corbage contrasta diretamente com o discurso do governador Cláudio Castro (PL), que vinha defendendo publicamente a existência de um planejamento detalhado para empurrar criminosos para áreas de mata, reduzindo os confrontos em regiões densamente povoadas.
“Os confrontos estão acontecendo, e não vou dizer 100% porque pode ter acontecido um ou outro, mas majoritariamente em área de mata. Foi pensado para encurralá-los lá para que a população sentisse o mínimo possível”, afirmou Castro ao comentar a ação.
O secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, também sustentou que houve uma “incursão de tropas do Bope na área mais alta da montanha”, operando aquilo que chamou de “Muro do Bope” – uma suposta linha de contenção pensada para empurrar os suspeitos para o topo da serra. A contradição coloca o governo sob pressão adicional, especialmente diante das críticas de organizações de direitos humanos e de parlamentares que pedem esclarecimentos detalhados sobre a operação.
O que ainda precisa ser esclarecido pela investigação
A investigação tenta responder a perguntas fundamentais sobre a dinâmica da operação. Uma delas é se as tropas do Bope realmente se posicionaram previamente na mata — como afirmou o governo — ou se, ao contrário, foram conduzidas até lá pela movimentação estratégica do CV, como declarou Corbage.
Outra dúvida crucial é o momento em que as forças de segurança perceberam que estavam sendo levadas para uma possível emboscada. Segundo o comandante, os policiais civis avançaram diante da baixa resistência inicial, o que teria favorecido que fossem atraídos para um ponto de desvantagem.
Responsáveis pela investigação também analisam se houve falha de comunicação entre Bope, Polícia Civil e comando da PM durante o avanço; quanto tempo a operação levou para compreender a movimentação ordenada dos criminosos; se o “Muro do Bope” realmente constava do planejamento oficial ou se o termo passou a ser utilizado após os confrontos como forma de justificar a estratégia. As respostas têm potencial para alterar completamente o entendimento público sobre um dos episódios mais violentos da história recente da segurança pública fluminense.
Entenda o que é o ‘Muro do Bope’
Segundo declarações do próprio governo estadual, o “Muro do Bope” seria uma linha de contenção formada por policiais posicionados estrategicamente na serra, com o objetivo de concentrar os suspeitos em áreas menos povoadas, longe dos moradores. A estratégia teria passado por 60 dias de planejamento, com mapeamento de terrenos e rotas de fuga.
Entretanto, a fala de Corbage coloca em dúvida a existência dessa preparação antecipada. Para analistas, a contradição reforça a necessidade de uma investigação minuciosa e independente, que possa esclarecer se houve falhas táticas, violação de protocolos, riscos desnecessários às equipes policiais, ou narrativas divergentes utilizadas para justificar o resultado da operação. A forma como o episódio será esclarecido terá impacto direto na percepção sobre a segurança pública no Rio e nas políticas adotadas pelo governo estadual.
Mais Lidas
Política
Últimas Notícias
Central de Outdoor lança ação solidária e apoia instituições sociais na Bahia
Operação Volta às Aulas 2026: Procon-BA fiscaliza listas escolares, vendas casadas e alerta pais sobre abusos
Fiscalização ocorre em escolas, livrarias e papelarias para garantir direitos do consumidor durante o período de compras de material escolar
Olodum retorna à Lavagem do Bonfim em 2026 com grande cortejo percussivo nesta quinta-feira
Bloco afro participa da festa com 120 percussionistas, 80 dançarinos e mais de 20 alegorias em Salvador
BBB 26: Ricardinho aperta botão vermelho e desiste do Quarto Branco
Ricardinho Freestyle abandona dinâmica do Quarto Branco após mais de 12 horas e se torna o primeiro desistente da disputa por vaga no reality
Wellington César assume Ministério da Justiça e Segurança Pública após convite de Lula
Nomeação será publicada em edição extra do Diário Oficial da União
Itabuna lança Carnaval antecipado e confirma shows de Bell Marques, Léo Santana, Xanddy e mais; confira atrações
Festa acontece entre 22 e 25 de janeiro, reúne grandes atrações e marca a retomada do evento após a pandemia
Operação Ômega investiga esquema milionário e apreende bens em Itapetinga
Ação cumpriu mandados judiciais e resultou na apreensão de veículos, imóveis, dinheiro e outros bens
Micareta de Lauro de Freitas terá Xanddy, Parangolé, Alinne Rosa e mais; veja datas e atrações
Evento acontece entre sexta-feira (16) e domingo (18), na Avenida Beira Rio, e abre calendário de grandes festas populares do município
Governo da Bahia certifica mais de 200 mototaxistas e motofretistas e entrega equipamentos de segurança
Projeto Condução Decente certifica profissionais de 16 municípios e entrega equipamentos durante ação em Salvador
Félix Mendonça Jr. nega irregularidades, critica lentidão da investigação e diz que ações da PF causam ‘prejuízos políticos’
Em nota, deputado do PDT afirma colaborar com investigações, questiona nova diligência da PF e mantém confiança na Justiça
A responsabilidade civil das redes sociais no Brasil: perfis falsos
Neste artigo, Felipe Braga do Amaral Silva analisa a responsabilidade civil das redes sociais diante de perfis falsos criados por IA, explicando os direitos das vítimas