Operação da PF apura ‘obras fantasmas’ com emendas parlamentares na Bahia e no Nordeste
Investigação da PF envolve deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT) e cita recursos atribuídos a Elmar Nascimento (União Brasil)
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A Bahia está no centro da mais recente fase da Operação Overclean, da Polícia Federal, que investiga um amplo esquema de desvio de verbas públicas provenientes de emendas parlamentares, muitas delas ligadas ao chamado orçamento secreto. A apuração avançou para a 9ª fase na última semana e teve como principal alvo o deputado federal baiano Félix Mendonça Júnior (PDT), tornando-o o quarto parlamentar investigado no inquérito que se espalha por diferentes estados do Nordeste.
Por determinação do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao parlamentar em Brasília e na Bahia, além do bloqueio de R$ 24 milhões em contas associadas a investigados. A Polícia Federal apura a existência de um esquema que teria movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão em 4 anos, envolvendo repasses, contratos públicos e execução de obras que, em muitos casos, não saíram do papel, conforme matéria do Fantástico exibida neste último domingo (18).
Bahia concentra repasses sob suspeita
Segundo a Polícia Federal, foi possível rastrear o envio de R$ 25 milhões em emendas atribuídas a Félix Mendonça Júnior (PDT) para pelo menos três municípios baianos. Os repasses foram distribuídos entre Boquira (R$ 4 milhões), Ibipitanga (quase R$ 13 milhões) e Paratinga (pouco mais de R$ 8 milhões).
Durante a investigação, a PF apreendeu documentos e o celular de Marcelo Gomes, assessor do deputado, em junho de 2025. O conteúdo analisado inclui registros de conversas com o empresário Evandro Baldino, que apontariam para tratativas envolvendo pagamentos e repasses a prefeitos dos municípios contemplados com as emendas.
A investigação indica que os diálogos tratariam de movimentações financeiras paralelas relacionadas à liberação de recursos. A Polícia Federal analisa o material como possível indício de negociação irregular de verbas públicas.
O deputado nega qualquer participação em negociações ou indicações de empresas, afirma que não intermediou contratos e diz que vem colaborando com as investigações. As defesas de Marcelo Gomes e Evandro Baldino não foram localizadas até o momento.

Campo Formoso e asfalto que nunca chegou
Um dos casos mais simbólicos na Bahia envolve o município de Campo Formoso, no Norte do Estado. Desde 2024, a cidade aparece no radar da Polícia Federal por conta de um projeto de pavimentação que consumiu recursos públicos, mas não foi concluído.
Parte do dinheiro usado no convênio veio de emenda de 2021 ligada ao orçamento secreto, instrumento posteriormente proibido pelo STF por falta de transparência. O projeto foi firmado entre a prefeitura de Campo Formoso e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos São Francisco e Parnaíba (Codevasf), empresa federal responsável por ações de infraestrutura.
A Codevasf informou que R$ 8 milhões seriam contrapartida municipal. No entanto, após fiscalização, foram identificadas inconsistências que inviabilizaram a continuidade da obra.
Campo Formoso é administrada por Elmo Nascimento (União Brasil), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). À época, a superintendência regional da Codevasf era ocupada por Miled Cussa Filho, indicado para o cargo. Ele comunicou que relatou irregularidades à Controladoria-Geral da União (CGU) e ao Ministério Público Federal, mas após isso, foi demitido do órgão federal.
Relatórios da Polícia Federal apontam que auditoria da CGU, a partir da análise de planilhas de emendas, associou os recursos ao deputado Elmar Nascimento, que nega ter destinado verbas para essa obra específica.
Trabalhadores prejudicados e empresas no centro do esquema
Além das obras inacabadas, a investigação revelou o impacto direto do esquema sobre moradores da região. Trabalhadores contratados para atuar na pavimentação relataram prejuízos financeiros, com meses de serviço sem remuneração.
A obra em Campo Formoso estava sob responsabilidade da Allpha Pavimentações, empresa que passou a ocupar posição central na Operação Overclean. Em dezembro de 2024, os proprietários da empreiteira foram presos no aeroporto de Salvador, transportando grandes quantias de dinheiro.
Dados do Portal da Transparência mostram que, nos últimos quatro anos, a Allpha recebeu R$ 67 milhões em recursos federais, a maior parte oriunda de emendas sem identificação de autoria. Segundo a Polícia Federal, a empresa e a Codevasf figuram como peças-chave no esquema investigado.
Ramificações em Alagoas e outros estados do Nordeste
Embora a Bahia concentre parte relevante das apurações, a Operação Overclean se espalha por outros estados nordestinos. Entre eles, Alagoas, onde municípios como Rio Largo e Estrela de Alagoas acumulam obras problemáticas, repasses elevados e estruturas precárias.
Em Rio Largo, que recebeu quase R$ 100 milhões em emendas nos últimos seis anos, grande parte delas ligadas ao orçamento secreto, moradores convivem com deficiências graves de infraestrutura e saúde, apesar dos altos volumes de recursos. Uma pavimentação financiada por emenda do deputado Arthur Lira (PP-AL) apresentou afundamentos pouco tempo após a execução.
Já em Estrela de Alagoas, duas estradas anunciadas pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) ao custo de R$ 25 milhões. Elas tiveram apenas terraplanagem parcial e trechos isolados de asfalto, sendo abandonadas após o período eleitoral.
As duas obras foram executadas pela Construmaster, hoje chamada Vieira Infraestrutura, empresa também investigada na operação Fake Road, que apura fraudes, superfaturamento e serviços inexistentes no Ceará e no Rio Grande do Norte. O prejuízo estimado nesse braço da investigação é de R$ 18 milhões.
Segundo a Polícia Federal, as emendas envolvidas nesse núcleo foram atribuídas ao deputado Robério Monteiro (PDT-CE), que nega irregularidades e afirma que as obras eram de responsabilidade dos órgãos federais.
Orçamento secreto e falta de transparência
Desde 2020, o uso do orçamento secreto consumiu R$ 38 bilhões dos cofres públicos. O STF proibiu o mecanismo no fim de 2022, apontando falta de transparência e ausência de critérios objetivos. Após a decisão, parlamentares passaram a utilizar emendas de comissão, que também vêm sendo criticadas por opacidade na distribuição dos recursos.
Com as operações em curso, a Polícia Federal tenta abrir a chamada “caixa-preta” das emendas, tendo como focos principais a Codevasf e o Dnocs, órgãos federais frequentemente associados ao loteamento político de cargos. Enquanto as investigações avançam, a Bahia se mantém como epicentro das apurações, reunindo volumes expressivos de recursos, políticos sob suspeita, obras paralisadas e impactos diretos sobre a população. A Operação Overclean expõe, mais uma vez, como a combinação entre emendas sem transparência e estruturas fragilizadas pode resultar em desvio de dinheiro público, prejuízos sociais e descrédito institucional.
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