Verão e serão vistos: o que você quer quando se mostra?
A busca por aceitação transforma o Verão em palco e o indivíduo em personagem
Imagem gerada por IA
Todos te verão no Verão
O Verão não impõe apenas calor, mas um ideal. Existe uma expectativa silenciosa de que a vida precise parecer melhor, mais leve e mais desejável nessa época do ano. As praias se tornam vitrines e as redes sociais funcionam como espelhos coletivos. Não basta estar bem, é preciso parecer bem. O Verão deixa de ser estação e passa a operar como palco psicológico.
Essa exigência nasce da comparação. O indivíduo sente que precisa corresponder a uma narrativa social de felicidade visível. Quem não exibe prazer, descanso ou beleza sente que está fora do compasso do mundo. A experiência subjetiva passa a valer menos do que a capacidade de ser mostrada.
A necessidade de aceitação como ferida psíquica
A busca por aceitação não é um vício moderno, mas nasce da necessidade humana de pertencimento. Desde os tempos das cavernas, aprendemos que ser aceito garante vínculo, proteção e afeto. O problema surge quando essa necessidade deixa de ser relacional e passa a ser performática.
Carl Rogers, psicólogo humanista, afirmava que o sofrimento psíquico se instala quando o indivíduo abandona sua experiência real para viver segundo condições externas de valor. No Verão, essas condições se intensificam. A pessoa pode acreditar que só será aceita se corresponder a um ideal de corpo, alegria e sucesso. Aquilo que é vivido internamente perde legitimidade se não se encaixar no padrão esperado. A aceitação deixa de ser encontro e passa a ser aprovação.
O corpo que aparece e o corpo que sente
Wilhelm Reich, psicanalista austro-húngaro, integrou corpo e psiquismo, e mostrou que quando o indivíduo aprende que só será aceito se controlar o que sente, ele passa a organizar o corpo como defesa. Emoções são contidas, impulsos são reprimidos e a vitalidade se transforma em rigidez.
O corpo exibido, bonito e adequado, muitas vezes é um corpo pouco habitado. A energia vital deixa de circular livremente e passa a ser administrada para não transgredir expectativas externas. A pessoa aprende a parecer equilibrada enquanto se desconecta do próprio sentir. Essa dissociação gera tensão crônica, ansiedade difusa e uma sensação constante de estar vivendo pela metade.
No Verão, essa cisão se intensifica, pois o corpo precisa performar prazer mesmo quando está cansado. Precisa mostrar leveza mesmo quando carrega tensões antigas. O resultado é um corpo apresentado ao mundo e um corpo vivido cada vez mais distante da consciência.
Ver sem ser visto: o controle pela observação
Nem todos querem aparecer. Muitos vivem para ver. Ver tudo, acompanhar tudo, saber tudo. Existe um alívio silencioso em observar sem se expor. Ver para se orientar, para minimizar riscos, e para garantir que a própria imagem, já aceita em algum nível, não seja ameaçada. Mostrar pouco se torna estratégia de proteção.
As redes sociais oferecem o ambiente perfeito para isso, pois é possível seguir alguém sem ser seguido; observar sem ser observado; julgar sem ser julgado. Essa assimetria tranquiliza quem teme a exposição direta. Esse movimento ajuda a explicar por que perfis de celebridades e, de forma ainda mais reveladora, de personagens fictícios, atraem milhões de seguidores. Em 2020, uma personagem “influenciadora digital” de novela teve um perfil criado pela emissora, que ultrapassou 2,8 milhões de seguidores. Recentemente, outra personagem semelhante chegou perto de 1 milhão. As pessoas passaram a seguir alguém que não existe pela mesma razão que seguem alguém famoso: a necessidade de referência.
A referência indica qual é o padrão vigente de aceitação. O indivíduo observa, compara e tenta se ajustar. A pergunta deixa de ser “quem eu sou?” e passa a ser “o que preciso ser para pertencer e ser aceito?”.
A encenação de uma vida que não existe
Quando observar não basta começa a encenação e a pessoa passa a produzir provas visuais de que está vivendo aquilo que acredita ser valorizado. Veja um exemplo real: uma mulher se hospeda apenas um dia em um resort de luxo e leva consigo dez biquínis e acessórios. Usa todos os biquínis, tira fotos diferentes e constrói um acervo visual. Ela, então, posta fotos de um tipo de biquíni por dia, e simula uma semana inteira de férias, ou, posta a cada 3 meses e mostra uma frequência habitual naquele lugar.
O mesmo princípio aparece em situações corriqueiras. Uma foto segurando uma taça de vinho tenta passar sofisticação e bom gosto, além de estabilidade financeira. A vida deixa de ser vivida e passa a ser organizada como vitrine na busca por aceitação. Reich chamaria isso de adaptação defensiva. A pessoa molda o comportamento e o corpo para evitar rejeição. O custo é alto: quanto mais se encena, menos se sente. Michel Foucault descreveu o Panóptico como um sistema em que o indivíduo se comporta como se estivesse sempre sendo observado. O olhar externo se instala dentro dele. A vigilância deixa de ser imposta e passa a ser internalizada.
O custo psíquico da aprovação
Quanto mais se busca aceitação pela imagem, menos se sente pertencimento real. O personagem precisa ser mantido, o corpo precisa corresponder, e o prazer precisa parecer legítimo. A comparação nunca cessa porque o ideal nunca é humano e nunca será atingido. Quantas pessoas você conhece que, assistindo a um filme ou programa de TV, comentam como fulano está envelhecido, ou como cicrana está mais gorda? Essas mesmas pessoas tentam minimizar o que repudiam em si mesmas.
A tentativa de agradar pode escorregar para formas sutis de egoísmo. Não por falta de empatia, mas porque o medo de não ser aceito ocupa todo o espaço psíquico. O outro só serve como espelho regulador da autoestima.
Um convite para entrar em 2026 com mais lucidez
O Verão, com toda sua luminosidade e calor, transmite vida, e deve ser vivido com suas oportunidades. No entanto, para além da curtição, talvez o gesto mais radical de saúde mental seja recuperar o contato com o corpo que sente, não apenas com o corpo que aparece. Viver experiências que não precisam ser vistas por ninguém. Descansar sem provar. Existir sem encenação.
A vida real não é espetacular. Ela é suficiente. Ser humano continua sendo mais importante do que parecer feliz no Verão (e no restante do ano).

Crédito: Divulgação
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu os livros “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz” e “Perdoar é Sobre Você”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!*
Sérgio Manzione
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