A sociedade da certeza e a era da intolerância
Quando a opinião do outro é vista como uma agressão, o espírito do tempo revela sua doença mais profunda: a intolerância afetiva
Imagem gerada por IA
Dias atrás, li uma publicação sobre uma pesquisa científica, que exaltava o feito de que, pela primeira vez, ter sido feita a filmagem de uma ratazana capturando um morcego em pleno voo. De propósito, usei de ironia e questionei sobre o uso de recursos financeiros apenas para filmar um rato pulando em um morcego. Bastou isso para desencadear uma pequena tempestade digital: pessoas indignadas, moralistas de ocasião, e até ofensas pessoais pesadas.
O episódio, em si, não tem importância, mas sim o que ele revela sobre o nosso tempo: vivemos em uma sociedade emocionalmente frágil, mas intelectualmente arrogante. Uma sociedade da certeza e, portanto, da intolerância.
Na mesma postagem, houve inúmeros comentários fazendo piadas rasas sobre o feito, e todos receberam dezenas de curtidas. O meu, no entanto, despertou uma reação desproporcional, marcada por agressividade, e preconceito contra a minha figura. Perguntei-me por quê. Será por eu ser psicólogo? Será que a imagem de um profissional que lida com as emoções incomoda? Ou será que a minha foto no perfil, mais do que as palavras, foi o verdadeiro gatilho? Fui espelho de quê? A reação não foi ao comentário, mas ao que eu posso simbolizar.
A nova moral da ofensa
A crítica deixou de ser instrumento de pensamento e virou forma de ataque. O sujeito não quer compreender, quer corrigir. Michel Foucault, filósofo francês que estudou a relação entre saber e poder, já alertava: “Cada sociedade tem seu regime de verdade, e é ela quem define o que pode ou não ser dito.”
O psicólogo norte-americano William J. Brady, da “Yale University” (EUA), publicou em 2021 um estudo mostrando que quanto mais curtidas um comentário recebe, maior é a tendência de o usuário reproduzir discursos de ataque e reprovação. É o ciclo da recompensa digital, que alimenta a raiva e a virtude performática.
Nas redes, esse “regime de verdade” é guiado pela vaidade e pela emoção. Quem pensa diferente vira inimigo, e qualquer nuance se torna suspeita. Vivemos tempos em que a identidade se constrói em torno da aprovação. Curtidas, comentários e aplausos são a nova moeda do ego. O que está em jogo não é o debate, mas o pertencimento. O outro não é mais um interlocutor, é uma ameaça ao pequeno altar de certezas de cada um.
A neurose da certeza
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu nossa época como “modernidade líquida”, um tempo em que tudo é instável, exceto a necessidade de parecer certo. Essa busca por segurança psíquica leva as pessoas a reagir com raiva diante do que as contradiz. Pensar diferente se tornou um gatilho emocional.
O estudo “Online social feedback modulates mood and anxiety through neural and behavioral mechanisms” conduzido por Yong Ai, Professor na Escola de Informação Eletrônica da Universidade de Wuhan, China, e publicado na “Nature Scientific Reports” (2025) demonstrou que comentários negativos nas redes sociais aumentam significativamente os níveis de ansiedade e reduzem o humor dos usuários, independentemente do conteúdo em si. Isso explica por que a simples discordância pode gerar reações tão intensas. A certeza é o anestésico emocional de quem não suporta o desconforto da dúvida.
Quando alguém questiona uma ideia, não ameaça apenas o argumento, ameaça o equilíbrio interno de quem precisa acreditar que está certo para se sentir seguro. A intolerância emocional nasce dessa confusão entre discordar e atacar.
Friedrich Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”, publicado em 1878, escreveu que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. A convicção rígida destrói a dúvida, sufoca o pensamento e transforma a discordância em ameaça pessoal. Quando a certeza se torna identidade, qualquer opinião divergente passa a ser vivida como agressão. É a convicção que cega!
O prazer de corrigir o outro
A neurociência já mostrou que corrigir alguém libera dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa. Corrigir virou uma forma de prazer narcisista, uma pequena dose de poder simbólico. O sociólogo norte-americano James Hawdon, da “Virginia Tech University” (EUA), analisou em suas pesquisas sobre discurso de ódio digital (2019–2022) como o ato de humilhar o outro “on-line” funciona como um mecanismo de coesão grupal: punir quem “não pertence” reforça a identidade de quem pune. É o prazer de se sentir moralmente superior.
Carl Jung dizia que “tudo aquilo que nos irrita nos outros pode nos levar a compreender melhor a nós mesmos.” Só que, para isso, é preciso humildade, que desapareceu e, em seu lugar, nasceu o prazer de corrigir.
O declínio da ironia e da ambiguidade
Em 2023, William Brady publicou outro estudo, desta vez na “Nature Human Behaviour”, mostrando que os usuários das redes superestimam a intensidade emocional das mensagens alheias. Em outras palavras, leem indignação onde há leveza e enxergam ataque onde há ironia. Essa superpercepção emocional cria um ambiente onde a sutileza não sobrevive.
O escritor e semiólogo italiano Umberto Eco, ao receber um título de Doutor Honoris Causa em Comunicação e Cultura, em 2015, disse que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, que antes falavam apenas no bar, depois de um copo de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Eco percebeu, antes de muitos, que a universalização da fala, sem a mediação do pensamento, gera o caos da superficialidade. O ruído substituiu o raciocínio.
O vício da emoção imediata
O psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman mostrou em “Rápido e devagar: duas formas de pensar” (2011) que o cérebro humano opera entre dois sistemas: o rápido, emocional e impulsivo, e o lento, racional e analítico. As redes sociais foram desenhadas para ativar o primeiro. Os algoritmos reforçam o que gera conflito, não o que promove compreensão. A raiva dá lucro. E assim, a humanidade se acostuma a reagir antes de pensar e a odiar antes de entender.
Um levantamento da agência de notícias Reuters, baseado em documentos internos da Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp) sugere que, só em 2024, quase 16 bilhões de dólares, cerca de 10% da receita anual da empresa, foram gerados por anúncios ligados a golpes, fraudes e atividades proibidas. Esse número revela o custo ético do nosso tempo. Precisamos ter a regulação das redes sociais para evitar que se confunda liberdade de expressão com isenção de responsabilidade.
Convite à lucidez
O episódio que vivi foi apenas um espelho pequeno, mas nítido, daquilo que se tornou o convívio humano: um campo de certezas frágeis, alimentadas por vaidades digitais e ressentimentos mascarados de virtude.
O filósofo alemão Georg Hegel chamava de “Zeitgeist” o espírito do tempo — a soma invisível das forças que moldam uma época. O nosso “Zeitgeist” é o da pressa emocional, da opinião instantânea e da necessidade de ter razão mesmo sem conhecimento. Vivemos um tempo em que sentir substituiu o pensar, e reagir tornou-se mais importante do que compreender.
Se seguirmos nesse ritmo, veremos o diálogo definhar até virar ruído. A discordância será sempre tratada como agressão. A ciência será questionada por qualquer palpite ou “achismo”; a experiência será desacreditada pela vaidade alheia; e o silêncio será interpretado como culpa. A sociedade da certeza não teme o erro, mas teme o pensamento. Martin Luther King Jr. alertou: “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” Parafraseando, digo: o problema não é o ruído das redes, é o silêncio do raciocínio.
Diante desse cenário, tenho receio de perguntar onde vamos parar. Talvez na exaustão emocional coletiva. Ou, quem sabe, no despertar de uma nova consciência, quando o excesso de certezas nos obrigar a reaprender a questionar com conhecimento.

Créditos: Divulgação
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
Mais Lidas
Saúde mental em 2026: transformando intenções em ações que florescem
Roubou a cabeça do marido
Artigos e afins
Roubou a cabeça do marido
Saúde mental em 2026: transformando intenções em ações que florescem
A responsabilidade civil das redes sociais no Brasil: perfis falsos
Os trabalhadores invisíveis e o país das castas
Poesia visual: comentários sobre a arte de Noboru
Últimas Notícias
Morro de São Paulo consolida turismo nacional e registra avanço do público internacional em 2025
Relatório aponta predominância de brasileiros, público jovem-adulto e crescimento do turismo internacional no pós-pandemia
Especialista em marketing digital alerta para reajuste em anúncios da Meta e diz que eficiência será decisiva para anunciantes
Em entrevista ao Portal M!, especialista explica impacto da nova taxa da Meta e aponta caminhos para anunciantes manterem resultados
Operação conjunta interdita ferros-velhos irregulares e notifica comércios irregulares na região da Gamboa
Ação teve como foco a fiscalização de estabelecimentos que funcionam em desacordo com a legislação municipal e estadual
Festival de Verão Salvador anuncia atrações do Palco Rua com foco na música baiana; confira
Programação neste sábado (24) e domingo (25) reúne artistas de diferentes gêneros, como pagode, axé, samba, rap e sonoridades urbanas
Bruno Reis diz que base governista levanta dúvidas sobre candidatura de ACM Neto por ‘medo’
Prefeito de Salvador afirma que ex-prefeito será candidato ao governo da Bahia em 'qualquer cenário'
Oscar 2026: Variety projeta quatro indicações para ‘O Agente Secreto e feito histórico para o Brasil
Filme de Kleber Mendonça Filho surge entre os favoritos, com baiano Wagner Moura cotado em categoria de atuação
Governo da Bahia inaugura obras e entrega investimentos em educação, saúde e desenvolvimento rural em Coaraci
Entregas e autorizações do governador Jerônimo Rodrigues reforçam infraestrutura escolar, rede de saúde e apoio à agricultura familiar
Prefeito entrega contenção de encosta em Matatu de Brotas com investimento de R$ 1,3 milhão
Obra na Ladeira de Santa Rita eleva para 574 o número de áreas protegidas na capital baiana e reforça ações preventivas antes do período de chuvas
Leandro de Jesus afirma ter recebido ameaças após aderir à caminhada liderada por Nikolas Ferreira
Único parlamentar baiano no ato, deputado estadual aciona equipe jurídica após receber mensagens de ódio
Caetano e Wagner vistoriam obras da primeira Policlínica do Brasil construída pelo Novo PAC; investimento é de R$ 24,4 mi
Policlínica Regional de Camaçari está em fase avançada e deve ampliar o acesso a serviços especializados de saúde