Von der Leyen aposta em janeiro para destravar acordo entre União Europeia e Mercosul após adiamento
Tratado comercial enfrenta resistência política interna na Europa e mobilização de agricultores, mas segue como prioridade estratégica dos blocos
Ricardo Stuckert/PR
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, nesta sexta-feira (19), estar “confiante” de que conseguirá reunir o apoio necessário para a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul em janeiro. O tratado, negociado há 26 anos, sofreu novo adiamento após protestos de agricultores na França e na Itália e mudanças no equilíbrio político interno do bloco europeu. A assinatura estava prevista inicialmente para este sábado (20), mas foi adiada na última quinta-feira (18) diante da falta de segurança política para aprovação imediata no Conselho Europeu.
“Estou confiante de que teremos a maioria necessária”, declarou von der Leyen durante coletiva de imprensa.
Maioria qualificada e risco de minoria de bloqueio
Para que o acordo seja formalmente aprovado, a União Europeia precisa alcançar a chamada maioria qualificada, que exige o voto favorável de pelo menos 15 países, representando ao menos 65% da população europeia. Por outro lado, a formação de uma minoria de bloqueio, composta por países que somem 35% da população, é suficiente para vetar o tratado.
Segundo diplomatas europeus, esse percentual poderia ser atingido com a oposição conjunta de França (15%), Itália (13%), Polônia (8,3%), Áustria (2%), Hungria (2,1%) e Irlanda (1,2%), todos países que expressaram reservas ou objeções formais ao acordo. A mudança de posição da Itália, considerada fiel da balança, foi decisiva para o adiamento. Roma se somou à resistência francesa e passou a defender mais tempo para análise, colocando o tratado em risco às vésperas da assinatura.
Pressão política e protestos agrícolas na Europa
O adiamento ocorreu em meio a um ambiente de forte tensão social. A cidade de Bruxelas, sede da União Europeia, foi palco de protestos de agricultores contrários ao acordo, que bloquearam vias, lançaram esterco, incendiaram uma praça e entraram em confronto com a polícia.
Os produtores europeus temem que o tratado facilite a entrada de produtos agrícolas sul-americanos, considerados mais competitivos devido aos custos de produção e padrões regulatórios diferentes, o que poderia pressionar os mercados locais. Mesmo com a aprovação de cláusulas adicionais de salvaguarda, que criam mecanismos mais rápidos para suspender tarifas preferenciais em caso de distorções no mercado europeu, a resistência política não foi superada.
Macron sinaliza cautela e exige mudanças no texto
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que ainda é “muito cedo” para afirmar se o país conseguirá apoiar o acordo em janeiro. Ele condicionou o avanço do processo à implementação de ajustes que, segundo Paris, fariam o texto “mudar de natureza”.
“Espero que sim, porque isso significaria que teríamos feito progressos que, em alguns casos, seriam históricos”, afirmou Macron, mantendo a exigência de garantias adicionais para o setor agrícola francês.
A França segue como a oposição mais vocal ao acordo, em contraste com países como Alemanha, Espanha e Portugal, que defendem a ratificação do tratado.

Atuação do Brasil e envolvimento de Lula nas negociações
O impasse europeu mobilizou diretamente o governo brasileiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou para a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, na tentativa de evitar o adiamento. Segundo Lula, Meloni pediu mais tempo, possivelmente algumas semanas, para convencer o setor agrícola italiano.
“Ela ponderou que ela não é contra o acordo. Ela apenas está vivendo um certo embaraço político por conta dos agricultores italianos, mas que ela tem certeza que é capaz de convencê-los a aceitar o acordo. Ela então pediu que, se a gente tiver paciência de uma semana, de 10 dias, de no máximo um mês, a Itália estará junto com o acordo”, disse Lula.
Um dia antes, o petista havia declarado que poderia desistir de tentar formalizar o acordo durante seu governo caso o cronograma europeu não fosse cumprido. Posteriormente, afirmou que levaria a discussão aos demais presidentes do Mercosul.
Impactos do adiamento e cenário geopolítico
O fracasso da assinatura ofuscou a Cúpula de Líderes do Mercosul, marcada para sábado (20), em Foz do Iguaçu (PR). A data e o local chegaram a ser alterados três vezes pelo governo brasileiro para acomodar a cerimônia de assinatura, que acabou cancelada.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, tinham viagem prevista ao Brasil, com passagens, hotéis e equipes já mobilizadas. As reservas foram canceladas.
O acordo UE-Mercosul criaria a maior zona de livre comércio do mundo, reunindo um PIB estimado em US$ 22 trilhões e um mercado de 722 milhões de pessoas. O contexto geopolítico marcado pela guerra na Ucrânia, pelo rompimento com a Rússia, pela competição com a China e por tensões comerciais com os Estados Unidos vinha fortalecendo o apoio ao tratado dentro da Europa.
Sem avanço com a UE, o Mercosul deve intensificar negociações com Reino Unido, Canadá, Japão, Vietnã, Indonésia, Malásia e Emirados Árabes Unidos, além de discutir a ampliação de acordos existentes, como com a Índia. Apesar do adiamento, von der Leyen mantém a aposta de que janeiro será decisivo para destravar um dos acordos comerciais mais ambiciosos do cenário internacional.
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