Mauro Vieira se reúne com Marco Rubio em Washington para negociar tarifaço e sanções
Encontro representa primeira rodada de negociações entre Brasil e EUA sobre tarifaço e sanções, após videoconferência entre Lula e Trump
Valter Campanato/ Agência Brasil
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, participa, nesta quinta-feira (16), de uma reunião decisiva em Washington com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. O encontro busca destravar as negociações em torno do chamado “tarifaço” o pacote de tarifas de 50% imposto pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma série de produtos brasileiros e discutir as sanções aplicadas contra autoridades do país.
Encontro marca tentativa de reaproximação após crise comercial
As medidas, em vigor desde 6 de agosto, provocaram tensões diplomáticas e abalaram setores estratégicos da economia nacional. A reunião desta quinta-feira representa a primeira tentativa formal de reaproximação entre Brasília e Washington após a ligação telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, ocorrida na semana passada.
O Itamaraty confirmou que Mauro Vieira chegou à capital americana na última segunda-feira (13), e que o encontro foi incluído na agenda oficial de Rubio às 14h (horário local, 15h de Brasília).
Negociações comerciais ganham prioridade
No Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, manifestou confiança no avanço das tratativas com os Estados Unidos. Segundo ele, a expectativa é que o diálogo se concentre em aspectos econômicos e comerciais, isolando temas de natureza política.
O governo brasileiro vê o tarifaço como o principal obstáculo para a retomada plena das relações bilaterais. As tarifas foram justificadas por Washington como resposta a supostas violações de direitos humanos e perseguições políticas no país, após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Haddad afirmou que a prioridade do Brasil é restaurar as condições de comércio equilibrado e recuperar a estabilidade das exportações para o mercado americano, sem vincular o tema a disputas ideológicas.
Marco Rubio: linha-dura da diplomacia americana
A escolha de Marco Rubio como interlocutor direto do Brasil foi recebida com cautela pelo governo Lula. O secretário de Estado é considerado um político linha-dura e foi o principal articulador das sanções impostas ao Brasil. Ele liderou, por exemplo, o processo que resultou na revogação do visto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e de seus familiares, sob a acusação de “caça às bruxas” contra Bolsonaro.
Rubio também esteve por trás da aplicação da Lei Global Magnitsky contra o magistrado e chegou a defender publicamente que os Estados Unidos respondessem “à altura” à condenação do ex-presidente. O episódio provocou forte reação do Itamaraty, que classificou as ameaças como inadmissíveis.
Além disso, Rubio é crítico da aproximação do Brasil com a China e a Venezuela. Em declarações anteriores, o secretário afirmou que Lula seria “simpático a regimes autoritários” e “antiamericano”, o que reforça o desafio diplomático da atual rodada de negociações.
Perfil do secretário de Estado dos EUA
Filho de imigrantes cubanos, Marco Rubio nasceu em Miami em 1971 e construiu carreira política a partir da comunidade latina da Flórida. Ex-senador e ex-presidente da Câmara estadual, ele se destacou por seu posicionamento conservador e pela defesa de políticas rígidas contra regimes considerados hostis aos EUA.
Rubio concorreu à presidência americana em 2016, quando protagonizou uma disputa acirrada com Donald Trump durante as primárias republicanas. Apesar das trocas de ataques pessoais na época, ambos se reconciliaram politicamente após a vitória de Trump, que o nomeou secretário de Estado em novembro de 2024.
Desde então, Rubio tem seguido a linha ideológica do presidente, mantendo uma postura dura em temas como China, Cuba e Venezuela. Também se manifestou contra um cessar-fogo imediato em Gaza e defende a independência de Taiwan.
Lula aposta em diplomacia pragmática
A reaproximação entre os dois países ocorre após uma fase de forte atrito político e econômico. Durante a Assembleia Geral da ONU, Trump afirmou ter “boa química” com Lula, o que foi visto como um gesto de distensão. O presidente brasileiro, por sua vez, adotou tom conciliador e tem buscado reconstruir os canais diplomáticos diretos com a Casa Branca.
Entre os pontos de interesse dos Estados Unidos está a proposta de substituição do dólar por uma moeda comum entre os países do Brics, bloco que reúne 11 nações emergentes — incluindo Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. O tema, considerado sensível por Washington, deve ser tratado de forma cautelosa na negociação.
Expectativas e próximos passos
A reunião desta quinta-feira é vista como um primeiro passo para reestabelecer a confiança entre os dois governos. Caso haja avanços, uma nova rodada de conversas deve ocorrer até o fim de outubro, com a participação de representantes das áreas econômica e comercial.
Embora as divergências permaneçam, o Brasil aposta que a diplomacia poderá contornar o impasse. A avaliação no Palácio do Planalto é de que a retomada do diálogo com os EUA é essencial para preservar mercados estratégicos, atrair investimentos e manter o equilíbrio nas relações internacionais
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