A possibilidade de uma greve dos caminhoneiros a partir desta quinta-feira (4), anunciada pela União Brasileira dos Caminhoneiros (UBC), reacendeu tensões no setor e expôs uma profunda divisão entre lideranças da categoria. Embora a entidade afirme estar mobilizando transportadores autônomos em todo o país, as principais organizações representativas refutam adesão formal ao movimento e alertam para o risco de manipulação política.
A UBC, que protocolou na terça-feira (2) uma petição na Presidência da República listando 18 reivindicações, estima que cerca de 20% dos 1,2 milhão de caminhoneiros autônomos possam aderir à paralisação inicial. O representante da entidade, Francisco Burgardt, conhecido como Chicão Caminhoneiro, afirmou que o movimento possui “embasamento legal” e os transportadores “são livres para participar”.
“É uma proposição nacional para os cerca de 1,2 milhão de caminhoneiros autônomos do País. Vemos grande aderência neste movimento, mas as pessoas são livres para dizer se querem vir participar ou não”, disse Chicão ao Broadcast Agro, nos corredores da Câmara dos Deputados.
Entidades rejeitam paralisação e alertam para influência política
Apesar do anúncio da UBC, organizações influentes da categoria afirmam que não apoiarão qualquer indicativo de greve neste momento. Entre elas estão a Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL), que atribuem motivação política a parte das lideranças que convocam a paralisação.
De acordo com o presidente da Abrava, Wallace Landim, conhecido como Chorão, o movimento pode ser usado para introduzir bandeiras políticas, especialmente a pauta de anistia para envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.
“A pauta da anistia será chamada em meio a essa mobilização. Não é justo levantarmos uma pauta dessa, porque é uma pauta política, de fato. Existe de fato um movimento velado para induzir transportador a parar o País por outra pauta, trazer os caminhoneiros a entrar na manifestação e depois ampliar a pauta para tom político. Não apoiamos isso e orientamos que os caminhoneiros não adiram para não serem prejudicados”, afirmou.
Movimento da UBC prevê adesão inicial de 20% à greve –Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil
UBC nega motivação política e apresenta lista de reivindicações
A UBC insiste que o movimento é exclusivamente voltado a demandas do transporte rodoviário e nega ligação com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ou com pressões por anistia a envolvidos em atos antidemocráticos. Na petição entregue ao governo, a entidade cita um conjunto amplo de pleitos, entre eles:
estabilidade contratual;
reestruturação do Marco Regulatório do Transporte Rodoviário de Cargas;
atualização do piso mínimo do frete;
congelamento de dívidas por 12 meses;
aposentadoria especial;
isenção de pesagem por eixo;
linha de crédito de até R$ 200 mil;
destinação de 30% das cargas de estatais para autônomos.
“A anistia que estava na petição era relacionada a processos que sofremos sanções em greves anteriores, como eu que ainda possuo contas bloqueadas. Nós não podemos misturar as coisas com movimento político. Estamos falando somente da questão de transporte”, afirmou Chicão.
Divisão interna amplia imprevisibilidade da mobilização
Mesmo com a rejeição das entidades nacionais, líderes reconhecem que grupos mais radicais podem organizar ações isoladas e bloqueios regionais, como já ocorreu em paralisações anteriores. A categoria, que foi uma das principais bases de apoio à eleição de Bolsonaro em 2018, permanece politicamente heterogênea, e movimentos impulsionados por redes sociais costumam ganhar tração em curto prazo.
Em julho deste ano, por exemplo, uma tentativa de mobilização “pró-Bolsonaro” durante o recesso parlamentar acabou frustrada, mas deixou claro que parcelas da categoria seguem sensíveis a convocatórias políticas.
Redação
Equipe de jornalistas e editores do portal Muita Informação
Neste artigo, Felipe Braga do Amaral Silva analisa a responsabilidade civil das redes sociais diante de perfis falsos criados por IA, explicando os direitos das vítimas