Moradores resgatam 65 corpos e número de mortos pode ultrapassar 120 após operação policial no Rio
Corpos foram reunidos na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, e, segundo relatos, não fazem parte da contagem oficial de 64 mortos
Tomaz Silva/Agência Brasil
Cerca de 65 corpos foram localizados e retirados por moradores de uma área de mata do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, na madrugada e manhã desta quarta-feira (29), após a Operação Contenção, deflagrada pelas forças de segurança do estado nesta última terça-feira (28). Os corpos foram reunidos na Praça São Lucas, no centro da comunidade, e, segundo relatos, não fazem parte da contagem oficial de 64 mortos — sendo 60 suspeitos e quatro policiais — divulgada pelo governo fluminense.
A Polícia Militar foi procurada, mas ainda não se pronunciou sobre as novas denúncias. O ativista Raul Santiago, morador do complexo e diretor do Instituto Papo Reto, fez uma transmissão ao vivo denunciando o episódio como uma “chacina que entra para a história do Rio de Janeiro, do Brasil e marca com muita tristeza a realidade do país”.
Vítimas são expostas para registro e aguardam remoção pelo IML
A pedido dos familiares, os corpos foram expostos para registro da imprensa antes de serem cobertos com lençóis, e a comunidade aguarda a remoção oficial pelo Instituto Médico-Legal (IML). O Corpo de Bombeiros iniciou o resgate dos corpos na manhã desta quarta.
Caso as vítimas não estejam incluídas na contagem oficial, o total de mortos da operação — já considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro — pode ultrapassar 120. Durante a noite, outros seis corpos foram encontrados em área de mata no Complexo do Alemão e levados para o Hospital Getúlio Vargas, o que pode elevar o número total de vítimas para cerca de 130.
A operação, que mobilizou policiais civis e militares com apoio do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, tinha como alvo integrantes do Comando Vermelho (CV). A ação, chamada de Operação Contenção, também resultou em 81 prisões, 93 fuzis apreendidos e 11 feridos confirmados.

Cláudio Castro pede vagas em presídios federais para criminosos de alta periculosidade
No mesmo dia da operação, o governador Cláudio Castro (PL) solicitou ao governo federal dez vagas em presídios federais de segurança máxima para transferência de líderes de facções criminosas que atuam no Rio.
“Acreditando que política de segurança pública se faz com diálogo e integração, pedi ao governo federal, então, imediatamente, dez vagas para transferência desses criminosos de alta periculosidade, mostrando que integração e diálogo é a nossa forma de fazer segurança pública”, declarou Castro.
O pedido foi feito após contato com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que informou a disponibilidade imediata de vagas e propôs uma reunião emergencial no Rio de Janeiro. O ex-governador da Bahia já está na capital fluminense para o encontro que ocorre, logo mais, com a presença também do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que interrompeu agenda no Ceará para participar da discussão.
Governo federal e Estado divergem sobre comunicação prévia da operação
De acordo com nota divulgada pela Casa Civil, o governo federal afirmou que não houve qualquer consulta ou pedido de apoio por parte do governo estadual antes da operação. Durante reunião realizada no Palácio do Planalto na noite de terça-feira (28), com a presença do presidente em exercício, Geraldo Alckmin (PSB), e dos ministros Gleisi Hoffmann, Macaé Evaristo, Sidônio Palmeira, Manoel Carlos, e do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, o Planalto foi informado das dimensões da ação.
“Durante a reunião, as forças policiais e militares federais reiteraram que não houve qualquer consulta ou pedido de apoio, por parte do governo estadual do Rio de Janeiro, para realização da operação”, afirmou a nota.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública reforçou que tem atendido prontamente a todos os pedidos do governo fluminense para envio da Força Nacional, e que desde 2023 já acatou todas as 11 solicitações de renovação da tropa no Estado. Fontes do Planalto afirmam que foram negados três pedidos de uso de blindados militares nas ações de segurança, por falta de decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), instrumento necessário para o emprego das Forças Armadas e que não foi solicitado por Castro.
Situação no Rio e impacto nas comunidades
Após a operação, o Centro de Operações da Prefeitura do Rio informou que a cidade voltou ao estágio 1 de mobilização às 6h desta quarta-feira (29). Os meios de transporte operam normalmente, e todas as vias estão liberadas para o tráfego. Nesta última terça-feira (28), a capital havia entrado em estágio 2, às 13h48, por causa das ocorrências policiais que interditaram diversas ruas das zonas norte, oeste e sudoeste, afetando a locomoção da população.
A operação, considerada a mais letal da história da polícia fluminense, marca mais um episódio da crise de segurança pública no Rio de Janeiro, reacendendo o debate sobre estratégias de combate ao crime organizado, uso da força e cooperação entre os governos estadual e federal.
Enquanto familiares buscam respostas e aguardam a identificação das vítimas, o Estado enfrenta mais uma vez o desafio de equilibrar repressão ao crime e proteção de vidas em comunidades vulneráveis.
Baianos mortos e presos na megaoperação são ligados a crimes na Bahia
Ao menos dois baianos estão entre as vítimas fatais e outros três entre os presos na megaoperação deflagrada contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro. Um dos mortos é Júlio Souza Silva, de 26 anos, natural de Salvador, que já havia sido condenado por tráfico de drogas e cumpria pena em regime semiaberto. Durante a ação, um fuzil encontrado com ele chamou atenção por conter, na alça, um emblema da bandeira da Bahia. O segundo baiano morto em confronto ainda não teve a identidade revelada pelas autoridades fluminenses.
Já entre os presos, estão Marlon Niza Júnior e Rauflan Santos Costa, ambos de Canavieiras, no extremo sul da Bahia. Segundo a Polícia Civil baiana, Marlon era foragido e tinha mandado de prisão pela morte de um casal em 2021, após uma discussão em um bar. Já Rauflan era procurado por tráfico de drogas. Os dois foram detidos após invadirem uma residência na Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio, durante o confronto com as forças policiais.
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