Eleições parlamentares na Groenlândia nesta terça definem futuro sob pressão dos EUA e Dinamarca
Pesquisa da consultoria Verian revelou que 85% dos groenlandeses rejeitam a ideia de se tornarem parte dos Estados Unidos
EVGENIY MALOLETKA/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
A Groenlândia realiza eleições parlamentares nesta terça-feira (11), em um momento de crescente atenção internacional ao território autônomo da Dinamarca. A disputa ocorre em meio ao interesse renovado dos Estados Unidos na ilha, impulsionado por fatores estratégicos e econômicos.
O arquipélago do Ártico, rico em terras raras e recursos naturais, tem sido alvo de disputa entre grandes potências. O resultado do pleito pode influenciar a política local e as relações internacionais, especialmente no contexto da busca pela independência.
Apoio dos EUA e a posição de Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstrou apoio ao direito dos groenlandeses de decidirem seu futuro.
“Continuaremos a mantê-los seguros, como temos feito desde a Segunda Guerra Mundial. Estamos prontos para investir bilhões de dólares para criar novos empregos e fazer você ficar rico. E, se você quiser, damos as boas-vindas a você para fazer parte da maior nação do mundo, os Estados Unidos da América“, declarou o republicano.
Durante seu primeiro mandato, Trump sugeriu comprar a Groenlândia da Dinamarca. Com sua volta à Casa Branca, o interesse no território persiste. Ele defende que os EUA assumam o controle da ilha, seguindo uma abordagem semelhante à adotada em outros territórios estratégicos.
Em discurso ao Congresso americano, Trump reforçou a importância da Groenlândia para a segurança nacional. “Realmente precisamos dela para a segurança global e acho que vamos obtê-la. Vamos obtê-la de um jeito ou de outro“, declarou.
Groenlandeses rejeitam integrar os EUA
Uma pesquisa da consultoria Verian revelou que 85% dos groenlandeses rejeitam a ideia de se tornarem parte dos Estados Unidos, enquanto apenas 6% são favoráveis e 9% não souberam responder. O estudo também apontou que a maioria da população deseja a independência da Dinamarca.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Mute Egede, defensor da independência, criticou a postura de Trump às vésperas das eleições. “Merecemos ser tratados com respeito, e não acho que o presidente dos EUA tenha feito isso recentemente“, afirmou à emissora dinamarquesa DR.
A pesquisa mostrou ainda que 56% dos entrevistados apoiam a separação da Dinamarca. O desejo por independência tem sido tema central das eleições, com partidos políticos apresentando propostas para um referendo sobre o futuro do território.
Os partidos Inuit Ataqatigiit e Siumut, que integram a coalizão governista, prometeram convocar um referendo, mas sem estabelecer um prazo. Já o partido Naleraq, da oposição, quer negociar a separação da Dinamarca e fortalecer relações com os EUA após a independência.
O líder do Naleraq, Juno Berthelsen, considera que o interesse de Trump fortalece a posição da Groenlândia. A Dinamarca, por sua vez, reconheceu o direito do território à independência em uma lei aprovada em 2009, mas a decisão final cabe aos groenlandeses.
Atualmente, a Groenlândia recebe um subsídio anual de US$ 500 milhões da Dinamarca, o que representa metade do orçamento do território. Esse financiamento sustenta serviços essenciais, como saúde e educação, e é um fator determinante na decisão sobre o futuro político da ilha.
Peso econômico
A pesquisa Verian apontou que 45% dos entrevistados são contra a separação caso isso prejudique a qualidade de vida. Apesar da dependência financeira, há um forte sentimento anticolonial, intensificado por relatos de abusos cometidos por autoridades dinamarquesas contra os indígenas inuits.
No discurso de Ano Novo, o primeiro-ministro Egede reforçou a necessidade de romper com o passado colonial. A exploração de terras raras já foi cogitada como alternativa econômica, mas preocupações ambientais levaram ao recuo dessa proposta.
O interesse dos Estados Unidos e de outras potências na Groenlândia está relacionado às vastas reservas de terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica. A China domina esse mercado atualmente, o que aumenta a disputa geopolítica pela ilha.
Além disso, estudos do Serviço Geológico dos EUA indicam a existência de depósitos de petróleo e gás natural no território. O derretimento do gelo ártico tem facilitado o acesso a esses recursos e impulsionado a competição entre países como EUA, China e Rússia.
Estratégia militar e segurança global
A localização da Groenlândia também é um fator estratégico. O território está situado em uma das principais rotas do Ártico, que pode reduzir o tempo de navegação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
Os EUA mantêm presença militar na ilha desde a Segunda Guerra Mundial, incluindo a Base Espacial de Pituffik, usada para defesa antimísseis e vigilância espacial. A China, por sua vez, busca expandir sua influência na região com a proposta de uma “Rota da Seda Polar“.
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