Novembro Negro impulsiona a economia criativa negra em Salvador, mas evidencia dificuldades que duram todo o ano

Período concentra oportunidades e expõe limites estruturais enfrentados por quem trabalha com arte negra durante todo o ano


Matheus Calmon
Matheus Calmon 20/11/2025 09:11 • Cultura
Novembro Negro impulsiona a economia criativa negra em Salvador, mas evidencia dificuldades que duram todo o ano - Otávio Santos / PMS
Reproduzindo artigo
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Salvador vive, a cada Novembro Negro, um movimento que articula identidade, produção cultural e geração de renda em diferentes territórios da cidade. A capital baiana mobiliza artistas, empreendedores e coletivos que transformam o mês em um período de alta circulação de público, fortalecimento da cultura afro-brasileira e ampliação do consumo de produtos criados por profissionais negros.

O período, que tem o ponto alto nesta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra, concentra oportunidades, mas também expõe limites estruturais enfrentados por quem trabalha com produção cultural, moda autoral e arte negra durante todo o ano. O aumento na visibilidade neste período não elimina desafios como acesso a crédito, continuidade das ações após novembro e valorização constante de artistas e empreendedores.

Do artesanato ao empreendedorismo afro

É nesse cenário que empreendedoras negras têm ampliado sua presença na economia criativa de Salvador, impulsionando a moda afro contemporânea com propostas que unem identidade, técnica e propósito. Entre elas está Inajá Erinlê, criadora da Ayoká Acessórios, marca que se destaca pelo trabalho manual, pela criação autoral e pela defesa do uso do tecido africano de forma desmistificada no mercado da moda.

A empreendedora explica que a Ayoká nasceu de sua trajetória pessoal, de sua formação acadêmica e da busca por autonomia financeira. O projeto ganhou forma quando ela decidiu profissionalizar a produção de bolsas em cartonagem, unindo a técnica que já dominava ao desejo de valorizar estéticas afro-brasileiras em um contexto contemporâneo.

“A Ayoká surgiu da união da minha descoberta enquanto mulher negra, com a minha graduação em Serviço Social e a necessidade de trabalhar”, pontuou Inajá.

“Eu decidi unir o meu conhecimento acerca da luta antirracista, a minha identidade racial, a minha potência como mulher negra, com a técnica que eu já desenvolvia e decidi que eu faria as bolsas com o tecido africano, porque o intuito era ‘desfolclorizar’, desmistificar o tecido africano”, afirmou em entrevista ao Portal M!.

Sobre o impacto da criação autoral e da produção artesanal, Inajá aponta que a singularidade das peças reforça o valor da economia criativa negra e cria um diálogo direto com a lógica de exclusividade presente em grandes marcas. Ela lembra que, em Salvador, o uso da técnica da cartonagem para bolsas é raro, o que reforça ainda mais o caráter único de sua marca.

“A moda autoral e o toque de exclusividade porque não tem outro empreendimento em Salvador, pelo menos, que produza bolsa em cartonagem. A Ayoká é uma empresa pequena e que tem esse toque de exclusividade, de peças únicas, então traz para próximo da gente essa realidade de exclusividade, que as grandes marcas caríssimas possuem.”

Produção autoral e economia criativa negra

A empreendedora avalia ainda como o Novembro Negro influencia a procura por marcas afro, destacando que, apesar do aumento da visibilidade no período, a valorização ainda ocorre de forma limitada no calendário comercial da cidade. Para ela, Salvador, sendo a maior cidade negra fora da África, deveria fomentar iniciativas e eventos dedicados ao afroempreendedorismo durante todo o ano.

“É uma questão um pouco controversa, porque a gente adora a procura que há no mês de novembro, mas é uma coisa que fica muito restrita. Só no mês de novembro os empreendimentos são, de fato, valorizados, como se a gente só existisse nesse mês. Esse fomento ainda está muito abaixo do que deveria ocorrer. Ao longo do ano também deveria existir ações, eventos, e não ocorrer uma coisa assim esporádica”, reflete.

Inajá cita a falta de crédito, de visibilidade e de valorização como os principais desafios enfrentados por marcas independentes no setor da moda afro produzida localmente. Ela reforça que a oscilação de renda dificulta o crescimento dos negócios e que iniciativas colaborativas são essenciais para ampliar oportunidades.

Inajá Erinlê pretende, no médio prazo, exportar suas peças.
Foto: Acervo pessoal

“Os desafios são crédito, que a gente não tem, visibilidade, valorização e por ser algo local, uma marca pequena, às vezes não é dado o valor adequado. A gente não tem segurança financeira, a gente tem uma renda muito variada. A gente tem muita coisa boa, muita coisa bonita para mostrar e muitas vezes a gente não ocupa esses espaços por falta de oportunidade, por falta de dinheiro mesmo”.

Desafios e caminhos para expansão

Ao projetar o futuro da Ayoká, a empresária destaca que pretende expandir a produção, construir estoque, criar coleções autorais e, no médio prazo, exportar suas peças. O objetivo é transformar a marca em referência nacional, levando o tecido africano a diferentes públicos e reforçando sua estética como parte da cultura brasileira contemporânea.

“A Ayoká é uma empresa muito promissora e eu tenho planos de crescer, de construir estoque fazer as coleções que eu tenho vontade, exportar o meu produto, um site, enfim, aumentar a minha produção. O meu intuito é justamente trazer a beleza do tecido africano para todos os gostos e mostrar que o tecido africano é belo, tem qualidade e pode ser utilizado de várias formas”.

Representatividade feminina no hip hop soteropolitano

No cenário artístico de Salvador, onde a cultura periférica molda sonoridades e impulsiona tendências, DJ Belle se destaca como uma das vozes mais influentes da cena atual. A artista, criada no Subúrbio Ferroviário, leva para os palcos a mistura musical que marcou sua infância e que hoje compõe sua identidade como uma das referências do hip hop na cidade.

Sua formação musical foi construída nas ruas de Alto de Coutos, onde diferentes ritmos conviviam e, sem que percebesse, definiram a estética que hoje apresenta ao público. As influências de reggae, rap, pagodão e arrocha tornaram-se base de seu trabalho e elemento central de sua conexão com a plateia, especialmente com quem reconhece nessas sonoridades a própria vivência de comunidade.

Belle destaca a mistura de ritmos que formaram sua base musical. “Eu cresci numa rua em Alto de Coutos onde influenciou toda a minha identidade artística, morava em uma rua com vizinhos que escutavam reggae todos os dias, o meu primo ao lado escutando rap, na mesma rua rolava os paredões de pagodão aos finais de semana, e um bar que tocava arrocha”, conta.

“E essas são as referências musicais mais comuns das comunidades de Salvador, é o que eu levo para o meu público, com um destaque maior para músicas feitas por pessoas pretas e principalmente daqui da Bahia”, disse Belle em entrevista ao Portal M!.

A representatividade também marca sua trajetória, já que Belle se tornou a segunda DJ negra de hip hop em Salvador. O marco, além de impulsionar sua carreira, abriu caminhos para outras mulheres negras no mercado musical, fortalecendo a presença feminina em um ambiente tradicionalmente dominado por homens.

“Quando comecei a estudar discotecagem com o DJ Jarrão em 2015, eu não tinha referências de mulheres pretas aqui na cidade, apenas uma única DJ. Foi aí que percebi que precisava agitar e incentivar para que mais mulheres estivessem nessa caminhada. Isso é muito importante, porque o mundo da música ainda é um meio muito machista”, analisa.

Representatividade e presença feminina nas pickups

O Novembro Negro, para a artista, revela contradições de uma cidade conhecida como a mais negra fora da África, mas que ainda concentra oportunidades em um único mês. Ao mesmo tempo em que a agenda cultural se fortalece, Belle destaca que a valorização deveria ocorrer durante todo o ano, garantindo continuidade e consolidação das ações.

“Esse é um assunto polêmico. Não devia ser apenas o ‘novembro’ negro porque somos negros e negras o ano inteiro. Quando novembro acaba, as grandes produções precisam continuar olhando pra nós. Mas tem sido na prática um mês de muita movimentação que tem apoiado o crescimento dos artistas da cidade”.

Mesmo com avanços na economia criativa, Belle ainda enfrenta barreiras estruturais por ser mulher negra na música. A artista aponta o machismo, a necessidade de provar sua capacidade e a desigualdade nas linhas de shows como alguns dos desafios que persistem, além da sensação de ser convocada para editais apenas para cumprir critérios de diversidade.

“Infelizmente o meio musical ainda é um meio muito machista. Ter que estar sempre à prova é uma das maiores barreiras. Também existe a dificuldade nas lines, bastante flyer com 9 homens e 1 mulher só. Ou ainda nos chamam para compor editais e não porque temos o talento suficiente para estar ali”.

No futuro, DJ Belle sonha com a formação de uma rede de mulheres DJs, ampliando espaços de aprendizado e produção. Ela trabalha para criar um estúdio voltado à capacitação feminina e já realiza oficinas e aulas particulares, buscando fortalecer a presença de mulheres negras e periféricas na música.

“O meu maior sonho é conseguir formar uma constelação de mulheres para brilharmos juntas. Estou estudando e trabalhando para criar um estúdio voltado para produção musical para mulheres. Já venho fazendo palestras, oficinas e aulas particulares para formação de novas DJs”.

Sobre o que Salvador precisa compreender sobre artistas negros da periferia, Belle reforça que a cidade é um polo criativo que ainda carece de reconhecimento interno. A artista lembra que muitos talentos desistem por falta de apoio e financiamento, e que romper barreiras significa abrir portas para que outras pessoas também avancem.

“Salvador é o berço da arte. Temos artistas de rua, pessoas que trabalham em outros empregos para sustentar a sua própria arte e muitos desistem por conta da dificuldade que é fazer arte sem padrinhos, sem patrocínio. Salvador precisa apoiar e incentivar os seus”.

Programação leva ações culturais a diversos bairros

O Programa Salvador Capital Afro, um dos principais movimentos de valorização da cultura afro-brasileira, segue com uma programação que se estende por diversos bairros da cidade. Desde 26 de outubro, exposições, oficinas, rodas de conversa, shows e ações formativas vêm sendo realizadas em equipamentos culturais e espaços comunitários, reforçando a proposta de descentralizar atividades e ampliar o acesso do público. Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a agenda inclui o show de Léo Santana, às 15h, na Praça Maria Felipa.

A edição deste ano também expandiu a circulação das ações para regiões como Candeal, Cajazeiras, Nordeste de Amaralina, Itapuã e Ilha de Maré, fortalecendo o diálogo com territórios de identidade negra. Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo, o objetivo do projeto é aproximar políticas culturais das comunidades e ampliar o reconhecimento da ancestralidade afro na capital baiana.

A agenda do Salvador Capital Afro reúne ainda festivais, mostras audiovisuais, atividades infantojuvenis, feiras criativas e apresentações de artistas locais. As ações seguem até o fim de novembro, alinhadas ao calendário do Novembro Negro em Salvador.

Matheus Calmon

Matheus Calmon

Matheus é jornalista, pós-graduado em jornalismo digital e especialista em contar histórias que informam e conectam, com paixão por investigar, escrever e dar voz a questões que importam.

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