CNI alerta que sobretaxa de 40% dos EUA mantém Brasil em desvantagem mesmo após corte tarifário global
Setores exportadores brasileiros seguem pressionados enquanto concorrentes ganham espaço com isenção anunciada por Donald Trump
Iano Andrade/CNI
A retirada pelos Estados Unidos da tarifa recíproca de 10% sobre uma ampla lista de produtos agrícolas acendeu um sinal de alerta na Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade afirma que a mudança, oficializada pelo governo do presidente Donald Trump (Partido Republicano), amplia a urgência de o Brasil avançar nas negociações para eliminar a sobretaxa de 40%, aplicada exclusivamente aos exportadores brasileiros. Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a alteração melhora as condições de concorrentes internacionais, enquanto os setores brasileiros continuam submetidos a barreiras elevadas.
“Países que não enfrentam essa sobretaxa terão mais vantagens que o Brasil para vender aos americanos. É muito importante negociar o quanto antes um acordo para que o produto brasileiro volte a competir em condições melhores no principal destino das exportações industriais brasileiras”, afirmou o baiano em nota divulgada neste último sábado (15).
Mudança beneficia concorrentes enquanto o Brasil segue penalizado
Análise preliminar feita pela CNI aponta que a zeragem da tarifa global de 10% alcança 238 produtos agrícolas e beneficia diretamente 80 itens efetivamente exportados pelo Brasil. Em 2024, essas vendas somaram US$ 4,6 bilhões, cerca de 11% do total exportado aos americanos.
No entanto, apenas três categorias de suco de laranja e a castanha-do-pará ficam completamente livres de taxação. Os demais itens permanecem submetidos à sobretaxa de 40%, que incide exclusivamente sobre o Brasil.
Segundo o levantamento, produtos de grande relevância na balança comercial, como café não torrado, carne bovina e cera de carnaúba, tiveram alívio parcial, mas seguem onerados pela cobrança adicional. O resultado é um cenário em que competidores de países como Vietnã, Colômbia e nações da América Central ganham vantagem na disputa pelo mercado norte-americano.
“Os outros 76 produtos permanecem com os 40% específicos ao Brasil”, ressaltou Ricardo Alban.
Pressões internas influenciaram decisão de Trump
A decisão do governo americano ocorre em meio a pressões internas para conter o aumento do custo de vida. O decreto publicado pela Casa Branca tem efeito retroativo à última quinta-feira (13) e isenta tarifas sobre itens como carne bovina, café, banana, tomate e diversas frutas tropicais.
O corte tarifário global tem impacto imediato sobre as importações americanas e responde a demandas de setores industriais e do varejo dos EUA, que pressionavam por medidas para reduzir custos. O governo brasileiro intensificou nas últimas semanas os esforços diplomáticos para reverter a tarifa adicional de 40%.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se reuniu, inclusive na quinta-feira, em Washington, com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para tratar do tema. Segundo o chanceler, houve sinalização positiva por parte do governo americano.
“Marco Rubio e os EUA demonstraram interesse em boa relação com o Brasil”, afirmou Vieira, que aguarda uma resposta oficial à proposta brasileira.
A sugestão apresentada prevê uma pausa temporária na aplicação da sobretaxa, enquanto os dois países iniciam uma discussão setorial mais ampla. A proposta também inclui a criação de um grupo técnico para avaliar, produto a produto, as justificativas para a manutenção da tarifa e os possíveis caminhos para sua eliminação definitiva.
Café, carne e carnaúba permanecem sob pressão
Entre os segmentos mais prejudicados pela política tarifária americana estão produtos de alto valor agregado para o Brasil. O país é o principal fornecedor de café arábica aos Estados Unidos, mas continua enfrentando barreiras maiores do que as impostas a concorrentes diretos.
No caso da carne bovina, a CNI destaca que a competitividade brasileira fica comprometida pela manutenção da alíquota adicional, mesmo após o alívio global de 10%. Situação semelhante ocorre com a cera de carnaúba, produto com forte presença nas exportações nordestinas.
Para a indústria brasileira, a urgência de um acordo é crescente. A sobretaxa de 40% afeta diretamente a competitividade em setores estratégicos e compromete a capacidade do país de expandir suas exportações agroindustriais para o maior mercado consumidor do mundo.
“A decisão pode melhorar as condições para competidores internacionais enquanto o Brasil continua penalizado”, afirmou a CNI em nota.
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