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Morte do jogador Izquierdo: cardiologistas detalham arritmias cardíacas

Cardiologistas detalham arritmias cardíacas, que ocasionou morte do jogador uruguaio Izquierdo
Ao Portal M!, especialistas listaram os principais cuidados que as pessoas devem tomar ao entrar na academia ou iniciar um novo esporte

A morte do jogador do Nacional do Uruguai, Juan Manuel Izquierdo, de 27 anos, na última terça-feira (27), reacendeu o alerta para a importância do monitoramento cardíaco. O atleta, que passou mal em campo, durante uma partida contra o São Paulo pela Libertadores, teve como causa do óbito “morte encefálica após uma parada cardiorrespiratória associada à arritmia cardíaca”, conforme informou o Hospital Albert Einstein.

Para entender melhor o quadro, o Portal M! ouviu o cardiologista e vice-presidente da Associação Bahiana de Medicina (ABM), Nivaldo Filgueiras. Segundo ele, nos casos em que o indivíduo tem uma parada cardíaca, o coração para de ‘bombear’ e levar sangue para os órgãos, em especial o cérebro.

“De uma forma normal, o coração tem um marcapasso natural que faz com que haja passagem do estímulo elétrico, gerando o estímulo de contração do músculo cardíaco. Na medida que ocorre uma arritmia cardíaca, levando à parada cardíaca com uma fibrilação ventricular, em que o ritmo é caótico e desorganizado e não há uma contração do músculo cardíaco, não há circulação nem sangue para os órgãos, para os tecidos. E o paciente, após alguns minutos, morre, se não houver o atendimento adequado”, pontuou.

Conforme o especialista, nestes casos, o tratamento adequado envolve o suporte básico de vida e a utilização do desfibrilador. “Gera um choque elétrico para que o nosso marcapasso natural que é o nó sinusal assuma novamente o comando, gerando um estímulo elétrico para a contração do músculo cardíaco. Foi isso que aconteceu com esse atleta. Ele, provavelmente, fez um quadro de parada cardiorrespiratória secundária, uma fibrilação ventricular ou uma taquicardia ventricular sem pulso”, listou.

Cardiologista Nivaldo Filgueiras | Foto: Divulgação

O que é arritmia cardíaca?

A cardiologista Isabela Pilar explicou que a arritmia é caracterizada por episódios em que o coração bate fora do ritmo usual. Segundo ela, existem diversos tipos da condição – algumas são benignas, ou seja, não causam prejuízo ao coração, enquanto as arritmias graves apresentam risco à vida. “Elas podem ser identificadas através do exame físico realizado pelo médico e também por meio de alguns exames que analisam o ritmo do coração, como eletrocardiograma, Holter e teste ergométrico”, afirmou.

Dentre os principais sintomas da arritmia, estão a sensação de batimento acelerado do coração, mesmo quando o indivíduo está em repouso, fator que pode estar associado a tontura. Já sobre o tratamento, a especialista apontou o uso da medicação em alguns casos. “Outras precisam de um implante de um aparelho chamado marcapasso, implantado diretamente no coração”, disse Isabela.

Em alguns casos, a arritmia também pode se apresentar com o coração batendo de forma lenta. “Os chamados bloqueios atrioventriculares, quando ocorrem de grau avançado, podem gerar o sintoma, por exemplo, de uma síncope ou de um desmaio repentino, de uma sensação de perda de consciência repentina. Às vezes, com queda da pressão arterial e quando você vai avaliar a frequência cardíaca, ela está muito baixa. Isso também é um tipo de arritmia cardíaca que a gente chama de bradiarritmias, que precisa do tratamento de forma imediata”, aponta Nivaldo.

Izquierdo teve arritmia detectada em 2014

O zagueiro Juan Manuel Izquierdo teve detectada uma arritmia há dez anos, quando fazia parte do elenco do Atlético Cerro, do Uruguai. A informação foi anunciada pelo secretário nacional de Esporte do Uruguai, Sebastián Bauzá, na segunda-feira (26), durante participação no programa “Minuto 1”, da rádio Carve Deportiva.

Por conta do histórico, a reportagem questionou os médicos sobre a possibilidade de o atleta praticar esportes de alto rendimento. De acordo com a cardiologista Isabela Pilar, a prática de esportes depende do tipo de arritmia.

“A prática de esporte de alto rendimento pode acontecer em alguns tipos de arritmias que foram tratadas corretamente. Porém, existem algumas arritmias que, mesmo quando tratadas, não podem receber liberação de esporte de alto rendimento. Não posso afirmar se o jogador deveria ter parado de jogar sem saber o tipo de arritmia, e qual foi o tratamento instituído”, explicou.

Cardiologista Isabela Pilar | Foto: Instagram/@draisabelapilar

Já o médico Nivaldo Filgueiras ressaltou que todos os atletas de alto rendimento devem ser submetidos a uma avaliação regular, a partir de um exame físico e de uma anamnese, associados a exames complementares de diagnóstico, conforme a identificação de possíveis problemas do paciente ou atleta de alto rendimento.

“Geralmente, esses pacientes são submetidos a exames de imagem, ecocardiograma, exames de testes cardiopulmonar para avaliação da função cardiorrespiratória. E é importante fazer uma investigação, inclusive, da história familiar desses atletas. Às vezes, existem doenças que são vinculadas a característica genética, cardiomiopatia hipertrófica, que é causa de morte súbita. Às vezes, os indivíduos têm uma alteração em relação aos canais que fazem a origem do estímulo elétrico, são chamadas canalopatias. Às vezes, o paciente tem uma implantação anômala de uma artéria coronariana no coração, um problema genético, que pode gerar fenômenos de morte súbita”, explicou.

Em função disso, o especialista defende a importância do acompanhamento regular dos pacientes. “O risco maior de causas de morte súbita em pacientes acima de 35, 40 anos, sem dúvida, é o infarto agudo do miocárdio. Ou seja, é importante controlar os fatores de risco, controlar o diabetes, a hipertensão. Ter uma alimentação saudável, praticar exercício de forma regular, controlar os níveis de gordura no sangue e não fumar, isso é fundamental em relação à prevenção do ponto de vista cardiovascular”, alertou.

Quais os principais cuidados ao entrar na academia ou iniciar um novo esporte?

A cardiologista Isabela Pilar também listou os principais cuidados que as pessoas devem ter ao entrar na academia ou iniciar um novo esporte. Segundo ela, o primeiro passado é realizar um check-up esportivo. O objetivo é identificar alguma doença cardíaca que esteja silenciosa e que possa complicar a rotina de exercícios.

“Essa avaliação médica deve ser realizada antes do início do programa de exercício e também repetida com uma certa regularidade, pelo menos uma vez ao ano. O objetivo principal é a prevenção do desenvolvimento de doenças cardiovasculares e a detecção precoce de doenças causadoras de morte súbita cardíaca. A atividade física pode complicar quem já tem histórico prévio de alguma doença cardiovascular que não tenha sido diagnosticada”, observou.

Entre as pessoas com idade abaixo de 45 anos, a especialista recomenda a busca pelo cardiologista em casos de histórico de morte súbita ou de doença cardíaca na família, sobretudo, em casos de parente com idade menor que 45 anos.

Já as pessoas com idade acima de 45 anos ou que já apresentam episódios de pressão alta, diabetes ou colesterol alto, bem como os fumantes, “devem procurar o cardiologista antes de iniciar a prática de exercício físico”, alertou. Segundo a médica, exames como o eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico ou teste cardiopulmonar de esforço podem ser solicitados, a depender do quadro do paciente.

A cardiologista também ressaltou que as pessoas devem estar atentas ao surgimento de sintomas após algum esforço, como dor no peito, tontura, falta de ar intensa e náuseas. “É preciso manter-se sempre hidratado, com água, água de coco ou suco de fruta natural. Refrigerantes e sucos de caixinha não são boas opções, pois retardam a passagem da água do estômago para a corrente sanguínea, além de sempre dar preferência a refeições leves antes do exercício, que exigem menos esforço do organismo durante a digestão”.

Já o médico Nivaldo Filgueiras enfatizou que os cardiologistas devem ser buscados pelo menos uma vez ao ano. No entanto, pessoas mais idosas ou com problemas de origem cardiovascular, devem contar com um acompanhamento mais precoce.

“Portadores, por exemplo, de hipertensão, deficiência cardíaca, alguns que desenvolvem, por exemplo, deficiência renal, precisam de um acompanhamento mais próximo, a cada seis meses, às vezes a cada três meses. Depende de como esteja a evolução desses pacientes em relação a essas patologias. Então, é muito importante esse acompanhamento de forma regular e a utilização de exames diagnósticos complementares, para investigação, caso o paciente tenha algum tipo de sintoma”.

Entre os cuidados, o cardiologista chamou atenção para a importância de uma alimentação saudável, evitando alimentos embutidos, o consumo exagerado de sal e gorduras poli-insaturadas. “A gente sempre fala que o importante são alimentos que você descasque e não desembrulhe. Toda vez que você tiver alimentos industrializados, eles são mais ricos em elementos que não são saudáveis. Então, é importante que você utilize alimentos naturais”, destacou.

O médico também recomendou a dieta DASH, que preconiza o consumo de frutas, verduras, legumes, produtos lácteos com baixo teor de gordura, cereais integrais, peixes, aves e nozes, e recomenda restringir o consumo de carnes vermelhas e processadas, sódio e bebidas açucaradas.

“Outra alimentação utilizada na literatura muito interessante é a dieta do tipo mediterrânea. Ela é muito interessante para aqueles pacientes portadores de níveis de gordura no sangue elevados. Então, acompanhamento regular, estilo de vidas mais saudável, praticar atividade física, tudo isso é muito importante”, finaliza.

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