STF torna réus seis ex-integrantes do governo Bolsonaro por suposta participação em plano golpista

Grupo é acusado de atuar na chamada ‘gerência’ do plano golpista que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023


Redação
Estadão Conteúdo e Redação 22/04/2025 18:57 • Política
STF torna réus seis ex-integrantes do governo Bolsonaro por suposta participação em plano golpista - Antonio Augusto/STF
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A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou por unanimidade, nesta terça-feira (22), a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra seis ex-integrantes do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O grupo é acusado de atuar na chamada “gerência” do plano golpista que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

Com a decisão, os denunciados passam à condição de réus e responderão criminalmente por organização criminosa armada, tentativa de golpe de estado, tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito, deterioração de patrimônio tombado e dano qualificado contra bens da União. O relator do caso é o ministro Alexandre de Moraes.

Votaram a favor do recebimento da denúncia os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.

Nunca é demais nós recordarmos que o Brasil sofreu uma tentativa de golpe. Obviamente cada um dos denunciados terá toda a ação penal para provar que ele não participou, mas não é possível negar que houve no dia 8 de janeiro de 2023 a tentativa de golpe de estado. Em virtude da violência, a materialidade é extremamente clara“, afirmou Moraes.

Uso da máquina pública para interferir nas eleições

Os réus identificados pela PGR como integrantes do núcleo político do plano de golpe são: Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF); Marília Ferreira de Alencar e Fernando de Sousa Oliveira, ambos ex-dirigentes do Ministério da Justiça; Filipe Martins, ex-assessor internacional de Bolsonaro; além do coronel Marcelo Câmara e do general Mário Fernandes, ligados diretamente à Presidência da República.

Segundo a denúncia, Silvinei, Marília e Fernando usaram estruturas da PRF e do Ministério da Justiça para tentar favorecer Bolsonaro nas eleições de 2022, incluindo a produção de relatórios de inteligência que embasaram ações contra o eleitorado nordestino. A PGR aponta que os três “coordenaram o emprego de forças policiais para sustentar a permanência ilegítima” do ex-presidente.

Para os investigadores, houve tentativa de “minar o sistema democrático pelo uso da força inerente à estrutura policial do Estado, mediante ações de embaraço e intimidação de eleitores”, especialmente em regiões onde Lula concentrava mais apoio popular.

Monitoramento violento de autoridades

Marcelo Câmara e Mário Fernandes são apontados como articuladores de ações de monitoramento e repressão violenta a autoridades públicas. A atuação de ambos está ligada ao chamado Plano Punhal Verde e Amarelo, cuja finalidade, segundo a PGR, era criar um ambiente propício para a assinatura de um decreto presidencial que rompesse com o regime democrático.

O cenário de instabilidade social provocado pela organização criminosa tinha por objetivo criar condições de aceitação política da assinatura por Jair Bolsonaro de decreto que rompesse com as estruturas democráticas“, diz a denúncia.

Já Filipe Martins teria elaborado o projeto de decreto que previa medidas excepcionais para viabilizar o golpe, como a prisão dos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Não há mais dúvida de que essa minuta que a Procuradoria imputa como minuta do golpe, e foi apreendida nos autos, passou de mão em mão, chegando inclusive ao presidente da República“, afirmou Moraes.

Indícios e requisitos legais para processo criminal

A análise da Primeira Turma se concentrou na existência de elementos suficientes para a abertura da ação penal, o que no direito processual é chamado de justa causa. Não houve julgamento sobre a veracidade das acusações, que será feito na etapa de instrução do processo, com produção de provas e oitiva de testemunhas.

Nesta fase, os ministros apenas verificaram se a denúncia preenche os critérios legais e apresenta indícios mínimos de materialidade dos crimes e autoria dos envolvidos. Segundo Moraes, “a descrição está amplamente satisfatória para os delitos imputados a cada um dos denunciados“.

Ele reforçou que a partir da instauração do processo, todas as acusações precisarão ser comprovadas para a eventual condenação dos réus. “A presença de qualquer dúvida razoável leva à absolvição”, destacou.

Mas neste momento vigora o princípio indubio pro societate, ou seja, a dúvida favorece a sociedade”.

Cármen Lúcia rejeita apelos por perdão

Durante o julgamento, a ministra Cármen Lúcia chamou atenção para a gravidade das acusações e criticou discursos que minimizam os atos de 8 de janeiro.

“Falou-se tanto hoje aqui de Bíblia e de momento pascal que acabamos de viver. Neste caso, não há o que perdoar, sabiam o que estavam fazendo”, afirmou a magistrada.

Este foi o segundo julgamento do STF relacionado ao inquérito do golpe. Em março, a mesma Primeira Turma já havia aceitado denúncia contra Bolsonaro e outros sete acusados de compor o “núcleo crucial” do plano. A PGR dividiu a denúncia em cinco núcleos de atuação para facilitar o andamento das ações penais.

Diferente do julgamento anterior, este trâmite foi mais célere, já que a maior parte das alegações preliminares das defesas haviam sido rebatidas anteriormente. A tendência é que os próximos núcleos também sejam julgados de forma fracionada, à medida que a Corte conclui a análise das peças processuais.

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