Governo Lula avalia anúncio de Flávio Bolsonaro como estratégia para 2030 e vantagem eleitoral
Movimentos da família Bolsonaro podem fortalecer presidente ao enfrentar ’02’ nas eleições de 2026, dizem aliados do Planalto
Antônio Cruz/ Agência Brasil
Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de partidos de centro avaliam que a decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de lançar seu filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato à Presidência da República em 2026 é uma estratégia de longo prazo. O objetivo seria mirar 2030 e garantir a manutenção do espólio político da família Bolsonaro.
Segundo fontes ouvidas pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, sob reserva, o anúncio confronta diretamente os planos do Centrão. O bloco pretendia lançar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos – SP) como candidato à Presidência, com apoio de Bolsonaro em troca de um eventual indulto, caso vencesse em 2026. Apesar do discurso público de buscar a reeleição em São Paulo, Tarcísio já demonstrava, nos bastidores, interesse em concorrer ao Planalto. Esse desejo tornava seu nome o preferido de setores da centro-direita que visam derrotar Lula (PT).
Surpresa no mundo político
O anúncio de que Flávio Bolsonaro será o representante do bolsonarismo em 2026 surpreendeu pelo timing, e não pelo conteúdo em si. Integrantes do governo Lula tinham dúvidas sobre a possibilidade de Tarcísio abrir mão da reeleição em São Paulo para disputar o Planalto com Bolsonaro.
Alguns ministros interpretaram o movimento como um “balão de ensaio”, prática política usada para testar a repercussão antes de consolidar a decisão. No entanto, elementos indicam que a candidatura é definitiva: Flávio e o PL confirmaram publicamente a decisão, e mesmo após a repercussão negativa no mercado financeiro — o Ibovespa caiu quase 4% às 16h30 desta sexta-feira —, não houve recuo.
Desde que Jair Bolsonaro (PL) foi preso em 22 de novembro, Flávio tornou-se seu principal interlocutor externo, papel semelhante ao do atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para o presidente Lula em 2018, quando o petista esteve preso na Polícia Federal (PF) em Curitiba. Afastado das articulações diárias, Bolsonaro passa a receber informações principalmente por meio do filho.
Estratégia para 2030 e blindagem política
Integrantes do governo avaliam que lançar Flávio ao Planalto visa manter o eleitorado de direita alinhado para 2030, cientes de que a disputa de 2026 será mais difícil, enfrentando o atual presidente. Apesar de Lula não registrar os melhores índices de aprovação, ele dispõe da máquina pública.
Há também programas sociais previstos para 2025, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, além de uma estrutura robusta de publicidade estatal, elementos que dão ao petista vantagem sobre a oposição fragmentada.
Ameaça não vem da esquerda
Para setores do Centrão, a maior ameaça a Bolsonaro não está na esquerda, mas no campo da centro-direita. O presidente do Progressistas (PP), Ciro Nogueira, chegou a criticar publicamente o que chamou de “falta de bom senso e estratégia no centro e na direita”.
Ele defendeu que a federação com o União Brasil fosse focada nas eleições estaduais e bancadas parlamentares, postagem feita no X em 19 de novembro, quando Bolsonaro já estava em prisão domiciliar. O apoio a Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) poderia aumentar chances de vitória contra Lula e garantir um eventual indulto, mas política e estrategicamente poderia escantear o clã Bolsonaro, seja em caso de vitória ou derrota.
Candidatura favorece Lula
Para o governo, enfrentar o “02” — Flávio Bolsonaro — é ideal devido à alta rejeição do sobrenome. A lógica é simples: se Lula derrotou Jair Bolsonaro em 2022, a confiança aumenta contra o filho.
Além disso, a candidatura de Flávio tem características de balão de ensaio: como senador, ele mantém foro privilegiado, e não há investigações diretas contra ele, apenas contra pessoas próximas. Esse cenário também atrapalha a construção de alternativas na direita, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Romeu Zema (Novo-MG) e Ratinho Jr. (PSD-PR), que ainda precisam de tempo para ganhar visibilidade nacional.
“Candidatura vacina” e declarações de Flávio
A decisão também pode funcionar como “candidatura vacina”, estratégia para se proteger de investigações. Se houver avanço judicial, o discurso se transforma em “perseguição política porque sou candidato”, tática usada anteriormente por Alexandre Ramagem (PL-RJ) no Rio.
“É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação”, afirmou senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nesta última sexta-feira (5).
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também divulgou nota oficial. “Informo que o senador Flávio Bolsonaro é o nome indicado por Jair Bolsonaro para representar o partido na disputa presidencial. Seguiremos juntos, trabalhando com responsabilidade e compromisso com o Brasil”.
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