Banco Central perde 60% da força de fiscalização em 20 anos e acende alerta sobre riscos sistêmicos

Diretor de Fiscalização do BC destaca redução de servidores e cobra nova estrutura regulatória para enfrentar riscos no setor financeiro


Redação
Estadão Conteúdo e Redação 07/07/2025 20:20 • Cidades
Banco Central perde 60% da força de fiscalização em 20 anos e acende alerta sobre riscos sistêmicos - Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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O Banco Central (BC) tem enfrentado responsabilidades crescentes na fiscalização do sistema financeiro nacional, mesmo com queda no número de servidores e restrições orçamentárias. A avaliação é do diretor de Fiscalização da autarquia, Ailton Aquino, que participou, nesta segunda-feira (7), do 3º Encontro Nacional de Auditoria Financeira dos Tribunais de Contas do Brasil (Enaf), em Salvador (BA).

Segundo Aquino, o número de servidores da área caiu de 1,4 mil em 2005 para 579 em 2025, enquanto o universo de instituições sob supervisão aumentou para cerca de 2 mil entidades. O diretor defendeu o papel da autarquia diante da confiança dos brasileiros no sistema.

“A sociedade que poupa, que acredita nas suas economias, precisa compreender que tem uma supervisão presente”, afirmou.

Banco Central pede acesso a dados compartilhados

Para o BC, a supervisão efetiva exige acesso a dados compartilhados entre diferentes órgãos reguladores. Aquino defendeu uma discussão sobre a fragmentação do modelo regulatório brasileiro, atualmente dividido entre CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Susep e Previc. “O mundo está mudando rapidamente, o perímetro regulatório está mudando rapidamente, e a sociedade tem de se adaptar”, disse o diretor. Ele afirmou não saber se a estrutura atual continua sendo a mais eficaz.

Como revelou a Broadcast, o BC vê na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65 uma oportunidade para expandir seu perímetro regulatório, especialmente sobre a regulação prudencial do mercado de capitais. A justificativa está na crescente migração de crédito para fora do balanço dos bancos e no aumento da presença de instituições financeiras não bancárias (NBFIs) em leilões de títulos públicos.

Ataque hacker de R$ 800 milhões expõe falhas e pressiona nova regulação

O alerta do BC ocorre dias após um ataque cibernético à empresa C&M Software, prestadora de serviços do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), que causou um prejuízo estimado em R$ 800 milhões e afetou pelo menos seis instituições financeiras. O caso expôs fragilidades operacionais no modelo atual e reacendeu o debate sobre governança, segurança digital e responsabilidade regulatória.

Na última sexta-feira (4), a Polícia Civil prendeu em Brasília um ex-funcionário terceirizado da C&M, acusado de compartilhar suas credenciais de acesso com hackers. Segundo as investigações, os criminosos simularam transações legítimas com uso dessas credenciais, burlando os mecanismos de autenticação. O ataque não invadiu diretamente os sistemas da empresa, mas utilizou acessos reais para fraudes em contas-reserva de pelo menos oito bancos.

Entre as instituições afetadas, três já foram confirmadas: BMP, Credsystem e Banco Paulista. As demais ainda não foram divulgadas.

A C&M informou que seus sistemas críticos permanecem operacionais e que a ação foi resultado de violação do ambiente de um cliente. A empresa bloqueou os acessos à sua infraestrutura, reforçou controles internos, revisou perfis de acesso e vem colaborando com as autoridades. Também iniciou auditorias independentes e comunicação direta com os bancos afetados.

Pix opera com restrições e caso é tratado como risco sistêmico

Após o incidente, o Banco Central suspendeu cautelarmente as operações da C&M na quarta-feira (2), retomando os serviços parcialmente no dia seguinte. Atualmente, o Pix funciona em regime de produção controlada, das 6h30 às 18h30 em dias úteis, com necessidade de anuência expressa dos bancos participantes para cada transação.

O episódio levou o BC a reforçar medidas de monitoramento antifraude e limites operacionais temporários. A resposta à crise envolveu a Polícia Civil de São Paulo, a Polícia Federal e a própria autarquia, que atua em frentes criminal e regulatória.

Segundo especialistas, golpes baseados no uso indevido de credenciais legítimas representam um dos maiores desafios da cibersegurança moderna. O principal mecanismo de prevenção continua sendo a autenticação multifator, aliada ao monitoramento contínuo de acessos suspeitos.

O ataque também acende alerta sobre a dependência crescente do sistema financeiro em intermediadores privados, que integram serviços essenciais como o SPB e o Pix. Analistas preveem que o episódio deve acelerar mudanças regulatórias, com o BC assumindo funções mais amplas sobre prestadoras de serviço e impondo exigências mais rígidas de segurança cibernética e gestão de dados.

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