Você vai fazer tudo igual no ano que vem? De novo?

O ano termina, mas o que ainda insiste em não terminar dentro de você?


Sergio Manzione
Sergio Manzione 27/12/2025 08:50 • Artigos e afins
Você vai fazer tudo igual no ano que vem? De novo? - Imagem gerada por IA
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A virada do ano costuma alimentar uma fantasia coletiva: a de que a simples mudança do calendário reorganiza a vida. Essa crença conforta e cria esperança, mas transforma pouco se você não fizer acontecer. Há várias perguntas que importam e não dependem do relógio, nem do dia primeiro: você está a fim de fazer as coisas diferentes? Você vai ficar sonhando ou vai colocar os pés no chão e mudar padrões de pensamento e comportamento?  Você vai repetir o mesmo roteiro de 2025 ou vai, de fato, fazer diferente?  As respostas exigem coragem emocional, porque pedem que você encare os próprios padrões com honestidade.

A verdade emocional do nosso tempo

O ano reforçou a percepção de que a cultura atual vive um esvaziamento profundo. Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, descreve essa transformação em “A civilização do espetáculo”, obra que analisou o declínio da profundidade cultural. A crítica permanece atual e ajuda a entender porque 2025 intensificou a sensação de que a vida se tornou um grande palco de performances emocionais. E isso é evidente quando se vê a exposição da vida nas redes sociais.

Os artigos escritos por este colunista ao longo do ano revelaram essa dinâmica. Em “O planeta compre” e “O Natal do ter sem ser: Jesus ou Papai Noel?” mostraram como o consumo passou a definir identidades e a orientar escolhas afetivas. A reflexão sobre o imediatismo emocional expôs a fragilidade de uma sociedade que troca profundidade por estímulos rápidos.

A tecnologia, seja nos equipamentos, seja com o avanço da inteligência artificial, alimentou esse ciclo com precisão cirúrgica. A agência de notícias Reuters revelou que a Meta, dona do facebook, Instagram e Whatsapp, faturou cerca de R$ 85 bilhões em 2024 com anúncios de golpes, fraudes e produtos proibidos. Esse dado só mostra o óbvio: o lucro interessa mais do que tudo. No artigo “O que os criadores das redes sociais escondem de você?”, salientei que quem conhece os efeitos danosos das redes sociais limita ou proíbe seus filhos de as usarem.

As dores silenciosas das relações

No artigo “O inimigo cordial”, e em outros momentos, escrevi sobre manipulação sutil, “gaslighting”, vínculos frágeis e egoísmo afetivo, o que abriu espaço para compreender o lado invisível das relações humanas. Muitas pessoas viveram 2025 tentando equilibrar responsabilidades pessoais com o medo de desagradar. Outras conviveram com agressões emocionais disfarçadas de cuidado.

A violência psicológica ganhou destaque porque os números cresceram. Dados do DataSenado e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostraram que milhões de mulheres continuam vivendo em risco dentro das próprias casas. Os relatos de violência física, emocional e sexual revelaram um padrão preocupante. O número de casos é alarmante e reflexo de uma sociedade absurdamente machista, onde tudo tem de ser resolvido no grito, com ameaças e na bala. Homens imaturos, presos na infância emocional, não admitem a hipótese da frustração, nem que uma mulher tenha vontade própria. 

As reflexões sobre separações afetivas e abandono emocional também marcaram o ano. O sofrimento de quem tenta seguir adiante enquanto carrega feridas antigas mostrou que a vida emocional não obedece ao calendário. Muitas pessoas encerram 2025 exatamente com a mesma dor com que começaram.

A busca por identidade em um mundo confuso

Os artigos sobre identidade, ego, comparação e vulnerabilidade expuseram um fenômeno central. A identidade contemporânea passou a ser moldada por estímulos constantes. A sensação de inadequação se tornou um efeito colateral inevitável. Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço e pai da psicologia analítica, lembrava que a jornada mais difícil de uma vida é tornar-se quem se é. 

Em 2025, essa tarefa se tornou ainda mais complexa, pois as pessoas têm se visto obrigadas a escolher lados, o que separa, divide. Os discursos de ódio são apoiados por um grande contingente de pessoas. Falando nisso, é bom lembrar que o que agrupa, une e dá sentido é o “simbólico”, mas, de outro lado, o que tem o prefixo “di”, divide, destrói e causa dúvida: é o “diabólico”.  O filósofo alemão Nietzsche disse que “o maior inimigo da verdade são as convicções”, portanto, cuidado com as suas.

As reflexões, que fizemos ao longo do ano, sobre o espírito do tempo (“zeitgeist”) mostraram a atualidade da análise de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês conhecido pela teoria da modernidade líquida. O mundo se tornou mais rápido, mais raso e mais fragmentado. A profundidade virou exceção, e isso inclui os relacionamentos interpessoais, que podem ser desconectados e deletados.

O que 2025 mostrou

O ano mostrou que o sofrimento emocional não é sinal de fraqueza, mas a consequência natural de estilos de vida que esgotam, exaurem e pressionam a mente. Pessoas que tentam sustentar expectativas irreais inevitavelmente adoecem. Também ficou claro que não existe saúde mental possível quando o indivíduo se distancia da própria verdade. A negação emocional custa caro, e abordei isso no artigo “Varrer para debaixo do tapete”.

A dependência de aprovação continua sendo uma das presenças mais destrutivas na vida emocional das pessoas. Então a pergunta é: o que você aprendeu com que o ano mostrou?

O convite para 2026

O próximo ano não começa no dia primeiro, mas no instante em que você decide fazer diferente. Coragem emocional é o ponto de partida para quem deseja construir uma vida mais honesta para si. O convite é simples e profundo: abandone a tentativa de ser o que os outros esperam. Comece a ser o que sua consciência pede. Comece a ser o que você pode ser!

A responsabilidade afetiva é indispensável. A maturidade emocional exige que a pessoa pare de criar feridas nos outros e em si mesma. Quem age com clareza se torna fonte de estabilidade em tempos confusos.

A desaceleração consciente tem de ser uma escolha vital. A mente precisa de silêncio. A alma precisa de espaço. A vida exige pausas para se reorganizar. Medite, relaxe, respire direito. Lembre-se do que disse o escritor, filósofo e editor norte-americano Elbert Hubbard: “Não leve a vida tão a sério. Afinal, você nem sairá vivo dela.”

O ano de 2026 pode ser um ano de (re)construção interna. Depende da disposição de abandonar padrões antigos e admitir o que realmente precisa mudar. O que você ainda precisa reconhecer sobre si mesmo antes de encerrar o ano? Uma dica: veja as pessoas como elas são, não como você gostaria que elas fossem. Isso vale para quando você olhar no espelho também.

Para fechar o ano

A pergunta que ecoa no fim deste texto carrega a responsabilidade de quem deseja mudar de verdade: você vai fazer tudo igual no ano novo ou você vai mudar o roteiro?  Seja gentil consigo mesmo(a) e só estipule metas que você, de fato, possa cumprir. Vá com calma, mas vá! Não esqueça que só erra quem faz. Lembre, ainda, que se você quer um resultado diferente vai ter de fazer diferente. 

Feliz Ano Novo! Feliz Você Novo(a)!

Sergio Manzione é psicólogo clínico
Sergio Manzione é psicólogo clínico
Crédito: Divulgação

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione

**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!*

Sérgio Manzione

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