Medo do futuro na idade avançada: como lidar com a finitude
Quando o futuro provoca ansiedade, será medo da morte ou medo de uma vida mal vivida?
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O medo do futuro acompanha o ser humano em todas as fases da vida, mas muda radicalmente de natureza quando o tempo deixa de ser percebido como horizonte aberto e passa a ser vivido como limitado. Neste artigo, utilizo o termo “idade avançada” para a fase que se inicia a partir dos 65 anos, sem ignorar que os efeitos psíquicos dessa etapa variam conforme a história subjetiva de cada pessoa.
Nesse período, o receio quanto ao amanhã raramente se manifesta como pânico explícito, costuma aparecer de forma silenciosa. Manifesta-se como inquietação sem motivo, sensação de esvaziamento ou perda da direção interna, visto que o futuro deixa de organizar projetos e passa a organizar perguntas.
Existencialismo: quando a vida deixa de responder sozinha
O existencialismo não é uma técnica terapêutica nem um conjunto de frases inspiradoras. Trata-se de uma corrente filosófica que parte da constatação de que a vida não vem pronta de sentido e que o ser humano é obrigado a lidar com escolhas, limites, perdas e finitude sem nenhuma garantia.
Tal perspectiva se torna especialmente relevante na idade avançada porque, quando o tempo se encurta, a pergunta pelo sentido deixa de ser abstrata. O medo do futuro, nesse contexto, não é sinal de fragilidade emocional, mas um indicativo de que a existência exige outra leitura.
Escolhas, irreversibilidade e o peso do vivido
A reflexão ontológica é o que ancora o existencialismo. A ontologia, campo da filosofia que investiga o que significa existir, analisa como o ser humano se constitui no tempo e como lida com limite, escolha e morte. Não é uma abstração distante, mas uma leitura estrutural da experiência humana.
Martin Heidegger, filósofo alemão do século XX e um dos principais pensadores da ontologia moderna, dedicou sua obra a compreender o ser no tempo. Ao defini-lo como “ser-para-a-morte”, Heidegger não propôs pessimismo, mas lucidez: viver é sempre habitar a condição do fim. Na idade avançada, essa consciência deixa de ser conceito e passa a ser vivida no corpo, nas perdas acumuladas e na irreversibilidade cronológica.
Nesse ponto, o medo do futuro deixa de ser o temor do desconhecido e se transforma no receio pela insuficiência de sentido da vida. Essa angústia se intensifica quando a pessoa percebe que o tempo já não permite correções sucessivas.
Jean-Paul Sartre, principal nome do existencialismo no pós-guerra, sustentou que o ser humano é responsável por suas escolhas, pois não há essência prévia que o determine. Nessa etapa, tal responsabilidade pesa mais, já que o irreversível se impõe e certas decisões não poderão ser revistas ou adiadas. A pergunta que surge é persistente: o que sobra de mim quando os papéis que me definiam deixam de existir?
Quando o medo vira sintoma
É nesse ponto que o sofrimento ganha forma clínica. Ansiedade e depressão aparecem com frequência na idade avançada, sendo muitas vezes tratadas apenas como problemas médicos. Eliminadas as causas orgânicas, neurológicas ou farmacológicas, o que permanece, em inúmeros casos, é uma depressão de base existencial, frequentemente escondida sob o rótulo de “depressão senil”. Esse termo sugere um declínio natural e inevitável, quando o que se observa, na verdade, é um colapso de sentido, perda de identidade simbólica, ruptura de vínculos e a experiência persistente de inutilidade.
A ansiedade, aqui, raramente surge como agitação; ela se apresenta como inquietação difusa, ruminação constante e dificuldade de repousar. Isso ocorre porque o medo real não é do que vai acontecer, mas de não haver mais para quê viver. A depressão, nesse contexto, é o empobrecimento do tempo interno.
Agravante social: o etarismo
Esse sofrimento não nasce apenas do indivíduo e é amplificado pelo etarismo, a discriminação baseada na idade, que reduz pessoas em idade avançada à ideia de declínio ou improdutividade. Para o capitalismo tudo que é velho deve ser descartado para que algo novo entre no lugar, e assim, acontece com a “coisificação das pessoas”, proposta pelo filósofo polonês Zigmunt Bauman.
Uma pessoa “velha” não produziria mais e se tornaria descartável, assim como já ouvi jovens dizendo que não ouviriam certo tipo de música, porque era “música de velho”. Além de uma ignorância atordoante, esse pensamento revela o cerne de uma sociedade profundamente consumista. No entanto, quando um desses jovens resolve casar na igreja, pede músicas clássicas durante a cerimônia, sendo que Bach, por exemplo, morreu há quase 300 anos.
Enfim, quando a sociedade retira do sujeito sua função simbólica, o medo do futuro se transforma em desamparo. O tempo encurta, e o mundo parece não precisar mais daquela existência, e, pior, é a pessoa se convencer disso.
Metafísica como sustentação psíquica
É nesse vazio que muitos recorrem às diversas crenças metafísicas como a religião, não como fuga, mas como tentativa de suporte emocional. Carl Jung, fundador da Psicologia Analítica, observou que a segunda metade da vida convoca naturalmente o ser humano ao transcendente, pois a mente busca integração e totalidade, não apenas desempenho.
Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, sobrevivente do Holocausto, afirmou que o indivíduo se organiza pelo sentido que dá à vida, e que a perda dessa orientação torna o sofrimento insuportável. Aqui fica evidente que não é a idade que deprime, mas a ausência de sentido diante da morte.
Propósito e “carpe diem”
A expressão “carpe diem” significa algo próximo de “aproveite o dia”. Ao longo do tempo, essa ideia foi reduzida a um convite ao excesso, à negação do amanhã e à busca apressada de prazer. Essa leitura é superficial e, na idade avançada, francamente destrutiva.
O “carpe diem” não nasce da negação do futuro, mas da consciência do limite. Ele parte do reconhecimento de que o tempo é finito e, justamente por isso, exige escolha, não fuga. Não se trata de consumir mais experiências, mas de atribuir valor ao que ainda merece ser vivido.
Na idade avançada, esse princípio vira um critério, pois a pessoa já não pode desperdiçar energia em relações vazias ou expectativas que não se sustentarão. O “carpe diem”, entendido de forma séria, não acelera a vida, mas a depura e pergunta, em silêncio: o que ainda vale o seu tempo?
Por fim…
Quando causas físicas são afastadas, o sofrimento psíquico na idade avançada revela-se como uma crise diante de como será a jornada da vida até a morte. É a comprovação pessoal da finitude e ansiedade e depressão, nesse contexto, não são falhas do organismo, mas respostas humanas a uma existência que se perdeu no caminho.
O futuro pode ser menor em duração, sem precisar ser vazio. A pergunta deixa de ser “o que ainda vai acontecer?” e passa a ser “como escolho viver o tempo que me resta?”.

Crédito: Equipe M!
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu os livros “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma Vida Feliz”, e “Perdoar é Sobre Você”. Siga no Instagram @psicomanzione.
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
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