Anderson Torres diz ao STF que nunca apontou fraude nas urnas e chama plano golpista de ‘minuta do Google’
Audiência faz parte da semana de interrogatórios da Primeira Turma do STF, que começou na segunda-feira e vai até sexta
Tom Costa/Ministério da Justiça e Segurança Pública
O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (10), que nunca encontrou indícios de fraude nas urnas eletrônicas e que sempre transmitiu essa avaliação ao então presidente Jair Bolsonaro (PL) e a outras autoridades do governo.
Durante o interrogatório na ação penal que investiga a tentativa de golpe para reverter o resultado das eleições de 2022, Torres declarou que todas as suas falas sobre o processo eleitoral se basearam em recomendações técnicas de segurança feitas por peritos da Polícia Federal.
“Eu nunca questionei a lisura do processo eleitoral. Todas as minhas falas são em relação às sugestões de melhorias que os peritos trouxeram naqueles documentos”, afirmou.
Torres disse ainda que, ao ser questionado por Bolsonaro, sempre sustentou que “tecnicamente não havia nada que apontasse fraude nas urnas”. O ex-ministro participou da live de 29 de julho de 2021, transmitida por Bolsonaro no Palácio da Alvorada, em que o ex-presidente fez acusações infundadas contra o sistema eleitoral — ato que, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), marcou o início da articulação golpista.
Ex-ministro minimiza ataques ao STF e fala em ‘pressão muito grande’
Confrontado pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da ação, sobre críticas ao STF feitas em uma reunião ministerial em julho de 2022, Torres alegou que o momento refletia a tensão entre os Poderes e que tentou manter o diálogo entre Executivo e Judiciário.
“Eu fui um dos que mais me esforcei para que essa relação não se esbagaçasse. Tentei de todas as formas manter o diálogo, mas sentia uma pressão muito grande”, justificou.
Minuta do golpe? ‘Minuta do Google’, diz Torres
No mesmo depoimento, Anderson Torres minimizou o documento encontrado em sua residência com uma proposta de intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O texto ficou conhecido como “minuta do golpe” e foi apreendido pela Polícia Federal em janeiro de 2023.
“Não me lembrava da existência daquela minuta. Eu só soube quando a Polícia Federal a encontrou. Aquilo ali era uma ‘minuta do Google’”, disse, tentando ironizar o conteúdo do documento, que sugeria alterar o resultado das eleições vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Celular perdido e defesa prejudicada
O ex-ministro também teve que explicar por que não entregou seu celular ao ser preso preventivamente, no início de 2023, após os atos golpistas de 8 de janeiro. Na época, Torres era secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, mas estava de férias nos Estados Unidos com a família.
Ele alegou que perdeu o aparelho e que isso prejudicou sua própria defesa.
“Foi o momento mais duro da minha vida. Saí daqui como secretário e saiu minha prisão. Isso me deixou completamente transtornado. Perdi o equilíbrio com aquela notícia”, afirmou. Segundo ele, mesmo sem o aparelho, forneceu à PF a senha da nuvem onde estavam os dados do celular.
Interrogatórios continuam até sexta-feira
A audiência faz parte da semana de interrogatórios da Primeira Turma do STF, que começou na segunda-feira (9) e vai até sexta (13). Todos os réus da ação penal da trama golpista devem prestar depoimento presencialmente, com exceção do general Braga Netto, que falará por videoconferência por estar preso no Rio de Janeiro.
Além de Torres, já foram ouvidos o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator do caso, e o deputado federal Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
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