Brasil e mais cinco países alertam para apropriação externa de recursos da Venezuela após ataque dos EUA
Nota conjunta pede atuação direta da ONU, defende solução pacífica e critica ações unilaterais que ameacem a estabilidade regional
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O Brasil divulgou, neste domingo (4), um comunicado conjunto com os governos do México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha sobre a crise venezuelana. O Itamaraty manifestou apreensão quanto à “apropriação externa” de riquezas naturais do país vizinho após a ofensiva militar dos Estados Unidos. O documento solicita a intervenção direta das Nações Unidas para conter o agravamento das tensões locais.
“Manifestamos nossa preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, o que se mostra incompatível com o direito internacional e ameaça a estabilidade política, econômica e social da região”, diz trecho.
Situação na Venezuela: https://t.co/FvKqOvvtin pic.twitter.com/5GRHvUecIe
— Itamaraty Brasil 🇧🇷 (@ItamaratyGovBr) January 3, 2026
Contexto diplomático e regional
Este agrupamento de países possui natureza informal e caráter ad hoc, focado exclusivamente na atual conjuntura da Venezuela. Paralelamente ao movimento do grupo, projeta-se para este domingo (4) um encontro entre chanceleres no âmbito da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Este organismo intergovernamental permanente é integrado por 33 nações da América Latina e do Caribe.
A movimentação diplomática ocorre após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, ocorrida na madrugada do último sábado (3). O líder venezuelano enfrenta indiciamento por narcoterrorismo e outros crimes em tribunais norte-americanos. Em pronunciamento na Flórida, o presidente Donald Trump declarou que sua gestão deve administrar o país sul-americano até que uma transição política seja integralmente concluída.
Em resposta aos fatos, os seis signatários reforçaram o compromisso da região em manter-se como uma zona de paz e estabilidade. O apelo foca na unidade regional, independentemente de divergências ideológicas entre os governos envolvidos. Sobre os ataques em solo venezuelano e a prisão de Maduro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, no sábado (3), que tais ações cruzam uma linha “inaceitável”.
Em contrapartida, o presidente argentino Javier Milei utilizou o X (antigo Twitter) para compartilhar o êxito da operação militar dos Estados Unidos. O grupo liderado pelo Brasil, contudo, reitera que a solução deve ser pacífica e sem ingerência.
“Reafirmamos que apenas um processo político inclusivo, liderado pelas venezuelanas e pelos venezuelanos, pode conduzir a uma solução democrática, sustentável e respeitosa da dignidade humana”.
O comunicado encerra com um alerta sobre os riscos das medidas unilaterais e dos bombardeios para a segurança de civis. Na visão das seis nações, essas ações “constituem um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional baseada em normas, além de colocarem em risco a população civil”. A prioridade declarada é a preservação da soberania popular venezuelana.
Confira a nota na íntegra:
“Os Governos do Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, diante da gravidade dos fatos ocorridos na Venezuela e reafirmando seu apego aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, expressam de forma conjunta as seguintes posições:
Expressamos nossa profunda preocupação e rechaço diante das ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela, as quais contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e da ameaça do uso da força, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, consagrados na Carta das Nações Unidas. Tais ações constituem um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional baseada em normas, além de colocarem em risco a população civil.
Reiteramos que a situação na Venezuela deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, por meio do diálogo, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano em todas as suas expressões, sem ingerências externas e em conformidade com o direito internacional. Reafirmamos que apenas um processo político inclusivo, liderado pelas venezuelanas e pelos venezuelanos, pode conduzir a uma solução democrática, sustentável e respeitosa da dignidade humana.
Reafirmamos o caráter da América Latina e do Caribe como zona de paz construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica das controvérsias e a não intervenção, e fazemos um apelo à unidade regional, para além das diferenças políticas, diante de qualquer ação que coloque em risco a estabilidade regional. Da mesma forma, exortamos as Nações Unidas e os mecanismos multilaterais pertinentes a fazer uso de seus bons ofícios para contribuir para a desescalada das tensões e para a preservação da paz regional.
Manifestamos nossa preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, o que se mostra incompatível com o direito internacional e ameaça a estabilidade política, econômica e social da região”.
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