Pedofilia: quando a dor cala a infância

Em 68% dos abusos contra crianças, o agressor é da família: o perigo não vem só de fora


Sergio Manzione
Sergio Manzione 20/09/2025 08:30 • Artigos e afins
Pedofilia: quando a dor cala a infância - Imagem gerada por IA
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A pedofilia no Brasil tem rosto conhecido: em 68% dos casos envolvendo crianças de 0 a 9 anos, e em 58,4% entre adolescentes de 10 a 19 anos, o agressor é alguém da própria família ou um conhecido próximo. Entre 2015 e 2021, o Ministério da Saúde registrou mais de 200 mil ocorrências de violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo 76,9% das vítimas crianças do sexo feminino e 92,7% adolescentes meninas. A maioria dos abusadores é do sexo masculino, responsável por mais de 80% dos crimes. O perigo se esconde dentro de casa, protegido pelo silêncio. 

Por que um homem adulto sente desejo sexual por uma criança?

Essa questão gera repulsa, mas precisa ser enfrentada com seriedade. A ciência mostra que esse desejo não nasce do amor ou da reciprocidade, mas de uma fixação patológica em alvos vulneráveis. O pedófilo busca controle, submissão e a sensação de poder, não intimidade adulta.

Pesquisadores como Michael C. Seto e David Finkelhor demonstram que a pedofilia é multicausal, envolvendo fatores neuropsicológicos, traços de personalidade e distorções cognitivas. Não se trata de orientação sexual, mas de um desvio da sexualidade.

Como pensa o pedófilo?

A psicologia forense mostra que o pedófilo não é um “louco” sem consciência. Ele sabe que a sociedade condena sua conduta, mas cria mecanismos de racionalização para suportar a tensão entre desejo e norma. Exemplos típicos dessas distorções cognitivas:

  • “A criança quis, me provocou”
  • “É uma forma de ensinar”
  • “Não machuco ninguém, é só carinho”

Essas narrativas internas aliviam a culpa, mas não anulam a consciência de que o ato é proibido. Como disse Sigmund Freud, pai da psicanálise, “a racionalização é um álibi para o inconsciente”, uma forma de maquiar aquilo que não se quer assumir.

Ele sabe que está errado?

Na maioria dos casos, sim. Tanto que age na clandestinidade, busca segredo e manipula a criança para que não conte. Isso demonstra plena consciência da ilicitude. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) classifica o transtorno pedofílico não apenas pelo desejo, mas quando ele é acompanhado de sofrimento ou de ação. O sofrimento, muitas vezes, não vem da empatia pela criança, mas do medo de ser descoberto.

Pedofilia é sinônimo de psicopatia?

Não. Robert Hare, referência mundial no estudo da psicopatia, define o psicopata como alguém com frieza afetiva, manipulação, ausência de empatia e impulsividade. Parte dos pedófilos tem traços psicopáticos, especialmente os reincidentes violentos, mas nem todos. Podemos dividir em três grupos:

  • Pedófilos organizados, “sedutores”: buscam aproximação, aliciamento (“grooming”), afeto manipulado.
  • Pedófilos compulsivos, violentos: agem por impulsividade e agressividade, muitas vezes com perfil psicopático.
  • Pedófilos passivos: consomem pornografia infantil, mas não se aproximam fisicamente.

Ou seja, há sobreposição em alguns casos, mas não equivalência.

Internet como terreno fértil para o abuso

O ambiente digital expandiu as oportunidades do pedófilo:

  • Grooming (aliciamento) online: adultos se passam por adolescentes em chats e redes sociais
  • Sextortion: chantagem após receber imagens íntimas da vítima
  • Redes globais: grupos na “dark web” que trocam pornografia infantil, e até manuais de manipulação

Quando o agressor é pai, avô ou tio

Aqui, o trauma é devastador. O pai deveria ser protetor. O avô, afeto seguro. O tio, referência de amizade familiar. Quando essas figuras assumem o papel de abusadores, a criança perde não só a inocência, mas a fé no mundo. As consequências mais comuns:

  • Incapacidade de confiar em outras pessoas
  • Dificuldade em se relacionar afetivamente na vida adulta
  • Transtornos de ansiedade, depressão e, em alguns casos, ideação suicida

Quando a família silencia para “não expor” o abusador, a criança entende que sua dor vale menos que a reputação da família. Essa cumplicidade agrava o trauma.

Psique da vítima: quando o mundo deixa de ser seguro

Se o pedófilo vive em racionalizações, a vítima vive em silêncio e confusão. A criança abusada pensa:

  • “Se meu pai faz isso, é porque deve ser certo”
  • “Se eu contar, destruo a família”
  • “Será que a culpa é minha?”

Esse conflito emocional paralisa. O ambiente que deveria proteger se torna perigoso. Donald Winnicott descreveu isso como “quebra do ambiente de confiança”: quando a casa, o colo ou a família deixam de ser porto seguro, a criança perde a base para se desenvolver de forma saudável.

Consequências emocionais e identidade ferida

O abuso sexual infantil não fere apenas o corpo: fere a identidade. Consequências frequentes incluem:

  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
  • Autoestima destruída e culpa crônica
  • Dificuldades na vida sexual adulta (aversão, compulsão ou confusão)
  • Uso de drogas ou álcool como anestesia emocional

A psiquiatra Judith Herman, de Harvard, destaca que o trauma sexual infantil corrói a capacidade de confiar em si mesmo, no outro e no mundo.

Segunda e terceira violências

Uma das reações mais comuns ao confronto é a negação absoluta. O abusador costuma dizer:

  • “Essa criança inventa coisas”
  • “É imaginação”
  • “Está querendo chamar atenção”

Essa acusação de mentira é uma segunda violência. A vítima, além de ter sido abusada, é desmoralizada e desacreditada. A família, muitas vezes, escolhe acreditar no adulto, e essa é a terceira violência. O resultado é devastador, e a criança sente-se culpada, invisível e abandonada: “minha dor não importa”.

Esse pacto de silêncio é cúmplice do abuso e perpetua o ciclo por gerações. Romper o silêncio é assumir a responsabilidade de proteger.

O que a vítima deve fazer quando se dá conta do abuso

Quando a vítima reconhece que sofreu abuso, a primeira reação é muitas vezes o silêncio, por vergonha ou medo. No entanto, o passo mais importante é falar.

  • Contar a alguém de confiança: mãe, tia, professor(a), psicólogo, conselheiro tutelar
  • Não se culpar: a responsabilidade é sempre do agressor
  • Buscar ajuda profissional: acompanhamento psicológico e médico são essenciais para elaborar o trauma
  • Registrar e denunciar: quando possível, guardar provas (mensagens, registros) e acionar a rede de proteção

A criança (ou adolescente) precisa entender que não está sozinha. Ao falar, rompe-se o ciclo do silêncio que alimenta o abuso.

O que outras pessoas que sabem do abuso devem fazer?

Quem descobre ou suspeita de um abuso não pode se omitir:

  • Proteger imediatamente a criança: afastar o agressor do convívio
  • Não confrontar a vítima diante do abusador: isso aumenta a vulnerabilidade
  • Denunciar: acionar o Disque 100, o Conselho Tutelar ou a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Em casos de urgência, ligar para o 190.
  • Apoiar emocionalmente: acreditar na vítima é o primeiro passo para sua recuperação

Proteger a criança acima de tudo

O confronto precisa ser direto: acreditar na criança, romper pactos familiares e denunciar o agressor. A pedofilia é complexa na origem, mas simples na resposta moral: não há justificativa possível. Entre proteger a reputação de um adulto ou proteger a infância de uma criança, não existe escolha: a criança vem sempre em primeiro lugar. 

Converse sobre esse tema com a família, com amigos, pois a informação correta é a que esclarece, previne e cura. O silêncio de quem sabe perpetua a violência. A omissão também é uma forma de cumplicidade.

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione

**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!*

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