Nem todo presente é seguro: pesquisa da USP mostra risco em brinquedos e reforça a importância de escolhas sustentáveis

Mais do que um presente, o ato de brincar pode ser uma oportunidade de aprendizado e conexão


Matheus Calmon
Matheus Calmon 11/10/2025 11:58 • Cidades
Nem todo presente é seguro: pesquisa da USP mostra risco em brinquedos e reforça a importância de escolhas sustentáveis - Michał Bożek / Unsplash
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O Dia das Crianças, celebrado neste domingo (12), é uma das datas mais aguardadas do ano, mas também um momento que exige atenção dos pais e responsáveis na hora de escolher presentes. Diante do apelo do consumo, surge a importância de adotar práticas mais conscientes, que unam diversão, aprendizado e sustentabilidade. Especialistas apontam que a compra de brinquedos deve levar em conta não apenas o desejo imediato das crianças, mas também os impactos ambientais e o valor educativo de cada escolha.

Mais do que um presente, o ato de brincar pode ser uma oportunidade de aprendizado e conexão. Brinquedos feitos com materiais sustentáveis e experiências que envolvem arte, natureza e criatividade ajudam a fortalecer laços familiares e a estimular o desenvolvimento infantil. Para muitos pais, pequenas mudanças — como substituir brinquedos de plástico por opções artesanais ou propor atividades em família — já fazem diferença no modo como as crianças compreendem o consumo e o cuidado com o planeta.

Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) acende um alerta sobre a segurança dos brinquedos plásticos disponíveis no mercado brasileiro. O estudo, publicado na revista Exposure and Health e apoiado pela Fapesp, analisou 70 produtos de fabricação nacional e importados, tornando-se o levantamento mais abrangente já feito no país sobre contaminação química em produtos infantis. Os resultados mostraram que muitos brinquedos não seguem as normas do Inmetro e da União Europeia.

Muitos brinquedos parecem inofensivos, mas não atendem regras de segurança
Crédito: SBP

Entre as substâncias detectadas, o bário foi o caso mais grave, presente acima do limite permitido em 44,3% das amostras, com concentrações até 15 vezes superiores ao valor regulamentar. O metal pode causar arritmias e paralisias, enquanto o chumbo — encontrado em 32,9% das amostras — está associado a danos neurológicos e perda de Q.I. O estudo também identificou irregularidades em níveis de antimônio e crômio, elementos ligados a problemas gastrointestinais e risco de câncer, reforçando a necessidade de fiscalização e consumo responsável no setor infantil.

Brinquedos educativos e experiências em família

A escolha de brinquedos educativos e sustentáveis pode ser decisiva para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. Segundo a psicopedagoga Fernanda Menezes, esses produtos estimulam habilidades como atenção, memória e raciocínio lógico, ao mesmo tempo em que fortalecem valores de responsabilidade e respeito ao meio ambiente. O uso de materiais naturais ou reciclados amplia o potencial criativo e sensorial das brincadeiras.

“Quando a família escolhe os brinquedos educativos e que são brinquedos também sustentáveis, eles estão contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, porque ele vai estimular habilidades como atenção, memória, raciocínio lógico, resolução de problemas, e, ao mesmo tempo, vai promover valores de responsabilidade e respeito ao meio ambiente”, afirma em entrevista ao Portal M!.

Para identificar brinquedos que realmente estimulem o aprendizado, Fernanda destaca a importância de observar se o objeto convida a criança a pensar, explorar e experimentar, em vez de apenas reagir a estímulos sonoros ou visuais. Ela reforça que produtos de qualidade educativa devem propor desafios adequados à idade e permitir múltiplas formas de uso, incentivando autonomia e raciocínio.

Brinquedos educativos aumentam desenvolvimento cognitivo
Crédito: Amantes da Educação

“Os pais podem identificar brinquedos e atividades observando se essas atividades vão despertar a curiosidade, a autonomia e o raciocínio da criança ao invés de serem brinquedos com estímulos somente visuais ou sonoros”, explica. “O mais importante é que esse brinquedo convide a criança a pensar, a construir, a explorar, e não apenas pelo fato de ser atrativo pela sua tecnologia. Brinquedos feitos com material reciclado trazem múltiplas possibilidades e ajudam no desenvolvimento, não apenas no entretenimento”.

Mesmo diante da tecnologia, as brincadeiras tradicionais continuam exercendo papel essencial na formação infantil. A psicopedagoga ressalta que jogos como pular corda, dominó e amarelinha desenvolvem criatividade, resolução de conflitos e habilidades motoras, além de fortalecerem vínculos sociais e culturais. Essas práticas estimulam cooperação e imaginação de forma livre e espontânea, em contraste com os formatos rígidos dos jogos digitais.

“As brincadeiras tradicionais desenvolvem, além da criatividade, a autonomia e a resolução de problemas, porque ali a criança está envolvida com outras crianças e aprende a gerenciar conflitos”, observa. “Ao brincar de forma livre e espontânea, a criança experimenta regras, cooperação, imaginação, tomada de decisões, inclusive elas reformulam e recriam as regras da brincadeira, diferente da tecnologia, que existe ali um formato um pouco mais engessado”, pontua Fernanda Menezes.

Para Fernanda, experiências compartilhadas, como oficinas, passeios culturais e jogos em família, têm impacto direto na aprendizagem e nas relações afetivas. Elas ampliam o repertório cultural e emocional das crianças, fortalecem os laços familiares e promovem o desenvolvimento da autoestima e da curiosidade. O convívio em grupo, segundo ela, também ensina respeito, colaboração e empatia.

“Essas experiências ampliam o repertório cultural e emocional e fortalecem o vínculo familiar, porque permitem que pais e responsáveis conheçam seus filhos sob novas perspectivas”, explica. “Quando a criança vivencia situações em grupo, aprende a conviver, respeitar diferenças e colaborar. Esse vínculo afetivo é fundamental para o desenvolvimento da autoestima e da curiosidade, além de fortalecer as relações familiares”.

Ao orientar os pais sobre presentes mais conscientes, Fernanda enfatiza que o mais importante é priorizar brinquedos que estimulem imaginação, criatividade e pensamento crítico. Para ela, o presente ideal é aquele que gera momentos de interação e aprendizado, e não o que busca compensar ausências ou reproduzir padrões de consumo. O foco deve estar no desenvolvimento integral da criança e na construção de vínculos significativos.

“Como mãe e avó, eu sempre busco oferecer brinquedos que gerem curiosidade e promovam momentos de interação, descoberta e afetividade”, afirma. “O presente ideal é aquele que desenvolve a criança na sua totalidade, estimulando raciocínio, criatividade e relação com o outro. Que ela entenda o valor do brinquedo não pelo preço, mas pelo aprendizado e pelas experiências que ele proporciona”.

Como criar crianças mais seguras e empáticas

A psicóloga infantil e orientadora parental Maria Luisa Matta explica que a exposição constante a anúncios pode influenciar os desejos e comportamentos das crianças, mas o impacto depende muito da forma como os adultos mediam essas experiências. Segundo ela, o diálogo familiar é essencial para desenvolver senso crítico e evitar que o consumo se torne sinônimo de afeto ou status. Mais do que proibir o acesso à publicidade, é preciso ensinar as crianças a pensar sobre o que consomem.

“A exposição intensa a anúncios pode, sim, influenciar os desejos e comportamentos das crianças, mas o impacto vai depender muito da forma como os adultos ao redor mediam essas experiências”, afirma em entrevista ao Portal M!. “O risco do consumo exagerado está mais na falta de diálogo e na ideia de que ‘ter’ é mais importante do que ‘ser’. Por isso, é importante que pais e cuidadores ajudem a criança a compreender seus desejos, lidar com frustrações e valorizar também o afeto, o vínculo e o brincar simbólico. Mais do que evitar anúncios, o essencial é ensinar a pensar sobre eles”, diz Maria Luisa.

Para a especialista, o Dia das Crianças pode ir além do presente material e se tornar uma oportunidade de ensinar valores como empatia, responsabilidade e cuidado com o planeta. Ações simples, como escolher juntos um brinquedo para doar ou visitar um espaço de educação ambiental, ajudam a transformar o consumo em aprendizado. Esses gestos, segundo Maria Luisa, fortalecem vínculos e estimulam o prazer de fazer o bem.

“Ações simples como escolher juntos um brinquedo para doar, participar de uma oficina sustentável ou visitar um espaço de educação ambiental ajudam a criança a perceber que fazer o bem também é prazeroso. Quando os pais envolvem os filhos em conversas sobre escolhas conscientes, estão plantando sementes de empatia, responsabilidade e cidadania desde cedo”.

Ao refletir sobre a troca de presentes por experiências, Maria Luisa defende que o equilíbrio é o ponto central. Brinquedos continuam sendo importantes para o desenvolvimento, mas experiências afetivas — como viagens, passeios e atividades educativas — ampliam o repertório emocional e fortalecem laços familiares. O significado do presente, mais do que o objeto em si, deve estar conectado aos valores da família.

“A questão não é excluir os presentes materiais, e sim encontrar um equilíbrio. Brinquedos são importantes e fazem parte do desenvolvimento, eles promovem criatividade, socialização e aprendizado”, ressalta. “Mas quando equilibramos isso com experiências afetivas, ampliamos o repertório emocional da criança. Essas vivências fortalecem vínculos, criam memórias afetivas e ensinam que o amor e a atenção não estão apenas no que se dá, mas no tempo compartilhado”.

A psicóloga destaca ainda que o consumo consciente pode ser um ponto de união entre pais e filhos. Ao incluir as crianças nas pequenas decisões de compra e conversar sobre o valor das coisas, os adultos ajudam a construir uma relação mais equilibrada com o dinheiro e os desejos. O objetivo, segundo ela, não é restringir, mas ensinar a refletir antes de consumir.

“Consumir faz parte da vida, e ensinar sobre consumo consciente desde a infância é uma forma de preparar a criança para lidar melhor com escolhas, desejos e limites”, afirma. “Ao envolver os filhos em pequenas decisões de compra, os pais fortalecem a relação e mostram que o dinheiro e os desejos podem ser vividos com responsabilidade, sem culpa nem excesso. O consumo consciente não é sobre dizer ‘não’ a tudo, e sim sobre ensinar a pensar antes de dizer ‘sim’”.

Maria Luisa reforça que as emoções têm papel central na formação de crianças mais seguras e empáticas. Valorizar o universo emocional, acolher frustrações e incentivar a expressão de sentimentos contribuem para o desenvolvimento de adultos mais conscientes do próprio papel no mundo. A educação emocional, segundo ela, é a base de uma sociedade mais saudável e responsável.

“As emoções são a base de tudo. Uma criança que aprende a reconhecer o que sente, que é acolhida em suas frustrações e incentivada a expressar-se de forma respeitosa, tende a se tornar um adulto mais empático, resiliente e consciente do seu papel no mundo. […] Crianças seguras de si se tornam adultos mais preparados para lidar com diferenças, cuidar do outro e fazer escolhas mais conscientes, inclusive no consumo”.

Matheus Calmon

Matheus Calmon

Matheus é jornalista, pós-graduado em jornalismo digital e especialista em contar histórias que informam e conectam, com paixão por investigar, escrever e dar voz a questões que importam.

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