Mobilidade em Salvador: avanços, limites e a conta que vai definir 2026

Entre investimentos municipais e estaduais, capital fecha 2025 com entregas importantes, mas gargalos no transporte coletivo


Rayllanna Lima
Rayllanna Lima 29/12/2025 14:11 • Cidades
Mobilidade em Salvador: avanços, limites e a conta que vai definir 2026 - Jefferson Peixoto/Secom PMS
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Entre a consolidação do sistema BRT, a chegada de ônibus elétricos s e o retorno simbólico dos trilhos ao Subúrbio Ferroviário, Salvador encerra 2025 vivendo um cenário de “meio do caminho”. Foi o ano em que investimentos do município e do Estado passaram a convergir para uma nova etapa da mobilidade urbana, mas que ainda mantém o sistema de ônibus convencional no epicentro de um debate econômico e social cada vez mais sensível.

Avanços e gargalos na mobilidade da capital baiana

Na reta final do ano, a capital voltou a ouvir o som dos trilhos no Subúrbio com a primeira viagem-teste do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), no trecho entre Calçada e Lobato. O gesto, conduzido pelo Governo da Bahia, ajuda a sintetizar o período vivido pela cidade: avanços convivendo com a necessidade de tornar o sistema financeiramente sustentável e funcional para quem depende do transporte público diariamente. O novo sistema de mobilidade substituirá o antigo trem do Subúrbio Ferroviário, desativado pelo governo estadual desde 2021. No entanto, a nova previsão dada pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) é que o primeiro trecho seja ativado somente no segundo semestre de 2026. 

Do lado do Município, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) manteve ao longo de 2025 um diagnóstico que serve como fio condutor da política local: “o nosso grande desafio é o transporte público”. A frase ajuda a explicar por que o ano foi marcado mais por reorganização, planejamento e ajustes estruturais do que por grandes inaugurações, e por que 2026 tende a ser o período de cobrança por resultados mais perceptíveis, como menos espera e mais conforto real.

Transporte público no centro das decisões

Ao longo do ano, a gestão municipal tornou mais explícitos os limites financeiros do sistema. Segundo o prefeito, a redução no número de passageiros após a pandemia, somada ao aumento expressivo dos custos de operação (combustível, pneus, peças e aquisição de veículos), pressionou a viabilidade do modelo atual. “De forma tal que a equação hoje não fecha”, afirmou em entrevistas concedidas ao longo de 2025.

Esse diagnóstico ganhou dimensão nacional quando o debate sobre tarifa zero entrou na agenda pública. Ao descartar a adoção da medida em Salvador sem apoio federal, Bruno Reis foi enfático em dizer que o custo anual do sistema de transporte da capital chega a R$ 1,033 bilhão.

“Em relação à tarifa zero, ela só é possível se alguém pagar a conta. Nós, municípios, não temos condições”, lamentou.

Segundo ele, apenas uma fração do orçamento municipal fica disponível para investimentos após o custeio de áreas essenciais como saúde, educação e assistência social.

Subsídio aprovado e fôlego de curto prazo

Esse cenário levou a Prefeitura a recorrer, mais uma vez, ao mecanismo do subsídio público. Em 2025, a Câmara Municipal de Salvador (CMS) aprovou um aporte de R$ 67 milhões ao sistema de transporte coletivo, sendo R$ 63 milhões destinados às concessionárias de ônibus e R$ 4 milhões ao Subsistema de Transporte Especial Complementar (STEC). O objetivo foi evitar um novo reajuste da tarifa, cujo valor atual é de R$ 5,60.

A medida ajudou a dar fôlego ao sistema no curto prazo, mas reforçou o debate sobre a sustentabilidade do modelo. Sem o subsídio, segundo cálculos apresentados pela gestão municipal, a passagem poderia ultrapassar a casa dos R$ 6,00, tornando Salvador uma das capitais com o transporte mais caro do país.

O aporte, portanto, funcionou como contenção emergencial, não como solução estrutural. Confira os reajustes da tarifa ao longo dos anos:

AnoValor da tarifa de ônibus em Salvador
2017R$ 3,60
2018R$ 3,70
2019R$ 4,00
2020R$ 4,20
2021R$ 4,40
2022R$ 4,90
2023R$ 5,20
2025R$ 5,60

Planejamento 2025–2028: quando a mobilidade vira estratégia

Os próximos anos da Prefeitura estão estruturados no Planejamento Estratégico 2025–2028. Entre as principais diretrizes na parte do plano coordenada pela Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) estão a expansão e modernização do BRT, o programa Circula Salvador, a atualização do Plano de Mobilidade Urbana, investimentos em abrigos, painéis de informação em tempo real e renovação da frota.

A meta declarada é alcançar, até 2028, 100% da frota climatizada, além de ampliar a integração entre os diferentes modais. Para o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, o novo ciclo reafirma o compromisso da gestão com previsibilidade e inclusão.

“Estamos avançando em uma agenda que combina inovação, eficiência e inclusão. O Teleférico Mané Dendê e a expansão do BRT são exemplos de projetos que transformarão a forma de se deslocar em Salvador, integrando modais e reduzindo desigualdades territoriais”, afirmou.

Ônibus elétricos e agenda da sustentabilidade

Um dos marcos do ano foi o teste de uma linha experimental com ônibus 100% elétrico, ligando a Praça da Sé ao Largo do Campo Grande. A iniciativa funcionou como laboratório tecnológico e dialogou diretamente com o processo de requalificação do Centro Histórico e com o fortalecimento do turismo urbano.

“Estamos testando novas tecnologias que tornam o transporte mais limpo, silencioso e confortável. Essa experiência vai nos ajudar a planejar o futuro da mobilidade em Salvador, de forma cada vez mais integrada e menos poluente”, destacou Pablo Souza.

No campo ambiental, a cidade também levou essa agenda a fóruns nacionais e internacionais, apresentando iniciativas de eletrificação da frota e investimentos em infraestrutura para veículos menos poluentes.

STEC ganha protagonismo com pesquisa inédita

Outro movimento significativo de 2025 foi a atenção dedicada ao Subsistema de Transporte Especial Complementar (STEC), conhecido como “amarelinhos”. Pela primeira vez, a Semob realizou uma Pesquisa de Satisfação com permissionários e usuários, com o objetivo de mapear gargalos e orientar decisões futuras.

A iniciativa veio acompanhada de um anúncio concreto: a aquisição de 180 novos ônibus, o que permitirá a renovação completa da frota do subsistema. “Essa pesquisa é uma ferramenta poderosa para ajustar o serviço às necessidades reais da população. A Semob trabalha baseada em evidências”, afirmou o secretário Pablo Souza.

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Frota dos conhecidos ‘amarelinhos’ foi renovada em 2025
Crédito: Ascom Semob

Estado entra com VLT, mas entrega segue no horizonte

Se no âmbito municipal 2025 foi marcado por reorganização do sistema e entregas graduais, no plano estadual o ano foi de avanços institucionais, mas sem conclusão de obras estruturantes na mobilidade. O principal símbolo desse processo foi a realização da primeira viagem-teste do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) no trecho entre Calçada e Lobato, 4 anos após a desativação do antigo trem do Subúrbio Ferroviário. O teste, no entanto, teve caráter técnico e não representou a retomada efetiva do transporte sobre trilhos na região.

A previsão oficial do Governo da Bahia é de que o primeiro trecho do VLT entre em operação apenas no segundo semestre de 2026, o que mantém a população do Subúrbio, em 2025, ainda dependente do sistema rodoviário. Ao comentar o projeto, o governador Jerônimo Rodrigues destacou o impacto social da obra.

“O VLT representa dignidade no deslocamento, redução de desigualdades e a integração de comunidades historicamente excluídas das grandes intervenções urbanas”, afirmou, ao reforçar o compromisso com a implantação do sistema.

Ao lado dele, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT), reforçou a dimensão do investimento ao destacar que a soma do VLT com o Metrô de Salvador colocará a Bahia com cerca de 80 quilômetros de transporte sobre trilhos, ficando atrás apenas de São Paulo no cenário nacional.

2026 como ano de teste

Apesar dos avanços, 2025 deixou claro que a mobilidade de Salvador seguirá no centro do debate político e orçamentário em 2026. A discussão sobre subsídios expôs os limites financeiros do Município e a necessidade de ampliar o debate sobre fontes de financiamento mais estáveis e compartilhadas.

Além da conta, o próximo ano será decisivo para testar a integração efetiva entre os modais. Com ônibus convencionais, BRT, STEC, mobilidade ativa e a chegada do VLT, a cobrança da população tende a se concentrar em ganhos concretos no cotidiano: menos tempo de espera, menor superlotação e deslocamentos mais eficientes. A partir de 2026, o desafio será transformar planejamento e recursos em um sistema de transporte público que funcione melhor para quem depende dele todos os dias, equilibrando custo, integração e qualidade do serviço.

Rayllanna Lima

Rayllanna Lima

Rayllanna Lima é jornalista e especialista em Marketing e Growth, movida pelo desejo de transformar dados em narrativas que informam, conectam e inspiram. Autora do livro Renascer, reúne experiências em veículos de comunicação, agências e empresas dos setores de energia e pesquisa de mercado, com foco em integrar pessoas, marcas e propósito.

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