A mente mente
A mente cria histórias para sobreviver, mas só a verdade liberta para viver. Tudo o que você pensa é o certo?
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A mente mente. A frase parece simples, quase banal, mas revela o que há de mais inquietante no ser humano: a dificuldade de distinguir entre o que é verdade e o que é apenas uma invenção psíquica para suportar a vida.
Vivemos persuadidos por nossas próprias ideias, escravos de narrativas internas que justificam nossos medos, escolhas e culpas. Arthur Schopenhauer, o filósofo alemão que influenciou Freud, Nietzsche e tantos outros, dizia que o homem acredita ser livre, quando na verdade é conduzido pela “Vontade”, uma força cega e irracional, que o governa enquanto ele imagina estar no comando. Essa “Vontade” é o que Freud mais tarde chamaria de inconsciente, e o que Carl Gustav Jung ampliaria como inconsciente coletivo e sombra.
A ilusão do controle e o autoengano
O ego é um excelente contador de histórias. Ele inventa coerência onde há caos, cria lógica onde só existe desejo e oferece explicações “racionais” para o que, na verdade, é pura emoção disfarçada de pensamento.
Schopenhauer afirmava que a razão é uma instrumentista da Vontade: não cria o enredo, apenas o embeleza. Freud reforçou essa visão ao dizer que “somos habitados por forças que desconhecemos”, e que o consciente é apenas uma pequena luz cercada por vastas trevas. O autoengano nasce da tentativa desesperada de dar nome racional ao que é, no fundo, irracional.
Jean-Paul Sartre chamava esse processo de “má-fé existencial”, quando há a recusa de assumir a liberdade e a responsabilidade pelas próprias escolhas. Mentimos a nós mesmos, porque encarar a verdade seria admitir nossa covardia, culpa ou limitação.
A mente, portanto, não é mentirosa por maldade, e sim por autoproteção. Quanto mais nos protege, mais nos aprisiona dentro de versões convenientes da verdade.
Os mecanismos de defesa e a mentira interna
Freud mapeou os mecanismos de defesa do ego: repressão, projeção, racionalização, deslocamento e negação. São estratégias criadas para esconder o sofrimento no inconsciente, onde fermenta até se transformar em sintoma.
Pense na pessoa que se diz “tranquila” enquanto a voz treme, ou naquele que ridiculariza o sentimento alheio, porque não suporta reconhecer a própria fragilidade. Em ambos os casos, o inconsciente se manifesta e o ego tenta disfarçar.
Jung aprofundou essa compreensão ao introduzir o conceito de “sombra”, que é o conjunto de aspectos de nós mesmos que negamos, escondemos ou projetamos nos outros. É o ódio que dizemos ser do outro, o ciúme disfarçado de indiferença, o medo travestido de prudência. Quando não reconhecemos a sombra, a mente cria versões editadas de quem somos, e acreditamos nelas. A pessoa se convence de ser apenas “exagerado”; o narcisista acredita ser “autoconfiante”; o covarde julga-se “cauteloso”.
Carl Rogers, figura central na abordagem humanista, chamou isso de incongruência: o abismo entre o “eu real” e o “eu ideal”. Quanto maior a distância entre o que somos e o que fingimos ser, maior o sofrimento. A mente mente para preservar a imagem, mas o preço é a perda da autenticidade.
A paranoia: a mentira que tenta ser verdade
Entre todas as mentiras que a mente conta, a paranoia talvez seja a mais trágica, porque nasce de uma verdade distorcida. Ela surge quando o indivíduo, incapaz de lidar com a angústia interna, projeta o inimigo fora de si. O que era medo íntimo ganha rosto, voz e endereço, e a pessoa passa a viver cercada por ameaças imaginárias, acreditando que o mundo conspira contra ela.
Freud disse que “a paranoia não é a doença, mas a tentativa de cura”. Ou seja, o delírio aparece como a tentativa de organizar o caos das ideias. O paranoico tenta compreender o insuportável, e cria uma narrativa que explica tudo, mesmo que seja um absurdo total.
A mente, nesse caso, mente para sobreviver. Ela constrói explicações para sua realidade, e transforma o delírio em equilíbrio. É a lógica posta a serviço do medo. Jung afirmava que “aquilo que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino”. A paranoia é o retrato extremo do autoengano humano: a mente tentando se salvar de si mesma.
Como reconhecer quando a mente está mentindo
A mente mente de modo sutil, e costuma agir justamente nas zonas de conforto, onde nos sentimos “certos demais”. Para Nietzsche, “o maior inimigo da verdade são as convicções”.
A mente mente quando diz “eu sei o que estou fazendo”, enquanto o corpo dá sinais de exaustão. Mente quando afirma “está tudo bem”, enquanto a alma sofre. Mente quando transforma o medo em racionalidade, e o chama de “cautela” o que é, na verdade, pavor de viver.
Um dos indícios mais claros de que a mente está mentindo é a ausência de desconforto. A verdade, quando chega, provoca um pequeno terremoto. Desestabiliza o ego, desperta culpa, raiva ou vergonha, mas, paradoxalmente, liberta.
Qual o caminho a seguir?
O caminho da lucidez começa com uma pergunta simples e brutal: “O que, em mim, estou tentando não ver?” Responder a ela exige coragem para desmontar o teatro interno, que a mente constrói para nossa segurança. Schopenhauer dizia que “a vida é um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio”. A mente, incapaz de lidar com essa oscilação, inventa distrações: metas, status, certezas. O preço é a alienação da própria essência.
Viver conscientemente é aceitar o desconforto da verdade e compreender que a lucidez dói, enquanto a mentira corrói em silêncio.
A mente como criadora de ilusões existenciais
Schopenhauer, assim como Platão, acreditava que o mundo que percebemos é apenas representação, um teatro mental. Tudo o que chamamos de realidade é mediado pela mente; portanto, não vemos o mundo como ele é, mas como somos.
Jung retomou essa ideia ao afirmar que o mundo externo é espelho do interno. Por isso, duas pessoas podem viver o mesmo fato e interpretá-lo de modos opostos. A mente de cada uma cria sua versão da realidade, moldada por memórias, crenças e dores.
Ao mentir, a mente, cria mundos e, cada um deles, tem suas próprias regras, monstros e vítimas. A libertação começa quando percebemos que somos o autor do roteiro, não a personagem trágica que ela inventou.
A coragem de ver
Carl Rogers dizia que “ser é tornar-se o que se é”. Parece simples, porém é o oposto da alienação cotidiana. Tornar-se o que se é exige desfazer as mentiras que a mente construiu, inclusive as bonitas.
O processo terapêutico, quando verdadeiro, consiste em desmontar ilusões com paciência até restar apenas o essencial. Nesse ponto, a mente começa a perder o poder de mentir e a consciência assume o comando.
Enfim
A mentira é o mecanismo da sobrevivência, e a verdade é, para a mente, pode ser uma ameaça. O amadurecimento acontece quando deixamos de permitir que a mente seja senhora, e a colocamos novamente como serva da consciência.
A mente mente, e continuará mentindo. Contudo, o centro da consciência é onde já não há necessidade de provar nada. É desse ponto que nasce a autenticidade, e é nele que, finalmente, paramos de mentir para nós mesmos.

Crédito: Divulgação
* Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
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Sérgio Manzione
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