Analista internacional diz que decisão de Trump em taxar produtos brasileiros agrava crise diplomática: ‘Pode acabar na Suprema Corte americana’
Ao programa De Olho na Bahia, da Rádio Mix Salvador, Felippe Ramos disse que episódio resultou em um efeito político positivo imediato para o presidente Lula
Divulgação
A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto, abriu uma crise diplomática e comercial entre os dois países. O aumento, anunciado em carta enviada ao presidente Lula e publicada na rede Truth Social, expõe não apenas um movimento protecionista, mas também uma interferência direta da política externa americana na política interna brasileira. O impacto econômico imediato já preocupa empresários, produtores e o governo federal.
Durante entrevista ao programa De Olho na Bahia, da Rádio Mix Salvador (104.3 FM), nesta segunda-feira (21), o analista político internacional, PhD em Sociologia pela New School for Social Research de Nova York e ex-professor da Unifacs, Felippe Ramos, afirmou que a relação bilateral vive seu pior momento em décadas.
“Mesmo em períodos de tensão na relação Brasil-Estados Unidos, nós não tivemos enfrentamentos tão fortes como esses. Estamos no momento mais baixo em muito tempo”, disse.
Justificativa política e risco institucional
Na carta enviada a Lula, Trump ataca diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e critica o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele afirma que “a maneira como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro […] é uma desgraça internacional”. Para Felippe Ramos, trata-se de uma ruptura institucional sem precedentes, já que os Estados Unidos passaram a usar uma justificativa política — e não econômica — para aplicar sanções tarifárias.
Segundo o especialista, a medida pode até ser questionada judicialmente nos Estados Unidos. A legislação americana que regula a imposição de tarifas exige que haja motivação econômica, como defesa da indústria nacional.
“Essa tarifa dos Estados Unidos sobre o Brasil pode inclusive acabar na Suprema Corte americana para decidir sobre sua legalidade”.
Lobby bolsonarista em Washington
Ramos aponta que parte da responsabilidade pela crise vem de articulações feitas por aliados de Bolsonaro em Washington. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, esteve nos Estados Unidos antes do anúncio da tarifa. O analista afirma que não se pode ignorar o peso desse lobby.
“Há um potencial, uma vontade muito grande por esse setor político de articular, de fazer lobby, e isso não é uma grande descoberta”.
O cenário também se tornou politicamente delicado para o próprio campo bolsonarista. Ramos observa que o estado mais afetado pela tarifa será São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, aliado de Bolsonaro. Setores estratégicos como o da Embraer, que exporta diretamente para os Estados Unidos, e cadeias agrícolas como as de suco de laranja e café sentirão os efeitos com mais força.
Efeitos na economia e no cenário político
Os impactos da tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros já começaram a ser sentidos antes mesmo de sua entrada em vigor. Produtores e empresários enfrentam o cancelamento de contratos e a paralisação de cargas nos portos. O dólar já apresentou oscilação, e setores industriais e agrícolas se preparam para aumento de custos e redução na demanda internacional.
Na avaliação de Felippe, o episódio resultou em um efeito político positivo imediato para o presidente Lula.
“Foi um grande presente de grego econômico, mas um grande presente político. Os setores bolsonaristas calcularam errado as consequências dessa ação”, avaliou.
No entanto, ele pondera que esse ganho pode ser temporário: caso a tarifa se mantenha e seus efeitos se aprofundem, a pressão política pode voltar contra o próprio governo.
Negociação e resposta brasileira
Ramos destaca que a carta publicada por Trump impõe condições inegociáveis e parte de uma premissa falsa: a existência de superávit brasileiro na balança comercial com os EUA.
“É o contrário. Os Estados Unidos vendem mais para o Brasil do que compram do Brasil”, afirmou. Ele ressalta que o documento norte-americano desconsidera a separação de poderes no Brasil e exige interferência no Judiciário, o que inviabiliza qualquer diálogo a partir desses termos.
O especialista considera que a resposta brasileira foi correta ao unificar setores produtivos, lideranças políticas e veículos de comunicação, mesmo conservadores, em torno da defesa da soberania nacional. No entanto, cobra uma atuação mais assertiva em Washington.
“É preciso que o governo brasileiro tenha o WhatsApp do Trump e não um deputado federal”, criticou. Ele defende o envio de representantes de alto escalão, como Geraldo Alckmin ou Simone Tebet, para interlocução direta com a equipe do presidente norte-americano.
Impacto direto nos produtos brasileiros e no emprego
A nova tarifa deve atingir principalmente produtos industrializados e de alto valor agregado, como aeronaves, componentes eletrônicos e maquinário agrícola. Também haverá impacto na importação de insumos fundamentais para a indústria brasileira. Ramos alerta para um efeito em cadeia sobre o emprego e a renda.
“Estamos falando de exportações de alto valor agregado. O setor industrial paulista pode ser profundamente afetado”.
Ele lembra ainda que o Brasil importa diversos itens dos Estados Unidos, como equipamentos usados na agricultura e componentes eletrônicos. “Um simples parafuso importado pode afetar a produção de uma máquina no interior do país”.
Perspectivas e próximos passos
Embora os Estados Unidos ainda sejam o segundo maior parceiro comercial do Brasil, o país hoje depende menos da economia americana do que em décadas anteriores. A ascensão da China como principal destino das exportações brasileiras oferece algum grau de equilíbrio, mas o prejuízo com a nova tarifa pode ser significativo se mantido a longo prazo.
Ramos acredita que o Brasil deve continuar pressionando diplomaticamente por uma solução negociada, mas sem abrir mão da soberania nacional. Ele vê pouco espaço para ações efetivas da Organização Mundial do Comércio, que perdeu relevância nos últimos anos, e aposta em articulações políticas bilaterais.
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