PF aprofunda investigação e quebra sigilo de mais de 100 investigados no caso Banco Master
Decisão do Supremo autoriza acesso a dados bancários e fiscais, amplia alcance da Operação Compliance Zero e prevê bloqueio bilionário de bens
Rovena Rosa/Agência Brasil
A Polícia Federal (PF) avançou de forma significativa nas investigações que apuram supostas irregularidades envolvendo o Banco Master. Por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram quebrados os sigilos bancário e fiscal de 101 pessoas físicas e jurídicas investigadas no caso. A autorização foi concedida no dia 6 de janeiro e teve o sigilo judicial levantado nesta sexta-feira (16), permitindo a divulgação dos detalhes da medida.
A solicitação partiu da própria Polícia Federal (PF), com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), e abrange as movimentações financeiras realizadas entre 20 e 21 de outubro de 2025. O período, segundo os investigadores, é considerado estratégico para compreender a dinâmica das operações sob suspeita e identificar possíveis fluxos atípicos de recursos.
Indícios de crimes financeiros e manipulação de mercado
De acordo com a decisão assinada por Dias Toffoli, as apurações apontam indícios da prática de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento de investidores em erro, uso de informação privilegiada, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
“Também verifico que, na linha do que consignado pelo Procurador-Geral da República e pela Polícia Federal, que há elementos suficientes que apontam para o ‘aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização, notadamente mediante o uso de fundos de investimento e intrincada rede de entidades conectadas entre si por vínculos societários, familiares ou funcionais.’”, argumentou o ministro.
Segundo o relator, os indícios indicam a existência de uma rede complexa de pessoas e empresas, estruturada para potencializar ganhos financeiros e, ao mesmo tempo, dificultar a atuação dos órgãos reguladores e de fiscalização.
Caso chega ao STF e amplia escopo da Operação Compliance Zero
Na mesma decisão, Dias Toffoli afirmou que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, acertou ao solicitar a remessa do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF). Conforme o ministro, as investigações superam o escopo inicial da Operação Compliance Zero, que tramitava na 8ª Vara Federal Criminal de São Paulo, e apresentam desdobramentos mais amplos e sensíveis.
Para o magistrado, a centralização do processo no STF assegura maior segurança jurídica, evita decisões conflitantes e permite uma análise mais abrangente dos impactos das supostas irregularidades no sistema financeiro nacional.
Bloqueio de bens pode alcançar R$ 5,77 bilhões
Além da quebra de sigilos, o ministro determinou o sequestro e o bloqueio de bens de 38 investigados, em valores que podem chegar a R$ 5,77 bilhões. As medidas foram cumpridas no âmbito da segunda fase da Operação Compliance Zero e têm como objetivo garantir eventual ressarcimento ao erário e impedir a dissipação de patrimônio.
Entre os alvos estão Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e seu cunhado, o pastor e empresário Fabiano Zettel, apontados como figuras centrais nas operações financeiras investigadas pela Polícia Federal (PF).
Fundos de investimento e ligação com resort no Paraná
Como revelou o jornal O Estadão, Fabiano Zettel é proprietário de fundos de investimento ligados à Reag Investimentos, responsáveis por adquirir parte da participação dos irmãos do ministro Dias Toffoli no resort Tayayá, localizado no interior do Paraná. À época, a participação estava avaliada em R$ 6,6 milhões.
Documentos analisados mostram que um fundo de investimento denominado Leal teve Zettel como único cotista entre 2021 e 2025. Por meio desse e de outro fundo, o pastor tornou-se sócio do empreendimento, com aportes que somam cerca de R$ 20 milhões. Os familiares do ministro figuravam como principais acionistas do resort.
Manifestações das partes citadas
Procurados, o ministro Dias Toffoli, seus irmãos José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, a administração do resort Tayayá e a Reag Investimentos não se manifestaram. O ministro não possui participação direta no empreendimento, mas frequenta o local.
Ao Estadão, Fabiano Zettel confirmou que foi cotista do fundo, afirmou ter deixado o investimento em 2022 e informou que o fundo foi liquidado em 2025. Já a defesa de Daniel Vorcaro declarou não ter “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos”.
O primo do ministro, Mario Umberto Degani, apontado como controlador das empresas que receberam os aportes financeiros, não foi localizado até o momento.
Próximos passos da investigação
Com a quebra dos sigilos bancário e fiscal, a expectativa da Polícia Federal (PF) é aprofundar a análise das movimentações financeiras, identificar beneficiários finais e mapear conexões ainda não reveladas. O material coletado deve embasar novas diligências e pode resultar em novas fases da operação, além do oferecimento de denúncias formais.
A investigação segue sob relatoria de Dias Toffoli no Supremo Tribunal Federal (STF) e permanece como um dos casos mais sensíveis em curso envolvendo o sistema financeiro nacional.
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