Governo Lula evita comentar Nobel da Paz a María Corina
Integrantes do governo avaliam que eventual pronunciamento a favor da poderia gerar atrito com Nicolás Maduro
Antônio Cruz/ Agência Brasil
O governo Luiz Inácio Lula da Silva manteve silêncio, na sexta-feira (10), após o anúncio do Prêmio Nobel da Paz concedido à líder da oposição venezuelana María Corina Machado, que vive na clandestinidade sob ameaças do regime de Nicolás Maduro. Embora tenha participado de eventos públicos durante o dia, o presidente não fez qualquer menção ao tema, e o Palácio do Planalto e o Itamaraty evitaram confirmar se haverá um posicionamento oficial.
Em gestões anteriores, o Brasil já se pronunciou sobre ganhadores do Nobel da Paz em ao menos quatro ocasiões — em 2015, 2016, 2017 e 2024. Ainda assim, a ausência de uma prática diplomática constante permite margem para interpretações políticas sobre o silêncio do governo neste caso, sobretudo diante do histórico de proximidade entre Lula e Maduro.
Celso Amorim diz que Nobel virou prêmio político
O assessor especial da Presidência da República, embaixador Celso Amorim, afirmou ao Estadão que o prêmio à opositora venezuelana tem um caráter “totalmente político” e que a principal preocupação do governo brasileiro é o impacto da premiação sobre o cenário de tensão no país vizinho.
“Não questiono o prêmio Nobel em relação às qualidades pessoais e morais dela. Para o Brasil, interessa o impacto que isso possa eventualmente ter na questão da pacificação e da reconciliação na Venezuela”, disse Amorim. Segundo ele, há temor de que o prêmio seja usado para justificar ações externas contra o regime chavista.
“Tem gente especulando o mais negativo, que isso aí é preparação para um ataque. Será péssimo se for isso.”
O diplomata também afirmou que o reconhecimento a María Corina Machado reflete uma visão “muito europeia” da crise venezuelana, distante da realidade local. Ele destacou, contudo, que a premiação poderia servir como incentivo ao diálogo político no país.
Governo teme reação de Maduro e ruídos diplomáticos
De acordo com fontes ouvidas pelo Estadão, integrantes do governo e do Itamaraty avaliam que um eventual pronunciamento em favor da opositora poderia gerar novo atrito com o governo de Nicolás Maduro. Desde 2023, Lula tenta reaproximar-se do regime chavista, e o Brasil tem desempenhado papel ativo na tentativa de reabilitar a Venezuela no cenário internacional.
O próprio Lula e Maduro não voltaram a se falar desde julho de 2024, após a recusa do presidente brasileiro em reconhecer a reeleição do líder venezuelano, marcada por denúncias de fraude e ausência de provas. Apesar do impasse, os dois países mantêm interlocução diplomática e reuniões entre chanceleres.
Um diplomata ouvido reservadamente afirmou que a escolha de María Corina Machado para o Nobel desagradou “a todos os lados”, inclusive à Casa Branca, e reacendeu o debate sobre a politização do prêmio. Outro destacou que a opositora “tem adotado discurso próximo ao dos Estados Unidos e defendido medidas de pressão que não ajudam na estabilidade da região”.
Amorim cita crítica de ex-integrante do governo Trump
Celso Amorim também comentou declarações de ex-integrantes da gestão de Donald Trump, que reagiram ao prêmio nas redes sociais. O diplomata disse concordar com a avaliação de que o Nobel da Paz tem priorizado critérios políticos em detrimento de resultados concretos de pacificação.
Entre os críticos, o ex-diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, afirmou que o Comitê Nobel “coloca a política acima da paz” e exaltou Trump por “fazer acordos de paz e salvar vidas”. Já Richard Grenell, enviado especial a Missões Especiais durante o governo republicano, declarou que “o Prêmio Nobel morreu há anos”.
Prêmio Nobel da Paz reacende debate sobre política externa brasileira
O silêncio do governo Lula e as declarações de Celso Amorim mostram a cautela do Brasil diante de um tema que toca diretamente sua política externa. Ao evitar comentar a homenagem a María Corina Machado, o Planalto busca equilibrar a pressão internacional por uma postura mais firme em relação à Venezuela e o desejo de manter o diálogo com o regime chavista.
Nos bastidores, diplomatas admitem que a escolha da líder opositora para o Nobel da Paz representa um novo desafio à política de “não intervenção” defendida por Lula. Enquanto o governo brasileiro tenta se distanciar das disputas geopolíticas, o prêmio a Corina reacende o debate sobre o papel do Brasil nas crises democráticas da América Latina.
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