Setembro Amarelo: quem você pode salvar hoje?

Uma vida se perde a cada 40 segundos no mundo. Falar de suicídio não mata, o silêncio sim


Sergio Manzione
Sergio Manzione 06/09/2025 08:50 • Artigos e afins
Setembro Amarelo: quem você pode salvar hoje? - Imagem gerada por IA
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O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio, e tem origem em uma história real. Em 1994, nos Estados Unidos, o jovem Mike Emme, de 17 anos, tirou a própria vida no dia 10 de setembro. Mike era apaixonado por carros e tinha um Mustang amarelo, que ele restaurou sozinho. No velório, amigos e familiares distribuíram fitas amarelas com a frase: “Se precisar, peça ajuda”.

O gesto se espalhou e se tornou movimento mundial. Em 2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) oficializou o 10 de setembro como o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. No Brasil, a campanha foi adotada em 2015. O amarelo não foi escolhido por acaso: foi a cor do carro de Mike, e se transformou em símbolo de luz, esperança e vida.

A dimensão da tragédia

Segundo a OMS, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo (uma vida a cada 40 segundos!). No Brasil, são cerca de 14 mil por ano, o que significa, em média, uma morte a cada 45 minutos. Traduzindo: mais de 30 brasileiros todos os dias.

Enquanto você lê este artigo, pelo menos duas pessoas já terão perdido a vida. O dado mais cruel é este: segundo a OMS, 90% dessas mortes poderiam ser evitadas com acolhimento, tratamento e informação adequados.

Quando a notícia pode matar

Em 1774, o escritor alemão Johann von Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. No romance, Werther se mata após uma desilusão amorosa. O impacto da obra foi devastador, e jovens passaram a imitar o personagem. O fenômeno ficou conhecido como Efeito Werther ou efeito cascata.

Esse exemplo histórico mostra que a forma como falamos de suicídio importa. Manchetes sensacionalistas, romantização ou detalhamento de métodos não ajudam, mas multiplicam o risco. Por isso, repito sempre: suicídio não é notícia, mas é um tema e deve ser discutido com franqueza.

O que leva alguém a desistir?

Não existe uma causa única. O suicídio é sempre multifatorial, resultado da sobreposição de dores que a pessoa não encontra como compartilhar ou aliviar.

• Biológicos: depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, dependência química.
• Sociais: pobreza, desemprego, exclusão, isolamento.
• Culturais: estigmas, tabus, frases moralistas que aumentam a culpa.
• Existenciais: como disse Viktor Frankl, quando a vida perde o “porquê”, o “como” se torna insuportável.

Mas há fatores contemporâneos que ampliam o risco:

Bullying: humilhações repetidas que corroem a autoestima, levando jovens a se sentir sem valor.
Cyberbullying: ataques virtuais, memes ofensivos e perseguições em redes sociais que ampliam a vergonha e a sensação de não ter saída.
Assédio moral em empresas: cobranças abusivas, metas inatingíveis, humilhações públicas e clima de terror psicológico transformam o trabalho em gatilho para o adoecimento.
Profissões estressantes: médicos, policiais, caminhoneiros, professores são carreiras que lidam com dor, risco ou sobrecarga emocional, e apresentam índices mais altos de suicídio.
Violência doméstica e abusos: agressões físicas, psicológicas ou sexuais aumentam a desesperança.
Doenças crônicas e incapacitantes: a dor física somada à falta de apoio pode levar à ideia de desistência.
Envelhecimento em solidão: idosos invisibilizados pela família e pela sociedade são mais vulneráveis.

O sociólogo Émile Durkheim mostrou, em 1897, que o suicídio reflete também a fragilidade dos vínculos sociais. Zygmunt Bauman, ao falar da modernidade líquida, reforçou que vivemos relações frágeis e descartáveis. Carl Rogers lembrava que a transformação começa quando alguém se sente ouvido de verdade.

No fim, o que empurra uma pessoa para a beira do abismo não é só a dor, mas a solidão de não encontrar espaço seguro para compartilhá-la.

Sintomas, sinais e frases de alerta

É raro alguém anunciar claramente que vai se matar. A maioria fala de forma indireta, em sinais sutis. Estar atento é fundamental. Outro mito descabido é que “a pessoa quando quer se matar vai lá e faz, e não avisa ninguém”. Avisar, ela avisa, mas nem sempre as pessoas estão preparadas para entender os sinais.

Sinais emocionais e comportamentais

Os sinais listados, a seguir, não determinam necessariamente que a pessoa cometerá o suicídio, mas indicam que algo não vai bem. Na existência de qualquer um deles é preciso procurar ajuda profissional, até porque, eles também podem ser sintomas de outros transtornos e doença mentais.

• Tristeza profunda e persistente.
• Perda de interesse em atividades antes prazerosas.
• Alterações no sono e no apetite.
• Isolamento social e afastamento da família.
• Descuido com higiene pessoal.
• Irritabilidade ou apatia excessiva.
• Distribuição de bens pessoais.
• Despedidas veladas.

Frases comuns

• “Não aguento mais viver assim.”
• “Minha vida não tem sentido.”
• “Eu sou um peso para todo mundo.”
• “As coisas seriam melhores sem mim.”
• “Queria dormir e não acordar mais.”
• “Logo vocês não vão mais se preocupar comigo.”

Essas falas, e outras com o mesmo sentido, não são dramas. São pedidos de socorro.

O que não ajuda

• Dizer que é “frescura” ou “falta de fé”.
• Afirmar que a pessoa “só quer chamar a atenção” ou “se fazer de vítima”.
• Usar frases prontas: “vai passar”, “pense positivo”.
• Fingir que não ouviu ou mudar de assunto.

Essas atitudes reforçam o isolamento e aumentam o risco. Caso você não saiba o que fazer, procure ajuda e informações. A omissão pode resultar em morte.

O que ajuda de verdade

• Escutar com atenção, sem pressa de responder.
• Validar a dor: “Eu vejo o que você sente, e você não está sozinho”.
• Perguntar diretamente: “Você está pensando em acabar com a sua vida?”.
• Acompanhar até uma consulta psicológica ou psiquiátrica. Dizer: “Vou com você”.
• Colocar-se à disposição: telefonar, mandar mensagem, oferecer companhia.
• Reduzir riscos: retirar de casa objetos letais quando há perigo.
• Buscar ajuda imediata: no Brasil, o CVV – 188 funciona 24 horas; em emergências, SAMU (192) ou pronto-socorro.

Carl Rogers já dizia que a escuta empática é transformadora. Muitas vezes, esse é o primeiro passo para devolver esperança.

A vida pede voz

O suicídio não é um problema de uma única pessoa, mas é responsabilidade de famílias, escolas, empresas, governos e sociedade. Cada vez que tratamos o assunto como tabu, reforçamos o muro do silêncio. Cada vez que escutamos e acolhemos, abrimos uma ponte para a vida. O assunto deve ser discutido em todos os ambientes sem medo de que isso possa incentivar outros suicídio, isso é outro mito. O principal é todos sabermos que nem sempre damos conta de tudo sozinhos e que pedir ajuda não é uma ato de covardia, mas de coragem.

Setembro Amarelo não é campanha de marketing. É um chamado. É lembrar que, a cada 40 segundos no mundo e a cada 45 minutos no Brasil, alguém desiste. E que nove em cada dez poderiam estar vivos se houvesse escuta e apoio. Silêncio mata. Escuta salva.

Precisa de ajuda? Ligue para o CVV no 188. Veja o site: www.cvv.org.br. Veja também o site do Setembro Amarelo: www.setembroamarelo.org.br

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Foto: Divulgação

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione

**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!

Sérgio Manzione

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