Renato Mendonça poderia ter escolhido a calmaria da aposentadoria. Aos 74 anos, depois de quase meio século mergulhado no universo da auditoria e da consultoria, era natural imaginar dias tranquilos entre livros, cafés demorados e conversas sem pressa. Mas ele preferiu outro caminho. “Não assumi a vida de aposentado”, diz com convicção. E é justamente dessa recusa em se retirar que nasce sua nova fase profissional: hoje, coordena a área de Governança, Riscos e Compliance da Santa Casa de Misericórdia da Bahia.
Sua rotina continua pautada pelo trabalho, mas agora com um sentido diferente — menos de obrigação, mais de propósito. Para Renato, estar ativo é manter-se inteiro: “quem gosta do que faz não trabalha”, costuma brincar.
Sua história, no entanto, não é apenas um caso isolado; ela revela um movimento crescente no Brasil, em que homens e mulheres da chamada terceira idade redescobrem seu espaço no mercado de trabalho, provando que experiência, energia e vontade de contribuir não têm prazo de validade.
Renato Mendonça está aposentado e seguiu no mercado de trabalho Crédito: Acervo pessoal
Ele assumiu a coordenação da unidade há quatro anos, após deixar a Auditoria. A experiência acumulada ao longo das décadas é fundamental para sua contribuição atual, e a renovação anual de seu contrato demonstra o reconhecimento do seu valor pela instituição.
“Se minha contribuição é bem colocada, não é algo empurrado, goela abaixo, mas de convencimento, ajuda à organização e às pessoas. Todos veem que essa contribuição é grande”, acrescentou.
Amadurecimento da força de trabalho
Do final de 2012 ao final de 2024, a população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 55,4%, chegando a 35,2 milhões. Esse grupo passou a representar o segundo maior na população em idade ativa, atrás apenas da faixa entre 18 e 29 anos, com 22% do total. O aumento reflete mudanças demográficas e uma maior permanência de profissionais mais velhos no mercado formal.
A escolaridade da população 60+ também melhorou. Enquanto 54% concluíram até o fundamental em 2024, em 2012 esse percentual era de 71,6%. Já aqueles com ensino superior completo que estavam trabalhando passaram de 700 mil para 1,8 milhão, e os com médio completo ou superior incompleto subiram de 700 mil para 2,1 milhões, indicando uma gradual qualificação desse grupo.
O percentual de jovens de 14 a 25 anos na força de trabalho caiu para 15,2%, enquanto a participação de profissionais acima de 60 anos atingiu 8%, o maior patamar da série histórica. A liderança etária na força de trabalho passou para a faixa de 40 a 59 anos, mostrando uma mudança significativa na composição das equipes.
Vale destacar que a Constituição Federal de 1988 proíbe discriminação por idade para efeitos de admissão ao trabalho. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) garante proteção e promove o acesso a programas de capacitação e reinserção profissional. Esses instrumentos legais reforçam a necessidade de inclusão de profissionais maduros no mercado formal, valorizando a experiência e o conhecimento acumulados.
Como manter profissionais 60+ no mercado
Segundo Maiza Neville, consultora em gestão e educação coorporativa e autora do livro Diversidade geracional: mutações, transformações e impactos dos 50 + nas organizações, o desafio é garantir que essa participação crescente ocorra em condições dignas, formais e sustentáveis.
“Mais do que uma questão econômica, a permanência no mercado de trabalho expressa hoje múltiplas motivações. Afinal, envelhecer trabalhando deve ser sinônimo de autonomia e qualidade de vida — e não apenas de necessidade”.
Maiza Neville é sócia e fundadora da Damicos Consultoria Crédito: Acervo pessoal
“Para se manterem competitivos, os trabalhadores mais velhos têm buscado estratégias de adaptação. A principal delas é o investimento em capacitação digital, ampliando as possibilidades em trabalhos remotos, consultorias online e suporte virtual”, acrescenta.
Maiza observa que, aproveitando a experiência acumulada em décadas de carreira para abrir novos negócios e ou atuar sob demanda, cresce também a aposta no empreendedorismo, consultoria, mentoria, conselheiros e curador.
“O Brasil passa por um processo acelerado de envelhecimento populacional, o que coloca no centro do debate a necessidade de políticas e iniciativas para garantir qualidade de vida e participação ativa dos idosos”.
Entre os programas federais destacados por Maiza estão PAISI, Farmácia Popular, BPC, Minha Casa Minha Vida e Pronatec. No campo legislativo, o PL 3.670/2023 propõe isenção de encargos como FGTS e INSS para empresas que contratarem aposentados, com limites proporcionais ao porte da empresa.
“Apesar do crescimento da participação de profissionais acima de 60 anos no mercado formal, o etarismo ainda é um dos maiores obstáculos para a plena inclusão dessa força de trabalho. Muitos gestores ainda questionam a capacidade de adaptação tecnológica e a produtividade de trabalhadores mais velhos. A consequência é sentida de forma concreta: 69% relatam já ter perdido oportunidades por causa da idade”, alerta.
Transição de carreira
A psicóloga e consultora Sônia Costa é um exemplo de profissional que apostou no empreendedorismo e na diversificação de sua atuação, mesmo após anos de experiência em gestão de pessoas. Formada em psicologia, ela atua tanto na área clínica quanto na organizacional, focando no desenvolvimento de liderança e na psicoterapia. Sua trajetória mostra como planejar a continuidade da carreira é essencial para uma transição bem-sucedida.
“Eu retomei a área clínica há cerca de 10 anos, porque desde quando me formei em Psicologia, sempre atuei na área de gestão de pessoas, na área de recursos humanos. Eu tive uma empresa de recursos humanos por 28 anos. Em 2018 eu fechei essa empresa, era uma limitada, eu tinha um sócio. E em 2016 resolvi abrir uma outra empresa para continuar com o trabalho apenas na área de treinamento e desenvolvimento, principalmente de liderança, e na parte de psicoterapia”, disse Sônia ao Portal M!.
Sônia Costa decidiu fechar uma empresa após 28 anos e iniciou nova trajetória Crédito: Acervo pessoal
Sônia explicou que, quando entendeu que a empresa atingiu determinado patamar, resolveu abrir uma empresa individual para seguir tanto na parte de psicoterapia quanto no desenvolvimento de liderança. “Hoje, é o que eu faço: atuo na psicologia clínica e também na psicologia organizacional, focando no desenvolvimento de liderança”, contou ela ao Portal M!.
“Dois anos antes de fechar a empresa, comecei a estruturar a continuidade da minha carreira, para que, ao fechar, não ficasse sem saber o que fazer. Foi muito bom, porque a empresa teve um nome forte. A Ativa Recursos Humanos foi uma das maiores empresas de seleção de pessoal aqui de Salvador e eu preparei muitos psicólogos da área empresarial”.
Ela já é aposentada há cerca de 10 anos, mas, assim como o Renato, optou por não parar de trabalhar.
“Eu não me vejo aposentada no sentido de parar de trabalhar. Quando fiz psicologia, achei que foi um privilégio, uma formação que me permite trabalhar enquanto minha alma conseguir. Não tem uma barreira para isso, ao contrário, parece que à medida que você vai experienciando mais a vida, mais você tem a contribuir”.
Matheus Calmon
Matheus é jornalista, pós-graduado em jornalismo digital e especialista em contar histórias que informam e conectam, com paixão por investigar, escrever e dar voz a questões que importam.