China busca liderança global em IA e revê políticas até sobre controle de natalidade
O desafio de Pequim será administrar as pressões externas geradas por sua potente máquina exportadora
Reprodução/Wikipedia
A China dará início, em 2026, à execução de seu novo plano quinquenal de desenvolvimento econômico e social, em um momento de esforços para conter a desaceleração apontada pelos indicadores mais recentes. O desafio de Pequim será administrar as pressões externas geradas por sua potente máquina exportadora sem comprometer as posições já consolidadas no comércio internacional. Ao mesmo tempo, o país busca preservar os principais pilares de sustentação do crescimento, como o fragilizado setor imobiliário e o avanço acelerado do setor tecnológico.
A estratégia chinesa tem como eixos centrais a ampliação da autonomia em áreas consideradas críticas e a redução da distância em relação à liderança dos Estados Unidos. Para impulsionar a atividade econômica, o plano inclui medidas de estímulo ao consumo doméstico e revisões em políticas sociais e demográficas — que vão desde incentivos tradicionais até ajustes tributários com o objetivo de elevar a taxa de fecundidade.
“Em 2026, começa um novo plano quinquenal, e ele é ambicioso, como de costume”, afirma Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos. Segundo ele, a essência do modelo de desenvolvimento não deve sofrer mudanças relevantes. “Na prática, a China deve seguir concentrada em indústrias exportadoras de crescente sofisticação e complexidade”, diz o ex-economista do Santander.
Na avaliação de Sobral, o país tende a ampliar sua capacidade de competir em setores hoje dominados por economias avançadas, além de acelerar inovações na interface entre academia e indústria. “Trata-se de uma versão ampliada da estratégia de desenvolvimento adotada com sucesso por outros países do leste da Ásia, mas com uma abrangência e uma escala muito maiores”, conclui.
Estratégia Chinesa
A confiança dos investidores na estratégia chinesa para impulsionar a inovação tem se refletido no desempenho dos ativos ligados à tecnologia de ponta. Nas recentes estreias em bolsa, as ações da startup chinesa de chips MetaX dispararam quase 700% em meados de dezembro. A oferta pública inicial (IPO) levantou 4,20 bilhões de yuans, o equivalente a US$ 596,4 milhões. Movimento semelhante ocorreu com a Moore Threads, empresa especializada no desenvolvimento de unidades de processamento gráfico (GPUs) para treinamento de inteligência artificial, cujo forte apetite do mercado levou a companhia a alertar seus próprios investidores para conter o entusiasmo.
O desempenho exuberante reacendeu o debate sobre até que ponto a corrida por campeãs nacionais de tecnologia pode estar inflando uma bolha. A pergunta sobre “quem será a nova Nvidia” passou a circular como provocação ao mercado, em meio à forte valorização dos papéis ligados à IA.
No âmbito macroeconômico, a execução do novo plano quinquenal deve contar com uma recuperação dos gastos fiscais já no início do próximo ano, impulsionada pelo aumento da emissão de títulos do governo central, avalia a Capital Economics. Segundo a consultoria, a medida tende a evitar um aprofundamento da desaceleração recente, embora o crescimento em 2026 deva ser ligeiramente inferior ao observado em 2025. O investimento em inteligência artificial deve registrar forte expansão, enquanto a contribuição das exportações para o crescimento econômico tende a perder força.
A economista-chefe para a China e diretora de Economia Asiática do Bank of America, Helen Qiao, revisou para cima suas projeções e passou a estimar um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês acima do consenso. A instituição agora projeta expansão de 4,7% em 2026 e de 4,5% em 2027. “Com sinais positivos vindos das negociações comerciais recentes e da implementação de estímulos, os riscos para nossa previsão estão inclinados para cima”, afirmou.
Já Igor Barenboim, economista-chefe da Reach Capital, avalia que o cenário aponta para uma desaceleração gradual, porém controlada, da atividade. As projeções de bancos e organismos internacionais variam entre 4,0% e 4,6% para 2026, abaixo da meta informal de cerca de 5% que o governo chinês provavelmente buscará para combater pressões deflacionárias. Barenboim projeta crescimento mais próximo de 4%.
Frágil mercado imobiliário
O mercado imobiliário permanece como um dos principais pontos de fragilidade da economia chinesa. Sinais emitidos pela Conferência Central de Trabalho Econômico indicam que o apoio político adicional ao setor deve ser limitado. Nesse contexto, o desfecho da crise enfrentada pela incorporadora China Vanke pode servir como um teste do grau de disposição do Estado em sustentar o setor.
Segundo a Fitch, a SZMC — subsidiária integral da Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do município de Shenzhen — detém 27,18% da China Vanke, sendo sua maior acionista. Entre janeiro e novembro de 2025, a SZMC injetou cerca de 29 bilhões de yuans (US$ 4,2 bilhões) na incorporadora, com o objetivo de apoiar o pagamento de dívidas no mercado de capitais. Ainda assim, a empresa continuava enfrentando dificuldades financeiras.
“Não se trata de um temido ‘momento Lehman’ da China, mas o impacto psicológico da incapacidade da Vanke de honrar suas dívidas em dia não pode ser subestimado”, avaliou a Yardeni Research. Para a consultoria, os problemas da incorporadora indicam que a crise do setor imobiliário está longe de se encerrar, o que torna ainda mais desafiadoras as metas de crescimento do PIB traçadas pelo governo. A Vanke acumula cerca de US$ 50 bilhões em dívidas, segundo a Yardeni.
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