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Degradados, Teatros em Salvador sofrem com o descaso do poder público

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Maioria das salas mantidas pelo governo estadual na capital baiana não apresenta boas condições para acolher espetáculos 

Salvador é uma cidade repleta de movimentos culturais, companhias e grupos independentes, mas uma das maiores dificuldades enfrentadas por esse público tem sido a falta de espaços. Os teatros geridos pelo governo do estado na capital baiana têm sofrido com falta de manutenção e investimentos.

A cidade conta com espaços Boca de Brasa, geridos pela prefeitura, e teatros administrados por entidades privadas. No entanto, o que vem chamando a atenção em meio aos desafios encarados pelos que vivem da arte e cultura, são as casas geridas pelo governo da Bahia, como o Cine-teatro do Iceia (foto), Cine-teatro Solar Boa Vista, Espaço Xisto Bahia, Sala Principal do Teatro Castro Alves/TCA, Teatro do Irdeb, Sala do Coro do TCA e Teatro Jorge Amado.

A maioria dos equipamentos culturais do governo estadual não apresenta boas condições para acolher espetáculos teatrais. No que se refere à data de inauguração, o espaço mais antigo de Salvador surgiu na década de 1930 – o Teatro do Iceia -, vinculado ao Governo Estadual. Situado no bairro do Barbalho, o local foi interditado para uma reforma, no início da pandemia, no entanto, ainda segue abandonado.

Para Cristiane Petersen, doutora em Artes Cênicas pela Escola de Teatro da Ufba e professora do curso técnico de teatro do Iceia, a situação do Teatro do Iceia é complicada por ser um espaço muito grande – o segundo maior do Salvador -, que precisa de uma reforma ampla.  Cristiane pontuou também sobre os problemas na acústica e o fato de já estar fechado há muito tempo.

“Acho que é uma perda, não só para o Iceia, para o curso de teatro, para os outros cursos também, para o uso da escola, mas também para a cidade de Salvador, porque o teatro do Iceia já foi muito famoso, já abrigou muitos artistas. Então, é uma perda também para a cultura de Salvador e para as artes ver um teatro daquele tamanho fechado, precisando de reforma. A importância que ele tem para a cidade muita gente lembra, tem memórias muito boas, muitas coisas já foram feitas ali, mas  hoje, infelizmente, ele se encontra fechado,” salientou.

Segundo a professora, a comunidade escolar tem tido um diálogo continuo com a Secretaria da Educação para ver o que realmente pode ser feito para reabrir o espaço.

Para os produtores culturais, o Estado precisa entender que os artistas podem ser grandes parceiros para promover o desenvolvimento social e econômico.  Segundo eles, a grande dificuldade é o fato de não ter mais o Estado como um parceiro, como um incentivador.

Eles criticam o Estado por ter virado um ‘empresário’ que tenta ganhar dinheiro em cima da atividade. Para os produtores, os centros de cultura são um problema que o governo não tem interesse de resolver. Eles defendem também que esses espaços dentro dessas comunidades poderiam não apenas ser locais de entretenimento, mas lugares de transformação.

Segundo a gestora cultural e diretora do Coletivo4, Fernanda Paquelet, os teatros estaduais são um retrato do descaso do Estado com a cultura.

“Como profissional das artes, como uma pessoa que escolheu as artes como profissão,  quando eu olho para os teatros da cidade que são geridos pelo poder público, em específico os do Estado, para mim, as condições deles são exatamente o retrato de um descaso governamental com a  profissão artista. Uma profissão é fundamentada a partir de uma legislação, e uma legislação é política, então quem fala sobre a legislação no nosso País são os nossos representantes públicos, né? Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, então quem cuida dessa parte, quem cria as leis, quem executa as leis e quem julga – é a nossa gestão pública e política”.

Fernanda disse ainda que o descaso tem início com a falta de cuidado e atenção com o profissional das artes. “Quando você vê no final dessa trajetória, a gente entende o descaso de todo um processo. Então uma profissão precisa passar por formação, por fomento, por produção, por distribuição e por memória. E dentro desses prédios, nós deveríamos ver muito bem desenvolvidas essas cinco linhas de atuação, para que a gente tenha uma profissão respeitada. Se a gente não tem sequer o respeito pela profissão artista, que dirá equipamentos que nos deem dignidade de ser profissionais,” finalizou

Escassez de opções

O incêndio que atingiu parte da estrutura do Teatro Castro Alves (TCA), em janeiro de 2023, escancarou a escassez de grandes espaços para eventos culturais em Salvador. Produtores e a classe artística têm se queixado do cenário artístico pobre, limitado pela falta de equipamentos maiores para receber peças, shows e eventos.

A reclamação abrange também a falta de manutenção nos espaços menores. O presidente da Associação Baiana das Produtoras de Eventos (Abape), Moacyr Villas Boas, diz que o cenário é negativo para o setor em diversos âmbitos. 

O diretor teatral Kaika Alves frizou que essa escassez é muito antiga e perdura ao longo das décadas e das gestões. “Muda partido, vem partido, e a gente continua na mesma, uma melhora aqui, outra ali, mas as políticas não têm uma continuidade, elas não têm uma evolução. A cada mandato, o mundo começa e o mundo acaba naquilo ali. A política de Estado não é política de gestão, não é política de partido, é política de Estado, ou seja, o Estado independente de quem esteja gerindo ele, tem que tocar isso para diante”, ponderou.

Kaika comentou ainda que sua principal dificuldade como produtor cultural em Salvador é conseguir emplacar pauta em todos os lugares e principalmente no governo. “O que acontece é que já tivemos época onde os espaços do governo estavam mais disponíveis à produção cultural, não só as portas estarem abertas e sim os espaços estarem mais ativos atuantes. [Ao longo do tempo], o Estado foi se comportando como iniciativa privada, foi querendo ganhar dinheiro em cima da produção cultural na minha área, que é teatro basicamente, e nós acabamos perdendo,” enfatizou.

Segundo o secretário de Cultura do Estado da Bahia, Bruno Monteiro, o Estado sozinho não tem condições de dar conta de tudo.

“Eu não tenho como garantir sobre um ou outro especificamente, mas há em curso uma política para reforma, revitalização e modernização desses espaços. É importante também que a sociedade como um todo, o setor empresarial, os parlamentares, todo mundo que tem alguma responsabilidade também tenha essa compreensão e some esforços para garantir, porque o Estado sozinho muitas vezes não tem condições de dar conta de tudo,” ponderou.

Bruno Monteiro ainda falou de ações que vêm ocorrendo em todo o Estado. “Olha, nós temos diversos equipamentos culturais na Bahia que necessitam algum tipo de intervenção – ou para melhorar o seu funcionamento ou para garantir o seu funcionamento. Nós começamos no ano passado um processo de requalificação dos equipamentos culturais do interior do Estado, que continua este ano. Entregamos dois centros de cultura reformados e vamos começar novas reformas agora neste ano,” finalizou.

Teatro municipal

Um dos questionamentos levantados pelo presidente da Abape, Moacyr Villas Boas, é sobre a falta de um teatro municipal na cidade. Segundo ele, a associação está pleiteando essa possibilidade com o secretário de Cultura do município, Pedro Tourinho. 

Em entrevista ao Portal M!, o secretário falou que a construção de um teatro municipal não é um uma prioridade na gestão, e sim dinamizar os espaços já existentes na capital baiana.

“Vamos lançar mais editais culturais da cidade. Não tem hoje sendo projetado nenhum teatro municipal do tamanho do Castro Alves. Não está no horizonte agora, a gente está realmente focado agora em reformar, renovar e requalificar o Vila Velha. Obviamente, isso é uma coisa que está sempre na nossa pauta, possibilidades, parcerias, espaços etc., mas o nosso foco agora está sendo realmente ativar e dinamizar os espaços que a gente já tem e trazer um Vila Velha forte, robusto, potente para a cultura da cidade,” disse.

Pedro Tourinho contou ainda que a prefeitura adotou a estratégia de priorizar teatros de médio porte, espalhados pela cidade. 

“Nós temos o teatro no Subúrbio 360, que é um dos melhores teatros daqui. Temos um teatro aqui no Centro, vamos fazer uma sala de espetáculo multiuso lá embaixo no Comércio. A reforma do Vila Velha, que é o grande símbolo do teatro baiano. É o nosso grande teatro municipal no sentido de representar a cultura da cidade, então nossa estratégia de investimento tem sido realmente nesses teatros, não vou dizer médios, no sentido de quantidade de público, mas que têm um forte apelo, uma conexão com a cultura da cidade,” finalizou.

 

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