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Práticas machistas podem ser sutis: saiba como identificá-las

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Portal M! ouviu especialistas para falar sobre a forma como esses comportamentos afetam as  mulheres nos aspectos mental e emocional

Em meio a um cenário marcado por lutas pela igualdade de gênero, práticas do chamado machismo estrutural continuam a contaminar diversos ambientes, manifestando-se de formas diversas e muitas vezes imperceptíveis. Do manterrupting ao gaslighting, passando pelo mansplaining e bropriating, tais comportamentos revelam-se como obstáculos persistentes no caminho da equidade, evidenciando a necessidade urgente de uma reflexão profunda sobre suas origens e impactos.

Para tratar do assunto e pontuar meios de combater essas práticas sutis do machismo, o Portal M! ouviu especialistas. Na avaliação da docente no Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, Darlane Andrade, falar sobre práticas machistas é discutir todo o comportamento que expressa uma forma de dominação masculina, principalmente sobre as mulheres. 

“E, para identificar essas formas, é importante a gente observar, tanto em elementos mais sutis, subjetivos, midiáticos, simbólicos, como nos mais visíveis, que são, por exemplo, a violência doméstica e o feminicídio”, explica Darlane, que também é psicóloga. 

Tipos mais comuns de práticas machistas

Entre os tipos mais comuns de práticas machistas está o manterrupting – configurada quando um homem interrompe constantemente uma mulher, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir uma frase ou expressar um pensamento ou sentimento. A palavra é uma junção de man (homem) e interrupting (interrupção) e, em tradução livre, quer dizer “homens que interrompem”. Esse comportamento é muito comum em reuniões de trabalho, quando uma mulher não consegue concluir uma frase sequer por ser constantemente interrompida pelos homens ao redor.

Outro conceito é o mansplaining, caracterizado quando um homem tenta explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não soubesse ou fosse incapaz de entender. O termo é uma junção de man (homem) e explaining (explicar). 

Outros termos menos conhecidos são o bropriating e o gaslighting. O primeiro se dá quando um homem se apropria da mesma ideia já expressada por uma mulher, levando os créditos por ela. O termo é uma junção de bro (de brother, irmão, mano) e appropriating (apropriação). É algo que também acontece muito em reuniões de trabalho e no ambiente corporativo.

Já o segundo é um  termo derivado do termo inglês gaslight (luz inconstante do candeeiro a gás), e é um dos tipos de abuso psicológico que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou está equivocada sobre um assunto, sendo que está originalmente certa. É um jeito de fazer a mulher duvidar do seu senso de percepção, raciocínio, memória e sanidade.

Para Darlane, uma das principais formas de se libertar dessas abordagens machistas é saber identificá-las. “Isso está presente no dia-a-dia das relações do trabalho, em que as mulheres são interrompidas, são subjugadas, são desvalorizadas de diversas formas. Isso tudo mostrando, mais uma vez, esse jogo de poder. Quando a gente fala dessa cultura machista, a gente está falando de uma cultura que carrega esse jogo de poder, que é desigual, e que tem como base essa leitura social das diferenças sexuais”, apontou. 

Darlane é docente no Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da UFBA | Foto: Divulgação

Ao falar sobre essa relação de genêro, a especialista chama atenção para a forma com que essas relações são construídas a partir das desigualdades, principalmente as sexuais.

“A princípio, as desigualdades não são um grande problema, porque a gente é diferente fisiologicamente. Homens e mulheres podem ser diferentes, mas o que vai pesar é que essa diferença é vista com desigualdade. Então, todas as características voltadas para o feminino na nossa cultura, tanto em termos de comportamento, expressão de si, de identidade, expressão de sentimento, modo de ser, quanto na ocupação no mercado de trabalho, no tipo de profissão que a gente exerce, [tudo] isso vai estar relacionado a essas construções de gênero. Se elas são desiguais, pode haver violência, e quem vai sofrer a violência geralmente são mulheres”, observou.

Como identificar as práticas machistas

Um quesito importante na identificação das práticas machistas, conforme a pesquisadora, é obter conhecimento sobre questões relacionadas ao gênero e como essas desigualdades vão sendo construídas ao longo do tempo. Outro ponto importante é a busca por desnaturalizar essas práticas.

“A gente acha que é normal, que a mulher tem que se comportar dessa forma, ser subjugada, ser mais quieta, ser mais dócil. Enfim, todos esses estereótipos que são construídos em torno do que é ser mulher, do que são as feminilidades, o que é ser uma pessoa que é menina. Então, é importante a gente falar sobre isso para poder identificar essas opressões e poder combater, se cuidar, porque todas as violências geram consequências muito danosas, principalmente para a saúde mental”, ressaltou. 

Principais prejuízos

Em face desse quadro, a psicóloga clínica Samildes Magalhães pontuou que as práticas podem causar uma série de prejuízos significativos às mulheres, tanto no aspecto mental quanto emocional. Ela também alertou que a principal forma de identificar o problema dentro de uma relação desse tipo é através de episódios de desrespeito e desvalorização.

“Elas podem começar a questionar a sua sanidade e sentir-se impotentes em expressar suas próprias necessidades e sentimentos. Elas vão ficando introspectivas. No geral, essas práticas machistas não apenas prejudicam a autoestima e a confiança das mulheres, mas também perpetuam essa desigualdade de gênero, e limitam as oportunidades de sucesso e realizações pessoal e profissional. Penso que é de fundamental importância reconhecer e combater esses comportamentos para criar ambientes mais inclusivos e equânimes para todos”, enfatizou Samildes, que também é doutoranda em Processos Interativos de Órgãos e Sistemas pela UFBA, além de facilitadora e supervisora na psicoterapia EMDR – nova abordagem psicoterapêutica que desbloqueia memórias dolorosas através de estimulação bilateral do cérebro.

Outro ponto defendido pela especialista são os casos em que essas mulheres sofreram traumas, sobretudo na infância. Segundo ela, “isso vai gerar um apego inseguro que, consequentemente, levará a esses padrões de comportamento”.

“Uma mulher que se coloca para começar um relacionamento que tenha essas práticas abusivas,  na realidade, tem algo que é anterior ao encontro com esse homem, é algo dela, é da infância dela. E aí a gente começa a questionar quais foram os relacionamentos de infância, como foi, como são esses pais, que educação essa menina recebeu, como ela era tratada na sua casa. Mais ainda, como ela via o relacionamento dessa mãe com esse pai, porque muitas vezes esses relacionamentos abusivos são perpetuados transgeracionalmente. Essas crianças são criadas nesse ambiente de violência”, observou.

Samildes é psicóloga clínica | Foto: Divulgação

Um dos principais impactos às mulheres, conforme a psicóloga, é o dano à autoestima. Conforme Samildes, a mulher que lida com essas práticas pode acabar gerando dúvidas constantes sobre si mesma.

“Podem começar a duvidar de suas próprias habilidades, de conhecimentos, opiniões. Elas se sentem incapazes de opinar sobre alguma coisa, principalmente quando estão num meio de amigos, de pessoas, de trabalho. Elas não conseguem fazer isso, porque podem questionar se suas contribuições são válidas ou se são dignas de serem ouvidas. Tipo assim: ‘não vou falar porque eu só falo besteira’. Onde foi que ela ouviu isso que ela ‘só fala besteira’? Talvez potencializado por esse homem, mas que ouviu lá na infância. Eu vou estar sempre falando aqui da situação de trauma que não começa em uma vida adulta. A pessoa pode ter um trauma em uma vida adulta, um impacto, uma coisa muito forte, mas não necessariamente. Esse processo começa na infância, principalmente, é muito precoce. Sentimento de inadequações, mulheres que são frequentemente interrompidas”, pontuou.

Em outros casos, as mulheres também podem apresentar tendências ao isolamento e o retraimento, como resposta às invalidações constantes e à falta de reconhecimento. “Algumas mulheres podem se retrair, se afastar de situações sociais e profissionais”, alertou. 

Importância de retirada da mulher do convívio tóxico 

Por fim, a psicóloga também ressaltou a necessidade e a importância da retirada de mulher desse convívio de práticas machistas. Ela chamou atenção ainda para os casos em que os homens tentam justificar esses comportamentos sob o argumento do ‘ciúme’.

“Ele está sempre dizendo que é ciumento, e as mulheres, que sofrem essas práticas, contam situações abusivas de ciúme porque ‘ele me ama muito’. Isso é uma miragem, uma mentira, mas ela não sabe que isso é uma mentira. Ela acha que aquilo ali é amor, e é importante estar ciente desses sinais e prestar atenção a essa desvalorização e ridicularização. A gente precisa prestar atenção aos sentimentos e comportamentos dessas mulheres ao nosso redor, apoiar e validar suas experiências”, orienta.

Ainda segundo Samildes, uma forma de contribuir com as mulheres que passam por essas situações é promover ambientes inclusivos e equânimes, que servirão para combater essas práticas.

“Mas não só isso aí – a gente [também] precisa encorajar o desenvolvimento de habilidades assertivas para poder ajudá-las a resistir aos efeitos prejudiciais dessas práticas, recuperar sua autoconfiança e autoestima. Apoio é válido, elas precisam do apoio social, mas quem vai tratar, muitas vezes, é uma equipe multidisciplinar – com psiquiatra, assistente social e psicólogo -, que vai fazer com que essa mulher consiga resolver seus traumas. Precisamos de saúde pública, de projetos e programas envolvendo esse tema”, alertou.

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