Bahia registra 97 feminicídios em 2025 e dados revelam perfil das vítimas
Salvador lidera registros e mulheres entre 30 e 34 anos são as mais atingidas
Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
A Bahia registrou 97 feminicídios entre janeiro e 8 de dezembro de 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). O levantamento aponta que o crime permaneceu disseminado ao longo do ano, atingindo mulheres de diferentes faixas etárias e regiões do estado, com maior concentração em cidades de médio e grande porte.
Entre os municípios com maior número de ocorrências, Salvador lidera o ranking, com 10 casos no período analisado. Na sequência aparecem Feira de Santana, com cinco registros, e Camaçari, com quatro. Os números reforçam a persistência da violência de gênero e a dificuldade de interromper ciclos de agressão antes que cheguem ao desfecho mais extremo.
Caso recente teve repercussão nacional
Um dos crimes mais recentes ocorreu na noite de 6 de dezembro, no município de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. A jovem Rhianna Alves, mulher trans de 18 anos, foi morta após sofrer um golpe de mata-leão. O autor do crime, o motorista por aplicativo Sérgio Henrique Lima dos Santos, de 19 anos, levou o corpo até a delegacia e alegou legítima defesa, sendo inicialmente liberado.
O caso ganhou repercussão nacional após a liberação do suspeito. Quatro dias depois, ele foi preso e indiciado. O episódio reacendeu o debate sobre feminicídio, transfobia e falhas institucionais na condução de ocorrências envolvendo violência de gênero.
Perfil das vítimas revela maior vulnerabilidade entre mulheres adultas
A análise do perfil das vítimas mostra que mulheres entre 30 e 34 anos concentram o maior número de registros, representando 16,5% do total de feminicídios na Bahia em 2025. Logo em seguida aparecem as faixas etárias de 35 a 39 anos e 40 a 44 anos, ambas com 15,5%, indicando maior incidência entre mulheres adultas.
Em relação à raça e cor, os dados apontam que 61,86% das vítimas eram mulheres pardas, enquanto 14,46% eram mulheres pretas e 4,12%, brancas. Casos envolvendo mulheres indígenas correspondem a 1,03% do total. Em 18,56% das notificações, não houve informação sobre raça ou cor, o que evidencia falhas no preenchimento de dados e limita análises mais precisas.
Crimes se mantiveram ao longo de todo o ano
O número de feminicídios apresentou poucas oscilações ao longo de 2025. O mês de abril foi o mais letal, com 13 casos. Um deles foi o assassinato de Jaqueline Vieira Moura, de 43 anos, encontrada morta com sinais de estrangulamento no Bairro da Paz, em Salvador.
Segundo a Polícia Civil, o namorado da vítima era o principal suspeito. Ele chegou a ser agredido por moradores da região, foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.
Em novembro, mês que registrou 12 feminicídios, outro crime chamou atenção. Iane de Jesus Branco, de 26 anos, foi morta a golpes de blocos de cerâmica dentro de casa, na cidade de Santana, no oeste baiano, na frente do filho de quatro anos. O principal suspeito era o companheiro da vítima, que foi preso.
Antes disso, em fevereiro, Terezinha Pires dos Santos, de 43 anos, foi assassinada com um tiro no pescoço em Santa Maria da Vitória. Ao lado do corpo, foi deixado um bilhete com ofensas. O companheiro também era o principal suspeito.
Especialistas apontam fatores culturais e emocionais
A psicóloga e professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Darlane Andrade, avalia que os fatores que mantêm mulheres em relações violentas não podem ser analisados de forma isolada. Segundo ela, padrões baseados na monogamia, na heteronormatividade e na subordinação feminina ainda moldam relações afetivas.
“Esse amor e a necessidade de ser validada pelo outro, acaba sendo muitas vezes o motivo que leva as mulheres a permanecer em relações afetivas, mesmo quando violentas”, afirmou.
Para a professora, o feminicídio representa o ponto final de uma escalada de violências e reflete uma cultura machista, conservadora e misógina que também atinge mulheres trans.
Dependência emocional dificulta rompimento de ciclos abusivos
A psicóloga e mestra em gênero Ilana Marques destaca que muitas mulheres permanecem em relações abusivas por acreditarem que sua validação pessoal depende da presença de um parceiro. Segundo ela, essa construção dificulta o reconhecimento da violência e o acesso a redes de apoio.
“Quando a mulher é levada a acreditar que ocupa essa posição inferior, tende a perder a percepção de igualdade, o que dificulta questionar comportamentos, reclamar de violências ou se posicionar diante do companheiro”.
Ilana defende que o enfrentamento exige fortalecimento psicológico, autonomia financeira e redes de apoio estruturadas, reduzindo a dependência afetiva e material em relação ao agressor.
Salvador concentra registros e reforça rede de proteção
Em entrevista, a secretária municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude de Salvador, Fernanda Lordêlo, afirmou que os números da capital precisam ser analisados à luz da densidade populacional, superior a 2,5 milhões de habitantes. Segundo ela, houve redução nos últimos anos, com 20 casos em 2023, nove em 2024 e dez em 2025 até dezembro.
Ela destacou que todas as vítimas registradas em 2025 não haviam buscado a rede de proteção nem solicitado medidas protetivas. Salvador conta com Centros de Referência e Atenção à Mulher, Patrulha Guardiã Maria da Penha e o Botão Lilás, além de atuação integrada com Judiciário, Ministério Público, Defensoria e forças de segurança.
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