Varrer para debaixo do tapete: a ilusão da paz
O que se varre para debaixo do tapete nunca desaparece: volta como dor, sintoma ou ruptura
Imagem gerada por IA
Quando o silêncio não é paz
Nem todo silêncio é paz. Há silêncios que aquietam, como o de dois amigos que caminham juntos sem precisar falar. Há silêncios que protegem, como quando a mãe embala o filho em silêncio para que ele durma em segurança. Mas quando tudo é escondido (conflitos, sentimentos, verdades incômodas) o silêncio além de não curar, corrói.
O silêncio como violência psicológica
O chamado “dar um gelo” é uma das armas emocionais mais cruéis. Não há briga, não há gritos, não há ofensas, apenas a negação da palavra. Um fala e o outro cala. Jacques Lacan (1901–1981) dizia que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Retirar a palavra é retirar a nossa existência simbólica.
Esse silêncio punitivo do “gelo” gera desorientação: “o que eu fiz?”, “o que está acontecendo?”. No entanto, não há respostas, apenas um vazio hostil. Pior do que o conflito aberto é a ausência de qualquer sinal. O grito, por pior que seja, ainda reconhece a presença do outro; o silêncio absoluto o elimina.
O silêncio castiga não pelo que diz, mas pelo que recusa a dizer. Ele mina a autoestima, destrói a confiança e transforma a relação em um território onde nada floresce. Esse “método” é muito usado por narcisistas e manipuladores(as) para gerar culpa e domínio.
Pactos de sombra: o silêncio cúmplice
Há famílias que se estruturam em torno do não-dito. O avô violento nunca mencionado. O abuso sexual do tio, abafado como se nunca tivesse acontecido. A traição conjugal “esquecida”, mas sempre assombrando.
Os segredos familiares não desaparecem e são transmitidos como herança emocional. O filho ansioso, que não sabe de onde vem sua angústia; a neta deprimida, que carrega a tristeza de um passado, que nunca lhe foi contado. É nesse contexto que a expressão popular “varrer para debaixo do tapete” se torna perfeita, pois a sujeira pode até sair da vista, mas continua lá, acumulando-se até que o tapete já não consiga escondê-la.
Pesquisas da PUC-SP (2019) sobre segredos transgeracionais mostram que famílias que cultivam pactos de silêncio produzem descendentes mais propensos a transtornos de ansiedade e depressão. O silêncio cala a boca, mas não cala a mente, o corpo, a alma.
Hannah Arendt (1906–1975), ao refletir sobre o nazismo, observou que o mal se banaliza quando ninguém o nomeia. Nas famílias, o silêncio que protege a imagem externa é o mesmo que perpetua a dor interna.
O silêncio no casal: convivência com fantasmas
Muitos casamentos vivem de silêncios com ressentimentos acumulados e mágoas guardadas. Não há discussões, mas também não há encontros verdadeiros. O silêncio não é a paz, e pode ser a face de um casamento-fantasma.
Estudos da Universidade da Califórnia (2017) revelaram que casais que evitam conversas difíceis apresentam índices mais altos de depressão e rupturas. No entanto, é bom destacar que o diálogo deve ser produtivo e avançar para o consenso: quando um explica à exaustão, mas o outro repete as mesmas perguntas por anos a fio, a conversa nunca se encerra, e o que explica pode desistir de falar.
O silêncio na infância: palavras que nunca chegam
Muitos crescem em lares onde as emoções não são nomeadas. O pai que não fala de seus sentimentos. A mãe que nunca explica por que chora no quarto. A criança, sem explicação, preenche as lacunas com a fantasia mais imediata: “fui eu que causei isso”.
Donald Winnicott (1896–1971) já advertia que o desenvolvimento saudável exige um ambiente em que a criança possa se expressar sem medo. Quando o silêncio domina, a criança cresce com dificuldade de nomear emoções, carregando a sensação de ser invisível. Essas marcas persistem na vida adulta: dificuldade de confiar, medo de intimidade, tendência a reproduzir o mesmo silêncio nos próprios relacionamentos.
O enigma do silêncio: a difícil interpretação
O silêncio é traiçoeiro porque é ambíguo. Pode ser sabedoria ou desprezo. Pode ser prudência ou abandono. Interpretá-lo é arriscado, e os erros são frequentes. Quem se cala por medo pode ser visto como arrogante. Quem se cala para refletir pode parecer indiferente. Na ausência de palavras, a mente inventa narrativas e, quase sempre, são sombrias.
O silêncio abre espaço para fantasmas, porque deixa lacunas que a mente ansiosa preenche com hipóteses (geralmente as piores). O silêncio enlouquece, porque transforma a dúvida em tormento, e pode ir além, desenvolvendo algum tipo de desequilíbrio emocional grave.
Jesus Cristo disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). A verdade exige palavra. É bom ressaltar, que a verdade é resultado de versões sobre um fato ou ideia. Muitas pessoas que se acham os “donos da verdade”, não a têm de forma absoluta, e podem estar pautando suas vidas em mentiras. Como disse Nietzsche: “As maiores inimigas da verdade são as convicções”, pois elas não permitem que a pessoa ouça outras versões.
O silêncio cultural: sociedades que evitam o conflito
Em algumas culturas, o silêncio é valorizado como sinal de respeito. No Japão, por exemplo, evitar a palavra em situações de tensão pode ser visto como polidez. Já no Brasil, o silêncio costuma ser interpretado como desprezo ou como aceitação: “Quem cala consente”, diz o ditado.
O que em um contexto é sinal de maturidade, em outro é sinal de frieza. A interpretação é sempre arriscada e pode gerar mal-entendidos profundos. O “achismo” é uma praga, porque muita gente interpreta toda uma história com apenas poucos elementos descontextualizados. É como assistir a um único capítulo de uma novela e querer interpretar toda a história, e o destino dos personagens.
O impacto psicológico do silêncio imposto
Freud (1856–1939) já mostrava que reprimir um sentimento faz ele retornar em forma de sintoma. O que não é dito pode aparecer como insônia, gastrite, ataques de pânico, fobias, depressão, ansiedade e mais uma lista enorme de problemas. Viver sob silêncio constante é como ingerir veneno incolor: não se vê, não se sente imediatamente, mas a corrosão é inevitável.
Um estudo da Universidade de Cambridge (2018) indicou que trabalhadores em ambientes em que há o silêncio diante de abusos (morais/sexuais) apresentam níveis de estresse semelhantes ao das vítimas diretas. O silêncio, nesse caso, não é ausência de violência, mas uma forma de violência.
O cemitério das palavras não ditas
Sociedades inteiras também “varrem para debaixo do tapete” as dores que não querem encarar. Empresas silenciam abusos, comunidades escondem crimes, governos abafam escândalos. O tapete pode ser grande, mas nunca infinito. Quando levantado, revela não só sujeira, mas também a cumplicidade de quem escolheu calar.
O silêncio protege fachadas, mas destrói almas. Ele é o cemitério das palavras não ditas, das verdades nunca reveladas, dos encontros que nunca aconteceram.

Crédito: Divulgação
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
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