O ser (des)humano: a era do eu e o colapso do nós

Estamos mesmo nos desumanizando ou apenas revelando o que sempre fomos por dentro?


Sergio Manzione
Sergio Manzione 28/06/2025 10:25 • Artigos e afins
O ser (des)humano: a era do eu e o colapso do nós - Imagem gerada por IA
Reproduzindo artigo
00:00 00:00

É intrigante e doloroso observar como, apesar dos notáveis avanços tecnológicos e da conectividade em tempo real, nossas relações interpessoais se degradam, tomadas pelo egoísmo, prepotência, medo e insegurança. Essa “pandemia emocional” tem nos afastado da nossa própria humanidade.

A era do ego inflado e conexões vazias

Vivemos em uma sociedade onde a aparência supera a essência. O amor-próprio, fundamental, virou justificativa para ignorar o próximo, e o “eu mereço” cala a capacidade de escutar. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, em Amor Líquido, previu a fragilidade de nossos vínculos, buscando relações rápidas, práticas e sem esforço emocional. Assim, o egoísmo é visto como virtude, a prepotência como força, e a empatia como fragilidade. Observamos isso em casais que competem, amizades disfarçadas de inveja, pais que terceirizam a educação emocional, e chefes autoritários. Estamos nos desconectando do cuidado, do afeto e do respeito mútuo.

O indivíduo acima da nação

O antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, em seu livro A Casa e a Rua, aponta uma característica profunda da cultura brasileira: o foco constante do indivíduo em detrimento da coletividade. Ao contrário de outras culturas, o foco aqui é a proteção do “eu”, do “meu” e do círculo íntimo (“casa”), negligenciando o espaço público (“rua”) e a coletividade. Isso impede a empatia genuína, fragmenta a sociedade e reforça o egoísmo e a insegurança. No cotidiano, manifesta-se em “jeitinhos” para furar filas, desrespeito às regras, indiferença à dor alheia e normalização da corrupção, enfraquecendo o senso de comunidade.

Medo e insegurança por trás da agressividade

Toda prepotência é, no fundo, uma máscara de medo, e toda arrogância, uma armadura frágil tentando esconder inseguranças profundas. Erich Fromm, psicanalista e filósofo, afirmou em O Medo à Liberdade, que quanto mais inseguros estamos, mais buscamos o controle. O medo de perder, de não ser suficiente, de ser rejeitado, abandonado ou esquecido nos transforma em seres ciumentos, controladores, intolerantes, e, muitas vezes, agressivos e cruéis.

Esses medos individuais também são alimentados por estruturas de poder, que se beneficiam da desumanização. Religiões autoritárias e ideologias alienantes reforçam a culpa, a obediência cega, a dúvida, e o ódio ao diferente, impedindo o pensamento crítico, em vez de promoverem compaixão. Mantêm a sociedade fragmentada, emocionalmente vulnerável e, por isso, facilmente controlável.

A ignorância, fortalecida pela ausência de uma educação formal crítica e de qualidade, completa essa equação. Forma-se um contingente de analfabetos funcionais que não compreende seu entorno e, portanto, não questiona. É a armadilha perfeita: quem não entende, não resiste. Esse grupo se torna presa fácil de líderes populistas, narcisistas e sedentos por poder, que exploram o medo como principal ferramenta de dominação. Além disso, o machismo, entranhado na cultura, legitima a agressividade e sufoca qualquer tentativa de transformação.

A desumanização nos detalhes cotidianos

A desumanização não exige grandes atrocidades, mas se manifesta na indiferença, que Hannah Arendt, filósofa alemã, em Eichmann em Jerusalém, fala sobre a “banalidade do mal”, onde o mal é cometido não por monstros, mas por pessoas comuns anestesiadas pela repetição. Quando paramos de pensar e sentir, calamos diante da injustiça ou nos acostumamos com a dor alheia, abrimos espaço para o inumano. Isso ocorre em pequenos gestos como ignorar o idoso, zombar do sofrimento, desrespeitar regras, repetir preconceito, praticar bullying, ou deixar de perguntar “você está bem?”. Cada pequena indiferença alimenta o todo e invade o nosso dia a dia. A era digital trouxe benefícios inegáveis, mas também contribui para o isolamento emocional. Como afirmou Sherry Turkle, psicóloga do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Alone Together, estamos “sozinhos juntos”, cercados por pessoas online, mas emocionalmente distantes, o que nos torna indiferentes ao sofrimento alheio.

Em 1961, o psicólogo Stanley Milgram demonstrou que pessoas comuns podem cometer atos cruéis apenas por obedecer a uma autoridade. No experimento, participantes aplicavam choques elétricos em um “aluno” (ator) cada vez que ele errava uma resposta, e, mesmo ouvindo gritos de dor e súplicas para parar, 65% chegaram à voltagem máxima, mesmo diante de gritos de dor, apenas porque o pesquisador ordenava que continuassem. O estudo revelou como a obediência cega pode anular o senso crítico e levar à desumanização em contextos sociais estruturados.

Estaríamos regredindo à humanidade primitiva?

Será que, o que aqui chamo de “desumanização” não é, na verdade, um retorno à essência mais crua da nossa espécie? Antes da ética, da compaixão, da filosofia, o ser humano era um sobrevivente: caçador, desconfiado, impulsivo, territorialista… Thomas Hobbes, filósofo inglês, disse que o “homem é o lobo do homem”, e só os contratos sociais contiveram essa natureza.

De outro lado, as sociedades tribais valorizavam o coletivo e a partilha. O que estamos vivendo talvez seja, na verdade, um colapso moderno, uma desconexão profunda da nossa natureza relacional. Steven Pinker, psicólogo canadense, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, mostra que, historicamente, nos tornamos menos violentos. Isso sugere que a desumanização atual não é regra, mas uma disfunção. Uma crise de identidade gerada por um sistema que nos empurra para o desempenho, o consumo e a comparação constante. Tudo isso faz com que nossa responsabilidade seja ainda maior, pois sabemos o que é possível construir e, mesmo assim, escolhemos o caos.

Reumanizar é urgente, e possível

Carl Rogers, psicólogo humanista, defendia que “ser profundamente compreendido é o maior antídoto para a dor”. Ele acreditava — e eu também — que o ser humano é capaz de crescer quando acolhido, ouvido e respeitado. O desafio não é apenas evitar a desumanização, mas cultivar tudo aquilo que nos torna mais humanos como as relações verdadeiras, escuta empática, cooperação, justiça social e senso de comunidade.

Você ainda reconhece a sua humanidade evoluída, ou já se acostumou a sobreviver com o coração blindado?

Psicólogo Sergio Manzione | Foto: Divulgação

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. @psicomanzione

Sérgio Manzione

Sérgio Manzione

Mais Lidas

Artigos e afins

Últimas Notícias

Escola digital seleciona dez pessoas para atuar no Carnaval de Salvador com bolsa de R$ 1,8 mil -
Carnaval 2026 30/01/2026 às 13:40

Escola digital seleciona dez pessoas para atuar no Carnaval de Salvador com bolsa de R$ 1,8 mil

Inscrições seguem abertas até segunda-feira e seleção inclui formação e vivência prática no Trio da Cultura no circuito Dodô


Esposa de Alberto Cowboy minimiza rumores com Ana Paula no BBB 26 e garante: ‘Coisas pequenas não me chateiam’ -
BBB 26 30/01/2026 às 13:09

Esposa de Alberto Cowboy minimiza rumores com Ana Paula no BBB 26 e garante: ‘Coisas pequenas não me chateiam’

Em publicação nas redes sociais, Priscilla Monroy afirmou não demonstrar preocupação com a relação entre os dois confinados


Mudanças na prova da CNH avançam no país e Bahia ajusta exame prático após resolução do Contran -
Cidades 30/01/2026 às 12:38

Mudanças na prova da CNH avançam no país e Bahia ajusta exame prático após resolução do Contran

Detran-BA altera formato da avaliação, aguarda liberação de carros automáticos e segue diretrizes nacionais para habilitação


Desemprego atinge 5,1% em dezembro e mercado de trabalho tem melhor resultado desde 2012 -
Cidades 30/01/2026 às 12:07

Desemprego atinge 5,1% em dezembro e mercado de trabalho tem melhor resultado desde 2012

Dados do IBGE apontam recordes de ocupação, avanço do emprego formal e crescimento da renda média dos trabalhadores


Jerônimo Rodrigues lança Carnaval do interior em Juazeiro com foco em segurança e cultura -
Carnaval 2026 30/01/2026 às 11:36

Jerônimo Rodrigues lança Carnaval do interior em Juazeiro com foco em segurança e cultura

Governador anuncia investimento de R$ 17 milhões no programa Ouro Negro e reforço de 13 mil profissionais de segurança em 111 cidades


Ricardo Maracajá encerra ciclo no TRE-BA após um ano e oito meses -
Política 30/01/2026 às 11:05

Ricardo Maracajá encerra ciclo no TRE-BA após um ano e oito meses

Passagem pela Corte Eleitoral baiana é marcada por reconhecimento unânime de magistrados e representantes do Ministério Público Federal


Efeito Caiado muda o jogo: PSD articula chapa puro-sangue e ‘xerifão da República’, diz João Santana -
Política 30/01/2026 às 10:34

Efeito Caiado muda o jogo: PSD articula chapa puro-sangue e ‘xerifão da República’, diz João Santana

Para marqueteiro baiano, principal desafio para sigla é sustentar uma candidatura presidencial de oposição sem implodir seus acordos regionais


Vorcaro e ex-presidente do BRB divergem no STF sobre R$ 12 bilhões em créditos -
Política 30/01/2026 às 10:03

Vorcaro e ex-presidente do BRB divergem no STF sobre R$ 12 bilhões em créditos

Acareação no Supremo Tribunal Federal expõe versões conflitantes sobre origem de carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master ao BRB


Binho Galinha depõe em processo sobre milícia e lavagem de dinheiro na Bahia -
Política 30/01/2026 às 09:32

Binho Galinha depõe em processo sobre milícia e lavagem de dinheiro na Bahia

Última audiência de instrução em Feira de Santana reúne deputados, policiais e familiares envolvidos no caso


Resumo BBB 26 de sexta-feira (30): liderança de Maxiane agita a casa, semana do Big Fone e madrugada é marcada por tretas e choro -
BBB 26 30/01/2026 às 09:01

Resumo BBB 26 de sexta-feira (30): liderança de Maxiane agita a casa, semana do Big Fone e madrugada é marcada por tretas e choro

Vitória na Prova do Líder redefine VIP e Xepa, enquanto conflitos com Milena dominam madrugada e semana promete reviravoltas