O Natal do ter sem ser: Jesus ou Papai Noel?

Entre árvores e presentes, onde está Jesus? O Natal virou espetáculo, e o aniversariante foi deixado de lado


Sergio Manzione
Sergio Manzione 20/12/2025 08:30 • Artigos e afins
O Natal do ter sem ser: Jesus ou Papai Noel? - Imagem gerada por IA
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Jesus e Papai Noel

A palavra Natal vem do latim “natalis”, que significa “relativo ao nascimento”, e foi adotada para nomear a festa cristã que celebra o nascimento de Jesus Cristo. “Natalis” foi sendo incorporado por outras línguas e tornou-se “Noël” no francês antigo, por exemplo.

“Père Noël” (Pai Natal) deu origem a “Papai Noel”, termo que faz referência a São Nicolau, o generoso bispo do século IV cuja lenda inspirou o personagem, posteriormente popularizado nos Estados Unidos como “Santa Claus”. Mesmo lá, o Natal é chamado de “Christmas”, palavra derivada do inglês antigo “Cristes Maesse” (Missa de Cristo).

A imagem do Papai Noel, tal como hoje é reconhecida mundialmente, foi criada para as campanhas publicitárias da Coca-Cola, a partir dos anos 1930, que padronizaram sua aparência, suas cores e sua personalidade. O vermelho e o branco são as cores da marca e transformaram uma figura originalmente ligada à caridade cristã em um ícone global do consumo. O Natal passou a ser um poderoso evento mercadológico, cuidadosamente desenhado para estimular desejo, identificação e compra.

Onde está o aniversariante?

Caminhamos por shoppings centers, praças e avenidas decoradas com um requinte estético impressionante. Vemos árvores gigantescas, cascatas de luzes douradas, renas articuladas, bonecos de neve (em pleno verão tropical) e a onipresença de “Papais Noéis” sentados em tronos de veludo. Curiosamente, no entanto, é cada vez mais raro encontrar um presépio. A festa cresce, gera lucros, mobiliza multidões, mas o aniversariante é, deliberadamente, esquecido.

O sofisticado aparato natalino moderno transformou-se na celebração de um aniversário em que o homenageado não foi convidado, pois sua presença se tornaria incômoda. Em “A Sociedade do Espetáculo”, o sociólogo francês Guy Debord alertava que a vida moderna migraria da experiência direta para a representação. No Natal, o que deveria ser vivido internamente converte-se em imagem a ser consumida externamente, e a espiritualidade se dissolve na estética capitalista. Já não vivemos o Natal; nós o encenamos. E cada vez mais cedo, a ponto de algumas árvores serem montadas ainda em novembro.

O afastamento de Jesus: uma fuga emocional

A retirada de Jesus do centro simbólico do Natal expressa um movimento de defesa psicológica coletiva. Por que o presépio encolheu enquanto a árvore cresceu? Porque Jesus representa verdade, interioridade, vulnerabilidade e a coragem de revisitar a própria história. Ele simboliza aquilo que convoca ao silêncio e exige consciência.

A sociedade contemporânea, marcada por aceleração contínua e excesso de estímulos, parece não dispor de espaço psíquico para esse chamado. Encarar Jesus exige uma pausa, exige olhar para a sombra, para o que não é perfeito, para o que foi evitado ao longo do ano. O consumo, ao contrário, oferece a promessa de perfeição imediata. A sociedade não rejeita Jesus de forma explícita, mas o substitui por algo emocionalmente mais fácil de administrar: o mito do Papai Noel, que não pede conversão interior, apenas comportamento visível, e que recompensa com objetos, não com sentido.

Erich Fromm, em “Ter ou Ser?”, advertia que, quando o modo “ter” de existência se impõe sobre o modo “ser”, a vida se contrai. Essa troca entre espiritualidade e consumo revela exatamente esse deslocamento neurótico. O consumo oferece alívio temporário para a angústia existencial; Jesus oferece verdade, algo sistematicamente evitado por quem passou o ano inteiro fugindo da própria interioridade.

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente dos campos de concentração, ensinava que a falta de propósito é uma das principais fontes do sofrimento humano contemporâneo. No Natal, esse “vazio existencial” se torna mais visível, porque o discurso da alegria obrigatória colide com a experiência real de muitas pessoas. A tristeza de dezembro não é simples melancolia, mas luto pela distância entre a vida vivida e a vida que o espetáculo insiste em apresentar como ideal.

As redes sociais atuam hoje como amplificadoras desse vazio. Como observou Marshall McLuhan, “o meio é a mensagem” e molda profundamente a experiência. No ambiente digital, a afetividade transforma-se em performance. O Instagram não mostra a vida real dos outros, mas uma edição dos seus melhores momentos. A ceia impecável, a família vestida de forma coordenada e a árvore perfeita raramente inspiram, e podem produzir uma comparação cruel, que reativa inseguranças antigas.

As festas de fim de ano

Dezembro desperta estados regressivos, com adultos buscando aprovação, tentando agradar a todos, montando cenários para serem vistos e recorrendo a presentes como forma de reparar ausências afetivas ou culpas antigas. O dinheiro deixa de ser instrumento de troca e passa a funcionar como linguagem emocional. Presentear transforma-se em mecanismo de compensação para vínculos frágeis, e o significado dos encontros fica condicionado ao “preço” do que se entrega, não ao “valor” do que se é.

Tudo isso converge para o diagnóstico do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em “A Sociedade do Cansaço”. Vivemos exauridos pela exigência permanente de desempenho positivo. No Natal, esse cansaço profissional se mistura às expectativas afetivas e se converte em profundo desgaste psicológico. A pessoa tenta sustentar alegria quando sente inquietação, exibir união quando há desencontro e aparentar plenitude quando está perdida. O espírito natalino se esvazia porque a apresentação (material) ocupou todo o espaço da experiência (espiritual).

No dia 24 de dezembro, quantas pessoas lembram da origem do Natal e do que ele representa? Quantas se ocupam apenas em dar e receber presentes? Quantas sofrem com as lembranças de Natais alegres, e também dos tristes? Quantas não têm nada para dar e sequer um pedaço de pão para compor uma representação de ceia? Ter coisas é importante para o conforto e para a dignidade, mas não mais do que ser alguém em sua plenitude.

O Natal de dentro para fora

Diante desse quadro, o que resta? Resgatar o Natal não exige romper tradições nem demonizar a troca de presentes, que podem, sim, simbolizar cuidado e afeto. Exige recuperar o eixo interno que dá sentido a esses gestos. Exige a coragem de olhar para a decoração sofisticada e perceber a ausência do presépio — e, então, montá-lo dentro de si.

O nascimento que o Natal simboliza é, também, um evento psicológico: a possibilidade de renascer na própria consciência, algo impossível enquanto estivermos submetidos à lógica permanente do “ter” e da aparência.

Jesus nasceu em um ambiente improvisado, sem cenário, sem estética, sem garantias e sem plateia. Ofereceu direção, não espetáculo. Não pediu perfeição nem exigiu performance, mas ofereceu sentido. Essa simplicidade continua sendo a maior provocação para uma sociedade que prefere aparência ao silêncio, e brilho à profundidade.

O Natal não perdeu Jesus, mas a coragem de acolher o que ele simboliza. E a pergunta central retorna ao lugar de onde nunca deveria ter saído, ecoando no silêncio que tentamos abafar com músicas natalinas: quem está escolhendo por mim a forma como vivo, quando não estou prestando atenção?

Bebês Reborn e o vazio emocional: Entre o conforto psicológico e a polêmica da fetichização
Sergio Manzione é psicólogo clínico
Crédito: Divulgação

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – Oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione

**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!*

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