Mostrar carinho é fraqueza?
Afeto é a última forma de resistência numa sociedade que confunde força com frieza
Imagem gerada por IA
Um pai caminha com o filho por um parque. O menino segura um desenho nas mãos e diz, com brilho nos olhos: “Fiz pra você.” O pai olha, sorri de leve, e responde com a frase que o machismo plantou há gerações: “Guarda isso, filho, vai amassar.”
O menino abaixa o olhar, dobra o papel e aprende — sem palavras — que demonstrar afeto é perigoso. Essa é a primeira lição emocional de muita gente: o amor precisa ser contido.
Civilização das emoções amputadas
Vivemos num tempo em que a ternura perdeu espaço. O toque se tornou suspeito, o elogio parece interesse, o abraço virou exceção. A sociedade que glorifica o sucesso e idolatra a imagem transformou o afeto em fraqueza. Somos adultos sofisticados, emocionalmente atrofiados.
O psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902–1987), referência da abordagem humanista, dizia que o ser humano floresce quando é genuinamente aceito. Porém, fomos educados para agradar, não para sentir; para conter, não para compartilhar.
Muitas pessoas crescem em lares onde “amar demais” é sinônimo de dependência, e “ser sensível” é motivo de ironia. A alma, sufocada, aprende a se esconder por trás de expressões controladas e gestos econômicos.
O resultado é uma geração que domina a linguagem digital, mas desaprendeu a linguagem do afeto.
Machismo: a fábrica de homens mutilados emocionalmente
O machismo é uma doença que se disfarça de força. Com disse o filósofo Mario Sergio Cortella: “o contrário de machismo é a inteligência”. Desde a infância, o machismo ensina meninos a serem duros, competitivos e imunes à dor.
“Homem que chora é fraco.” “Homem sensível é bobo ou é gay.” “Homem carinhoso é frouxo.” Essas frases constroem prisões invisíveis onde a ternura é punida.
O filósofo francês Michel Foucault (1926–1984) nos lembra que o poder não precisa de correntes para funcionar — basta moldar os comportamentos. O machismo faz exatamente isso: transforma o afeto em risco e o silêncio em virtude. Assim, o homem que ama, mas não toca; que admira, mas não elogia; que sente, mas não expressa, acredita estar no controle, quando na verdade está amputado. É o menino que não pôde chorar, vivendo no corpo de um adulto, que já não sabe abraçar.
Mulheres e o afeto que virou defesa
As mulheres, de outro lado, herdaram a dor de amar sendo desvalorizadas. Durante séculos, foram obrigadas a cuidar de todos menos de si mesmas. Muitas aprenderam que a entrega emocional as tornava vulneráveis à rejeição ou ao desprezo. Outras viram suas mães adoecerem de tanto amar sem retorno.
A mulher que se fecha, portanto, não é fria: é ferida. Ela ergueu muros não por falta de sentimento, mas por excesso de decepção ou medo. Como observou o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875–1961), “tudo o que não enfrentamos em nós mesmos, reencontramos fora como destino”. A mulher que não cura o abandono repete o abandono. A que não perdoa a mãe ou o pai repete a frieza, por exemplo, nos filhos, no marido.
Em família, isso aparece entre irmãs, que não se tocam, entre esposas e maridos que dormem lado a lado, mas em planetas distintos. É o amor transformado em silêncio. Muitas dessas mulheres não conseguem perceber a própria formação emocional deficitária e culpam quem estiver mais próximo pelas suas próprias frustrações.
Falsa maturidade emocional
A modernidade vendeu a ideia de que sentir é perigoso. Vivemos a ditadura da “boa aparência emocional”: tudo deve parecer equilibrado, controlado, neutro.
O filósofo e psicanalista Erich Fromm (1900–1980), em “A Arte de Amar” (1956), alertava que o amor não é um sentimento fácil, mas uma arte que exige humildade, paciência e fé. O homem moderno, no entanto, prefere a performance ao risco. Quer amar sem perder, doar sem se despir, relacionar-se sem se revelar.
O resultado é o colapso afetivo da civilização. Milhares dormem acompanhados, mas vivem sozinhos. O mundo produz tecnologia em massa e afetividade em escassez.
Corpo fala o que o coração silencia
A repressão emocional cobra seu preço. A psicologia clínica e a psiconeuroimunologia (PNI) já comprovaram que emoções reprimidas geram sintomas físicos: o corpo tenta expressar o que a consciência nega. As doenças psicossomáticas vão se espalhando na pessoa: a gastrite pode ser a raiva engolida; a enxaqueca, o grito contido; a insônia, o amor não dito ou não ouvido.
Sigmund Freud disse que toda emoção reprimida volta em forma de sintoma. A verdade é simples e cruel: afeto reprimido é doença incubada. O toque que não damos, o abraço que não oferecemos, o perdão que adiamos, tudo isso se transforma em peso corporal e dor psíquica.
Afeto como resistência
Mostrar carinho é desafiar um sistema que premia o egoísmo e despreza a empatia. Quando você abraça, você rompe a lógica fria do consumo, e devolve humanidade ao contato. O filósofo Zygmunt Bauman (1925–2017), ao descrever a modernidade líquida, mostrou como os vínculos se tornaram frágeis, descartáveis e utilitários. O afeto, então, virou resistência: ele solidifica o que o tempo tenta dissolver.
Vivemos num tempo em que as pessoas só querem ser vistas, através de “posts” vazios de Instagram onde aparecem bebendo uma taça de vinho. Esse comportamento é um grito surdo de desespero na busca de afeto, que pode vir (ou não) como os “likes”. Diante desse cenário, demonstrar carinho é dizer “eu vejo você”: é escolher a verdade no lugar da imagem.
Reaprender a sentir
A reeducação emocional começa em pequenos gestos: um toque, um olhar, uma mensagem, um “senti sua falta”. Cada demonstração de carinho é um ato de cura para quem dá e para quem recebe.
A mulher que volta a abraçar liberta a menina, que precisou se endurecer. O homem que se permite chorar reconcilia o menino, que aprendeu a fingir força. O ser humano que volta a sentir reencontra sua natureza.
Amor como lucidez
O amor não é o oposto da razão, mas é sua forma mais alta de manifestação. Porque só quem sente profundamente compreende verdadeiramente. Como escreveu Jung, “onde o amor impera, não há vontade de poder; e onde o poder predomina, o amor está ausente”.
Mostrar carinho, portanto, não é fraqueza. É lucidez emocional. É coragem moral. É resistência espiritual. É lembrar que, apesar de toda a pressa, ainda há tempo para sentir. Ame e demonstre! Faça sua parte e o outro(a) vai aprender que pode também.
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
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