O custo do Verão: quanto Salvador ganha e quanto paga pela alta temporada
Com bilhões injetados pelo turismo, Salvador vive o auge da alta temporada enquanto moradores lidam com impactos no custo de vida e na rotina urbana
Jefferson Peixoto/PMS
O verão de Salvador deixou de ser apenas um período de alta circulação turística para se consolidar como um dos principais ativos econômicos da capital baiana. Turismo, Carnaval, eventos e economia criativa operam de forma integrada, movimentando bilhões de reais e colocando a cidade no centro da atenção nacional e internacional durante os primeiros meses do ano. Entre 1º e 18 de janeiro de 2026, Salvador recebeu 558.635 turistas, consolidando um dos inícios de ano mais fortes da história recente do setor. A taxa média de ocupação hoteleira chegou a 86%, com impacto econômico estimado em R$ 1,2 bilhão no período.
Do total de visitantes, 532.379 eram brasileiros e 26.256 estrangeiros. A movimentação financeira foi puxada principalmente pelo turismo nacional, responsável por cerca de R$ 1,1 bilhão, enquanto o turismo internacional gerou aproximadamente R$ 100 milhões.
Os dados foram divulgados pelo Observatório do Turismo de Salvador e publicados pelo Panorama da Bahia, indicando alta demanda pelo destino logo no início do ano. O desempenho é atribuído à combinação entre patrimônio histórico, praias, diversidade cultural, gastronomia e calendário de eventos, além do papel estratégico da capital como principal porta de entrada de visitantes que seguem para outros destinos do litoral e do interior baiano.
Carnaval de Salvador 2026: recordes à vista
O ápice da alta temporada ocorre durante o Carnaval de Salvador. Projeções da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult) indicam que a edição de 2026 deve atrair mais de 1,2 milhão de turistas entre os dias 12 e 18 de fevereiro, representando um crescimento de 10,2% em relação ao ano anterior.
A movimentação econômica estimada é de R$ 2,6 bilhões ao longo dos sete dias de festa, sendo R$ 1,8 bilhão concentrados apenas nos cinco dias principais do Carnaval. A expectativa é que a ocupação hoteleira ultrapasse 90%, com picos de 100% nos hotéis localizados próximos aos circuitos oficiais.
Perfil do turista e padrão de consumo
Segundo a Secult, cerca de 70% dos turistas brasileiros vêm de outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Minas Gerais e Pernambuco. Entre os estrangeiros, destacam-se visitantes da França, Alemanha, Argentina, Estados Unidos e Chile.
O gasto médio também reforça o peso econômico do evento. Turistas nacionais devem gastar, em média, R$ 7.131,97 durante a estadia. Estrangeiros desembolsam cerca de R$ 5.079,02, enquanto turistas baianos gastam, em média, R$ 2.590,67. Os valores impulsionam setores como alimentação, bebidas, transporte, hospedagem, comércio, moda, serviços e entretenimento.
Economia criativa: 3% do PIB nacional e Salvador como vitrine
Paralelamente ao turismo, a economia criativa se firma como eixo estratégico do verão soteropolitano. De acordo com relatório da Firjan, o setor movimentou mais de R$ 393 bilhões no Brasil em 2023, o equivalente a 3,59% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, superando segmentos tradicionais da economia.
A expectativa é que Salvador concentre, no primeiro trimestre de 2026, uma parcela significativa dessa movimentação. Segundo projeções da Secult, a cidade deve receber 3,4 milhões de turistas ao longo da alta temporada — cerca de 800 mil a mais que a média registrada em 2025.
O calendário de ensaios, festas temáticas e eventos culturais, aliado ao maior Carnaval de rua do mundo, posiciona Salvador como uma vitrine estratégica para música, artes, design, audiovisual, moda e cultura.
A cidade em operação máxima
O impacto da alta temporada se reflete também na logística urbana. Em fevereiro, o Aeroporto Internacional de Salvador deve operar 4.848 voos, alta de cerca de 12%, com capacidade para 419.837 passageiros. Durante o período oficial do Carnaval, estão previstos 623 pousos, com capacidade para 105.764 passageiros, de acordo com dados da Secretaria de Cultura e Turismo.
O Porto de Salvador também integra esse cenário, com a chegada de 13 navios de cruzeiro ao longo do mês, totalizando mais de 43 mil passageiros. Nos dias oficiais da folia, dois navios devem trazer 8.102 turistas à capital.

Secretária de Cultura e Turismo Ana Paula Matos entre as baianas na Lavagem do Bonfim
Foto: Instagram @anapaulamatos.ba
Para a vice-prefeita e secretária municipal de Cultura e Turismo, Ana Paula Matos, os dados confirmam que Salvador atravessa um novo patamar de crescimento no turismo e na economia criativa, impulsionado pela alta temporada e pelo Carnaval.
“O Carnaval de Salvador é uma engrenagem poderosa de geração de emprego, renda e oportunidades para milhares de famílias. Estamos falando de uma festa que movimenta bilhões, aquece toda a economia da cidade e projeta Salvador para o mundo. A cada ano avançamos mais, e a nossa previsão é realizar, em 2026, a maior festa de todos os tempos, consolidando Salvador como a capital mundial do Carnaval”, destacou.
Segundo a gestora, o crescimento contínuo no número de turistas, os recordes de ocupação hoteleira, o aumento da movimentação aérea e marítima e o aquecimento da economia reforçam o posicionamento de Salvador como o principal destino turístico do Brasil no verão e como palco do maior espetáculo popular do planeta.
Além dos números: o verão vivido por quem mora na cidade
Para além das cifras bilionárias, o verão impõe custos cotidianos que não aparecem nas estatísticas oficiais. Com a alta temporada, moradores enfrentam aumento de preços, encarecimento de serviços e impactos diretos na qualidade de vida, especialmente em bairros turísticos.
O impacto do verão na Barra
Moradora da Barra há quatro anos, a designer gráfico Eduarda Dellamagna relata que o verão altera de forma significativa a dinâmica do bairro.
“A rotina acaba ficando um pouco caótica por conta do movimento e do barulho excessivo. O fluxo de veículos na Avenida Centenário e na Oceânica aumenta drasticamente, então usar carro ou ônibus em certos horários vira um desafio logístico. Mas, para mim, o impacto principal é mesmo o barulho constante. O silêncio fica escasso: é o som dos bares, o vai e vém dos turistas e a montagem das estruturas agora que o Carnaval que começaram desde em dezembro”, afirma.
Ela também destaca manutenções urbanas realizadas durante a madrugada ou no início da manhã, como troca de fiação, postes e poda de vegetação, que afetam diretamente o descanso de quem vive na região.
Inflação sazonal e custo de vida
“O preço de itens básicos e bebidas sobe bastante naqueles mercadinhos de bairro, e na areia ou nos restaurantes da orla tudo fica mais caro: da cerveja e do acarajé até o aluguel do kit de praia. Andar de aplicativo também fica salgado, já que a tarifa dinâmica não perdoa com o trânsito travado”, relata.
Ela cita ainda o aumento da conta de energia elétrica, impulsionado pelo uso constante de ventiladores e pela intensificação de reparos na rede elétrica durante o período de grandes eventos.
Benefícios e limites da alta temporada
“Como a Barra é uma região muito caminhável e tenho tudo perto — do mercado ao Porto —, consigo resolver a vida com facilidade. Além disso, com o fluxo de pessoas alto, o bairro ganha mais vida, e essa ocupação constante das ruas amplia da a sensação maior de segurança para circular em qualquer horário”, explica.
Apesar disso, ela reconhece que essa realidade não se aplica a toda a cidade. Para quem precisa se deslocar diariamente por longas distâncias ou mora fora das áreas centrais, o verão e o Carnaval tendem a ser períodos mais desgastantes.
Franciano Gomes
Comunicador e autor de projetos culturais e audiovisuais, com atuação em jornalismo, pesquisa documental e desenvolvimento de narrativas voltadas à valorização da cultura brasileira.
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