‘Tarifaço’ de Trump contra Irã coloca US$ 2,8 bi do superávit brasileiro sob ameaça

Brasil exportou US$ 2 bi em milho para iranianos em 2025 e corre risco de sofrer retaliação em seu comércio com Washington


Redação
Estadão Conteúdo e Redação 13/01/2026 12:07 • Internacional
‘Tarifaço’ de Trump contra Irã coloca US$ 2,8 bi do superávit brasileiro sob ameaça - Wenderson Araujo/CNA
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O mercado internacional foi surpreendido, nesta última segunda-feira (12), por uma decisão drástica vinda de Washington. O presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a imposição imediata de uma tarifa de 25%sobre “todo e qualquer” comércio com os Estados Unidos por países que mantenham negócios com o Irã. A medida, descrita por Trump como “final, conclusiva e irrecorrível”, coloca o Brasil em uma posição delicada no cenário econômico global.

Superávit brasileiro

O Brasil mantém uma relação comercial lucrativa, embora de baixo volume global, com o Irã. Em 2025, a balança comercial entre as duas nações foi amplamente favorável ao governo brasileiro, resultando em um superávit de US$ 2,8 bilhões.

Os dados consolidados mostram a seguinte estrutura:

  • Exportações Brasileiras ao Irã: US$ 2,9 bilhões;
  • Importações do Irã: US$ 84,6 milhões;
  • Corrente de Comércio: US$ 3 bilhões.

Apesar de o Irã representar apenas 0,84% das exportações totais do Brasil (ocupando a 31ª posição como destino), a retaliação prometida por Trump incide sobre o comércio brasileiro com os Estados Unidos — que é um dos nossos maiores parceiros comerciais. Se a tarifa de 25% for aplicada às vendas brasileiras para o mercado americano como punição pelo comércio com os iranianos, o impacto financeiro para o Brasil pode ser ordens de magnitude superior ao lucro obtido com Teerã.

Agronegócio sob pressão

O setor que mais deve acompanhar este desdobramento com preocupação é o agronegócio. A pauta comercial entre Brasil e Irã é quase inteiramente composta por commodities essenciais para a segurança alimentar do país persa.

Principais produtos exportados pelo Brasil ao Irã (2025):

  1. Milho não moído: US$ 2 bilhões (67,9% de participação);
  2. Soja: US$ 563,6 milhões (19,3% de participação).

Pelo lado das importações, o Brasil depende do Irã para um insumo crítico: fertilizantes. Cerca de 79% de tudo o que compramos dos iranianos (US$ 66,8 milhões) refere-se a adubos e fertilizantes químicos, necessários para manter a produtividade das safras brasileiras.

O “tarifaço” de Trump cria um dilema para os produtores: continuar vendendo milho e comprando fertilizante do Irã, arcando com o custo extra de 25% para entrar nos EUA, ou abandonar o mercado iraniano para proteger a relação com Washington.

Tensão e repressão em Teerã

A medida de Trump não é apenas comercial, mas uma ferramenta de pressão política extrema. O regime do presidente iraniano Masoud Pezeshkian enfrenta sua maior crise interna em anos, com protestos que já resultaram na morte de pelo menos 600 pessoas, segundo ONGs.

Trump tem sinalizado que está em contato com líderes da oposição iraniana. Segundo ele, as opções consideradas “fortes” incluem não apenas o asfixiamento econômico, mas também intervenções militares ou cibernéticas.

Autoridades do governo americano se reúnem, nesta terça-feira (13), para discutir novos passos desta escalada. Do outro lado, Pezeshkian acusa “terroristas estrangeiros” (EUA e Israel) de provocarem os distúrbios para justificar uma invasão.

Difícil escolha da diplomacia brasileira

A ordem de Trump é “efetiva imediatamente”, o que exige uma resposta rápida do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty). Historicamente, o Brasil defende o livre comércio e o direito de negociar com todos os países, seguindo sanções apenas quando estas são determinadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Contudo, o caráter unilateral da medida americana coloca em risco exportações brasileiras de valor agregado (como manufaturados e aeronaves) que têm nos Estados Unidos seu principal comprador.

Se o Brasil optar por ignorar a ameaça, o custo Brasil aumentará 25% na entrada do mercado americano, tornando os produtos nacionais menos competitivos frente a concorrentes globais. Se optar por ceder, o país perde um comprador fiel de milho e soja, além de uma fonte importante de fertilizantes químicos.

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