Como o Natal deixou de ser apenas religioso e se transformou em uma celebração global
Da influência pagã à cultura pop, data atravessou séculos e ganhou novos significados ao redor do mundo
Rovena Rosa/Agência Brasil
O Natal, celebrado nesta quinta-feira (25), é um feriado cristão que marca o nascimento de Jesus Cristo. Sua consolidação como festa mundial, porém, resulta de um longo processo histórico, marcado por adaptações religiosas, influências pagãs e transformações culturais ao longo de séculos e continentes.
Embora hoje esteja associado à troca de presentes, à árvore de Natal, ao Papai Noel e às reuniões familiares, os primeiros seguidores de Jesus não comemoravam anualmente o seu nascimento. A celebração foi sendo construída gradualmente. Ao longo do tempo, o Natal passou por mudanças profundas até se tornar um evento cultural global, adotado inclusive por pessoas que não seguem o cristianismo.
“É difícil enfatizar demais o quão importante é o século 4 para construir o cristianismo como o vivenciamos em nosso mundo hoje”, disse Christine Shepardson, professora da Universidade do Tennessee.
Origens do Natal e definição da data
Os primeiros cristãos concentravam suas celebrações religiosas na ressurreição de Jesus, comemorada na Páscoa. O nascimento de Cristo não fazia parte do calendário litúrgico inicial e aparece apenas nos Evangelhos de Mateus e Lucas, que apresentam versões distintas do episódio, mas concordam ao afirmar que Jesus nasceu em Belém.
Não há registros históricos que indiquem o dia, o mês ou o ano exatos do nascimento de Jesus. Segundo estudiosos, a definição do dia 25 de dezembro ocorreu apenas no século IV, período em que o cristianismo passou a se estruturar institucionalmente dentro do Império Romano.
A escolha da data está associada a estratégias da Igreja para cristianizar festividades pagãs já populares entre os romanos, como a Saturnália e o culto ao Sol Invicto, celebrado no solstício de inverno. A simbologia da luz renascendo foi reinterpretada dentro do cristianismo, associando Jesus à ideia de “Luz do Mundo”, conforme apontam estudos históricos.
A maioria dos cristãos passou a celebrar o Natal em 25 de dezembro. Enquanto algumas tradições ortodoxas orientais mantiveram a comemoração em 7 de janeiro, seguindo o calendário juliano, que apresenta uma defasagem de 13 dias em relação ao calendário gregoriano.
Festas medievais e transformação do Natal
Durante a Idade Média, o Natal era marcado por celebrações públicas intensas, com festas nas ruas, consumo de bebidas e grandes banquetes. Em alguns períodos, a data chegou a ser vista com desconfiança por grupos religiosos mais rigorosos.
“Para muitos cristãos, não era um feriado em boa reputação”, disse Thomas Ruys Smith, professor de literatura e cultura americana na Universidade de East Anglia, na Inglaterra.
“Puritanos não gostavam do Natal”, completou o professor.
A mudança de percepção ocorreu principalmente no século XIX, quando o Natal passou a ser associado ao ambiente doméstico, à família, às crianças e à troca de presentes. Esse novo modelo ganhou força na Europa e nos Estados Unidos, impulsionado por obras literárias e pela consolidação de costumes que permanecem até hoje.
A publicação de “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens, em 1843, e os textos de Washington Irving ajudaram a moldar a imagem moderna da celebração. Na mesma época, tradições alemãs, como a decoração de árvores e a troca de presentes, se espalharam para outros países.
Papai Noel e outras figuras natalinas
O personagem Papai Noel tem origem na figura histórica de São Nicolau, bispo cristão do século IV da cidade de Mira, na atual Turquia. Conhecido por atos de generosidade, ele teria ajudado prisioneiros e marinheiros, tornando-se símbolo de caridade.
A devoção a São Nicolau se espalhou pela Europa durante a Idade Média e resistiu à Reforma Protestante principalmente nos Países Baixos, onde permaneceu como Sinterklaas. No século XVII, imigrantes holandeses levaram essa tradição para Nova York, contribuindo para a formação do Papai Noel secular.
Com o tempo, a figura ganhou características próprias em diferentes países. No Brasil, o Papai Noel é o principal símbolo da entrega de presentes. Em outras regiões, como Grécia e Chipre, São Basílio assume esse papel. Na Itália, Santa Lúcia e a Befana fazem parte das tradições locais, enquanto na Islândia os presentes são associados aos 13 Yule Lads, figuras do folclore local.
Símbolos cristãos e costumes incorporados
Entre as tradições mais antigas do Natal está o uso de vegetação dentro de casa, como árvores perenes, azevinho e hera. Para muitos cristãos, esses elementos simbolizam a vida eterna em Cristo, segundo estudos históricos.
A tradição da árvore de Natal teve início na Alemanha, no século XVI, e foi popularizada posteriormente na Inglaterra e nos Estados Unidos. O visco, utilizado desde celebrações druidas, foi incorporado como símbolo de imortalidade.
Outros costumes incluem cultos religiosos, presépios e corais natalinos, que surgiram a partir de práticas comunitárias europeias.
“Eles recitavam poesias, cantavam e às vezes apresentavam uma esquete. A ideia era que esses atos trariam boa sorte para influenciar uma colheita futura”, ressaltou Kennedy.
Tradições modernas e Natal globalizado
Com a globalização, o Natal passou a incorporar costumes locais em diferentes partes do mundo. Um dos exemplos mais conhecidos é o Japão, onde o consumo de frango frito se tornou tradição natalina após uma campanha publicitária lançada em 1974 por uma rede de fast food.
A ideia surgiu quando um funcionário ouviu um cliente estrangeiro afirmar que, sem peru no país, celebraria o Natal com frango frito. “Isso realmente ficou”, disse Smith. “E ainda hoje, você tem que pedir seu KFC com meses de antecedência para garantir que vai recebê-lo no dia de Natal.”
Em 2025, a rede inaugurou um restaurante temporário de Natal em Tóquio, oferecendo menus especiais com frango frito, acompanhamentos, pratos principais e sobremesas, consolidando a data como um evento cultural, além de religioso.
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