Como a morte e o luto afetam a infância e a adolescência?

Quando a morte entra em casa, o coração dos mais novos pede clareza, amor e a presença firme dos que ficam


Sergio Manzione
Sergio Manzione 11/10/2025 08:30 • Artigos e afins
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Sigmund Freud, pai da psicanálise, no texto clássico “Luto e Melancolia” (1917), já dizia que o luto é o processo de desligamento doloroso, mas necessário. No caso das crianças, esse desligamento é atravessado por fantasias mágicas, pela necessidade de segurança e pela busca de sentido em um mundo, que, de repente, se mostra frágil e finito.

AS FASES DO LUTO E COMO APARECEM NAS CRIANÇAS

Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004), autora da obra “Sobre a Morte e o Morrer” (1969), sistematizou o luto em cinco fases do luto. Embora pensadas para adultos, elas aparecem de forma peculiar em crianças e adolescentes:

  1. Negação

Na criança pequena, pode surgir como perguntas repetitivas: “mas quando a mamãe volta?”. É uma tentativa de recusar a realidade insuportável. Em adolescentes, a negação pode se manifestar como frieza aparente, um distanciamento que esconde a dor.

  1. Raiva

É comum a criança reagir com irritação ou birras intensas. Não é falta de educação, mas expressão da frustração de uma perda essencial. No adolescente, a raiva pode ser direcionada à família, aos amigos, a Deus ou a si mesmo. Freud apontava que se trata de uma luta do ego para manter o vínculo com o objeto perdido, transformando a impotência em agressividade. Não corte emoções.

  1. Barganha

Nas crianças, pode aparecer em frases simples: “se eu me comportar bem, ela volta?”. É o pensamento mágico, típico da infância, tentando negociar com o universo, com Deus. No adolescente, a barganha pode vir como espiritualidade intensa de última hora, ou promessas a si mesmo para “reverter” a perda.

  1. Depressão

Essa fase é o mergulho na tristeza. Crianças podem se isolar, regredir (voltar a urinar na cama, por exemplo) ou perder o interesse em brincar. Adolescentes podem apresentar queda brusca no rendimento escolar, falta de motivação ou apatia profunda.

  1. Aceitação

Na infância, não é uma compreensão filosófica, mas a capacidade de seguir brincando, incluindo a pessoa perdida em desenhos, histórias ou pequenas lembranças. O adolescente, por sua vez, pode elaborar através da escrita, da música ou do engajamento em causas que deem sentido à dor. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, lembrava que a criatividade é um recurso fundamental para a saúde psíquica. No luto, ela é porta de saída.

Note que essas fases não são lineares. Uma criança pode oscilar entre raiva e aceitação em questão de horas. O processo não é uma escada, mas um carrossel emocional.

DIFERENÇAS ENTRE MENINOS E MENINAS NO LUTO

A diferença no luto não deve ser vista como limitação, mas como forma distinta de expressão da dor.

Meninos: tendem a expressar menos o choro e externalizar a dor através de raiva, agitação ou até no silêncio profundo. Muitas vezes recorrem a jogos ou atividades físicas como forma de defesa. Esse comportamento pode ser interpretado como frieza, mas é um mecanismo de autoproteção.

Meninas: verbalizam mais os sentimentos, choram com maior facilidade e criam rituais simbólicos como desenhar ou escrever cartas para quem morreu. Também são mais propensas a desenvolver sentimento de culpa, acreditando que poderiam ter evitado a perda ou, pior, que são culpadas pela morte.

CRIANÇAS E ADOLESCENTES: ABORDAGENS DISTINTAS

A idade também é determinante no modo de viver o luto.

Crianças pequenas (até 11 anos): podem acreditar que a morte é reversível ou que suas ações causaram a perda. Regridem em comportamentos, fazem perguntas repetitivas e precisam de respostas simples, claras e repetidas com paciência. Rituais concretos como plantar uma flor ou guardar um objeto da pessoa falecida ajudam na elaboração.

Adolescentes (12 a 18 anos): compreendem a irreversibilidade da morte, mas a enfrentam com revolta, questionamentos existenciais e, às vezes, comportamentos de risco. Podem se isolar, se refugiar na música ou nas amizades. Com eles, a abordagem deve ser de respeitar silêncios, acolher questionamentos sobre fé e vida, e não infantilizar. A honestidade e o respeito à autonomia são fundamentais. Ou seja, entenda a dor do outro.

QUEM FALA, QUANDO FALA, ONDE FALA

O anúncio da morte para a criança/adolescente deve vir de alguém de referência afetiva (pai, mãe, avós…), em um ambiente seguro, logo após o ocorrido. Mais do que palavras certas, a criança precisa sentir a autenticidade do adulto. Além disso, a criança/adolescente respeitará o adulto que não mente para ela, e sentirá a confiança necessária para seguir em frente. Dose a quantidade, mas sempre diga a verdade.

É essencial dizer três coisas para a criança/adolescente:

  • a pessoa que morreu não a abandonou; não queria ir embora;
  • que ela não tem nenhuma culpa pelo que aconteceu;
  • que ela não enfrentará a dor sozinha.

Adiar a notícia gera fantasias e culpa. Falar sobre morte com crianças e adolescentes é um ato de amor, e amor exige tempo e presença. Procure um lugar calmo, sente e converse. Contar em lugares inapropriados, como um corredor de hospital, um carro em movimento, reduz o espaço de acolhimento. Clareza acima de tudo: não use metáforas confusas (“mamãe virou uma estrelinha”). Se a mãe estivesse doente, diga que o corpo não suportou, e isso é a morte.

O DILEMA DO ENTERRO

Maria Júlia Kovács, psicóloga brasileira e professora da Universidade de São Paulo (USP), defende que os rituais coletivos ajudam a dar sentido ao luto. Para a criança, participar de um velório pode ser uma oportunidade de se despedir, desde que haja preparação. No entanto, isso não deve ser encarado como uma regra fixa.

Caso ela vá ao enterro, explique o que a criança verá (o caixão, as pessoas chorando, os rituais religiosos). A decisão final de ir ou não deve ser dela. Impor a presença pode traumatizar. Proibir a participação pode gerar ressentimento e sensação de exclusão. A criança não deve ser forçada a nada, como, por exemplo, beijar a pessoa morta como despedida. Em adolescentes, a autonomia deve ser respeitada, já que muitos vivenciam o desejo de estar presentes como um direito.

UM CAMINHO

Neste artigo aponto um caminho a ser seguido, mas que pode variar de acordo com as particularidades de cada situação. Nos casos de mortes violentas, creio ser fundamental o acompanhamento psicológico profissional, pois os próprios adultos estão lidando com a dor, e podem não saber o que fazer. A dor da perda é inevitável e, portanto, é fundamental vivê-la junto com a criança/adolescente. Às vezes não há nada a dizer, mas o silêncio ao lado da criança é mais poderoso do que um discurso vazio ou mentiroso.

Apesar de ser um momento difícil, é uma oportunidade de aprender e ensinar que o verdadeiro amor não morre. O luto em crianças e adolescentes não é igual ao dos adultos. Seja menino ou menina, criança ou adolescente, o que todos precisam é de adultos que ofereçam presença, clareza e amor. A verdade amorosa é sempre o maior cuidado, e, aos poucos, a dor vai se transformando em saudade.

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Psicólogo Sergio Manzione
Foto: Divulgação

*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione

**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!

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