7 de Setembro x 2 de Julho: descubra por que a Bahia escolheu outro dia para festejar sua liberdade

Força do povo, memória de heróis locais e tradição popular explicam a maior festa cívica dos baianos


Matheus Calmon
Matheus Calmon 07/09/2025 08:00 • Cidades
7 de Setembro x 2 de Julho: descubra por que a Bahia escolheu outro dia para festejar sua liberdade - Reginaldo Ipê/ Dircom CMS
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Enquanto o Brasil celebra, neste domingo (7), o Dia da Independência, a Bahia vive uma dinâmica própria. As comemorações seguem sendo realizadas, e o tradicional desfile acontece a partir das 7h, no Campo Grande, mas no estado, a grande festa da Independência acontece no 2 de Julho. Como lembra o historiador Ricardo Carvalho, a separação de Portugal no estado só foi garantida em 1823, quase um ano após o “grito do Ipiranga”, resultado de intensos combates que mobilizaram negros libertos, indígenas, mulheres e o povo comum.

A menor celebração do 7 de Setembro na Bahia reflete, sobretudo, uma valorização da história local.

“Os baianos enxergam o 2 de Julho como uma verdadeira conquista da independência, tanto que a gente chama aqui de o dia da libertação nacional. Não é que negue-se o 7 de Setembro, mas é de colocar uma perspectiva em que a Bahia assuma esse protagonismo”, afirma o historiador.

A diferença evidencia a singularidade do processo de independência no território baiano, mais marcado pela luta coletiva do que pelo ato simbólico realizado às margens do riacho em São Paulo. Essa luta mais enraizada e coletiva deu ao 2 de Julho um caráter de conquista própria, levando um símbolo não só regional como nacional, e também afirmando a identidade baiana. Segundo Ricardo Carvalho, a Bahia teve o calor da luta e o sentido da unidade nacional contra o domínio português.

“O 7 de Setembro é um ato mais político e institucional, mais protocolar. Assim, a dinâmica da resistência armada e a presença de diferentes grupos sociais na Bahia, nessa luta pela liberdade, explicam porque o 2 de Julho se tornou uma referência cívica tão poderosa, contrastando com a dimensão quase institucional, que é o 7 de Setembro”, disse em entrevista ao Portal M!.

A narrativa histórica no imaginário popular

A narrativa da luta baiana foi construída e transmitida ao longo das gerações por meio da oralidade e da celebração anual. Segundo Carvalho, a memória de heróis locais como Maria Quitéria, Joana Angélica e a figura emblemática do Corneteiro Lopes foi o que consolidou a data no imaginário popular.

“Essa narrativa foi construída por meio da oralidade, pelo menos por enquanto, na celebração anual nas ruas, nas canções, na memória dos heróis locais como Maria Quitéria, Joana Angélica, a figura emblemática do corneteiro Lopes, João das Botas, Maria Felipa, e todo o povo anônimo que acabou pegando em armas para lutar contra os portugueses”.

Ao longo das décadas, a festa popular incorporou desfiles e símbolos como o Caboclo e a Cabocla, que representam a força do povo em armas contra a metrópole portuguesa. As escolas, a literatura regional e a própria tradição política da Bahia foram reforçando essa memória ao longo do tempo.

“Claro que, com o passar do tempo, os historiadores e as academias passaram a se interessar pelo tema, então ele ganhou um caráter, digamos, mais científico, o estudo do 2 de Julho. Então, o 2 de Julho não se limita só a ser lembrado, mas é reencenado, atualizado, garantindo assim uma preservação poderosa no imaginário coletivo do povo baiano”, frisa Ricardo.

Valor do patriotismo local

O professor aponta que o 7 de Setembro se consolidou como um ritual cívico nacional de caráter mais oficial e vinculado ao Estado brasileiro, às Forças Armadas e ao discurso de unidade nacional.

Carvalho destaca que o 2 de Julho é uma festa que nasce do povo e daí vem sua grande originalidade. E que, embora também tenha a presença de autoridades, que também muitos se aproveitam desse momento para testar sua popularidade, tem uma forte dimensão popular, cortejos, músicas e símbolos de resistência cultural.

“O 7 de Setembro tende a reforçar um certo patriotismo institucional centralizado do Estado brasileiro. O 2 de Julho expressa um orgulho local, autônomo, plural, onde o protagonismo popular é, digamos, o epicentro da cena. É uma celebração da independência vivida e não apenas proclamada”, pontua.

O historiador reforça, no entanto, que o foco no 2 de Julho não significa de jeito nenhum distanciamento ou separatismo em relação ao Brasil, mas sim uma afirmação mais nativa da contribuição singular que a Bahia teve à história nacional. “É uma forma de destacar que o processo de independência foi múltiplo, plural, com ritmos e protagonismos diferentes em cada região”, destaca.

Ensino e o equilíbrio das datas

Nas escolas e instituições baianas, o 2 de Julho recebe maior ênfase. O historiador aponta que são promovidas atividades, projetos, desfiles e encenações que reconstroem a história da guerra e seus personagens.

“Muitos currículos incluem a valorização de personagens baianos. É bacana ver a criançada se vestindo de Maria Filipe, de Maria Quitéria, algo que a gente não vê muito no 7 de Setembro. No entanto, é bom lembrar, as duas datas são lembradas, tratadas em sala de aula pelos educadores. O 7 de Setembro aparece mais como marco oficial e o 2 de Julho tem uma dimensão mais afetiva, mais concreta no imaginário do povo baiano. Tem a ver com pertencimento regional, com memória coletiva”.

Para Carvalho, não há um esforço consciente para equilibrar a importância das duas datas na Bahia, pois “não se escreve história por decreto”. Enquanto o 7 de Setembro segue como uma data nacional, o 2 de Julho “é um crescente, é isso que é mais incrível”, diz o professor. “Cada ano que passa ganha uma força muito maior na alma do povo baiano, no seu caráter simbólico, emocional”.

Para o historiador, esse desequilíbrio não é necessariamente um problema, mas uma expressão da diversidade que acontece na Bahia em todos os sentidos, na música, no teatro, nas manifestações culturais, religiosas. “E cada região tem que encontrar seus próprios símbolos de pertencimento e de identidade. A Bahia acabou consolidando o 2 de Julho, que é a sua principal referência”, reforça.

Festejos em Salvador

Em Salvador, a Marinha do Brasil será responsável pela coordenação geral do Desfile Cívico-Militar, que reunirá cerca de dois mil militares, além de civis e viaturas de diversas instituições participantes, reforçando o caráter histórico e cívico da data.

As atividades terão início às 7h20, com a recepção das autoridades civis e militares pelo Cerimonial da Marinha. Às 7h50, o Comandante da 6ª Região Militar, General de Divisão André Luiz Aguiar Ribeiro, e o Comandante do 2º Distrito Naval, Vice-Almirante Gustavo Calero Garriga Pires, realizarão a revista à tropa, procedimento que antecede oficialmente o desfile.

O hasteamento das bandeiras do Brasil, do Estado da Bahia e da Prefeitura de Salvador está previsto para as 8h45, logo após a chegada do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Em seguida, às 9h, terá início o desfile com a participação de instituições militares e civis, marcando a celebração do Dia da Independência com protocolos tradicionais e presença de autoridades.

Matheus Calmon

Matheus Calmon

Matheus é jornalista, pós-graduado em jornalismo digital e especialista em contar histórias que informam e conectam, com paixão por investigar, escrever e dar voz a questões que importam.

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