Uso precoce de telas ameaça saúde mental das crianças, alerta psicóloga; entenda os riscos e sinais de atenção
Amanda Cerqueira ressalta que muitos problemas têm raízes genéticas e familiares, somadas às mudanças sociais e tecnológicas
Divulgação
A saúde mental infantil vive um momento de alerta, segundo a psicóloga da infância e adolescência Amanda Cerqueira, que participou do programa De Olho na Bahia, da Rádio Mix Salvador (104.3 FM), nesta quarta-feira (15). Em entrevista conduzida pelos jornalistas Osvaldo Lyra (editor-chefe do Portal M!), Gomes Nascimento, Matheus Morais e Catia Catia Rhawllesty, e pelo médico oncologista Rodrigo Guedes, a especialista destacou que nunca se discutiu tanto sobre saúde mental das crianças e adolescentes, mas o aumento de informações também revela uma geração em sofrimento.
Uso da tecnologia
Para Amanda Cerqueira, muitos problemas que aparecem nas novas gerações têm raízes genéticas e familiares, somadas às mudanças sociais e tecnológicas.
“O acesso precoce às telas e a redução do convívio social têm provocado um verdadeiro boom na saúde mental infantil, de forma nada saudável”, pontuou a psicóloga.
Segundo ela, o uso precoce da tecnologia está diretamente ligado a atrasos no desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional. Crianças que passam longos períodos diante de celulares e tablets têm dificuldade para desenvolver coordenação motora, linguagem e habilidades de socialização. Além disso, o uso excessivo das telas provoca uma espécie de vício, comparável, em termos de estímulo cerebral, ao efeito de drogas em adultos.
A especialista explica que, no passado, as crianças brincavam nas ruas e interagiam com outras pessoas. Hoje, muitas substituem o contato humano pela vida digital, o que, segundo ela, “gera crianças com dificuldade de aprendizado, de comunicação e de empatia”.
Limites, rotina e papel das famílias na saúde mental das crianças
Amanda Cerqueira chama atenção para o comportamento de pais que, por exaustão, substituem o brincar e o diálogo pelo celular. Para ela, esse hábito não apenas compromete o vínculo afetivo como mascara possíveis transtornos, como o TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade).
A psicóloga explica que muitos pais interpretam a inquietação dos filhos como mera agitação, quando, na verdade, pode haver um diagnóstico por trás. Ela detalha que o TDAH se manifesta de três formas: o tipo desatento, o tipo hiperativo e o tipo misto — combinação de ambos. Entre os principais sinais estão desatenção constante, dificuldade de memorização, irritabilidade e desorganização.
Amanda reforça que o comportamento infantil deve ser acompanhado de perto e comparado aos marcos do desenvolvimento esperados para cada idade.
“Os pais precisam observar o comportamento dos filhos e ouvir os alertas da escola. Quando a criança tem alguma dificuldade, o primeiro ambiente afetado é o da aprendizagem”, enfatiza.
A psicóloga ainda destaca a importância da ociosidade criativa, cada vez mais rara na infância moderna. “Hoje tudo é muito pronto. As crianças não aprendem a lidar com o tédio, e isso afeta o desenvolvimento cognitivo. Precisamos voltar a valorizar o tempo livre e o brincar espontâneo”, analisa.
Diagnóstico e crescimento dos casos de autismo infantil
Além do TDAH, Amanda Cerqueira observa um aumento significativo dos diagnósticos de transtorno do espectro autista (TEA). Segundo ela, o crescimento é impulsionado tanto pelo maior acesso à informação quanto pelos impactos da tecnologia no neurodesenvolvimento infantil.
O autismo, explica, se manifesta em dois pilares principais: dificuldade na comunicação e comportamentos repetitivos ou estereotipados. Crianças com TEA também podem apresentar seletividade alimentar, hipersensibilidade a sons, luzes ou texturas, além de problemas de sono.
De acordo com a especialista, o uso precoce de aparelhos eletrônicos — em alguns casos, a partir dos 6 meses de idade — contribui para mascarar sinais de autismo e atrasar o diagnóstico. Por isso, a Associação Brasileira de Pediatria recomenda que o uso de telas só ocorra a partir dos 2 anos, e por no máximo meia hora por dia, preferencialmente em telas maiores, como a televisão, e não em celulares.
Escolas, bullying e papel da educação socioemocional
Amanda também enfatizou a importância das escolas no combate ao bullying e ao cyberbullying, fenômenos que têm crescido junto com o uso das redes sociais.
“Nos tornamos muito críticos. Tudo é perfeito nas redes, e quando algo foge do padrão, vira motivo de julgamento”, criticou.
Para ela, a exposição a conteúdos agressivos e à busca incessante por padrões de beleza tem gerado crianças mais irritadas, inseguras e emocionalmente distantes. Esse afastamento emocional prejudica o desenvolvimento da empatia e aumenta os casos de violência verbal e psicológica entre colegas.
A psicóloga elogiou iniciativas de educação socioemocional nas escolas e defendeu a proibição do uso de celulares em sala de aula. “Eu vi como a retirada dos aparelhos melhorou a socialização. As crianças voltaram a brincar, conversar e interagir. Hoje, no consultório, há grupos voltados apenas para ensinar crianças e adolescentes a fazer amizade”, destacou.
Terapia infantil e prevenção precoce
Ao falar sobre a terapia infantil, Amanda Cerqueira explicou que o acompanhamento psicológico pode — e deve — começar cedo. Ela afirma que bebês a partir de um ano e seis meses já podem receber atendimento especializado, especialmente quando há suspeita de autismo. Para outras situações emocionais e comportamentais, a recomendação é iniciar a psicoterapia a partir dos 3 ou 4 anos, sempre que os pais perceberem sinais de sofrimento, irritação constante, dificuldade de sono ou atrasos na fala e no aprendizado.
A psicóloga pontua que a terapia precoce é um ato de prevenção e não deve ser vista como um estigma. “Durante a poda neural, a criança tem mais capacidade de aprender e se desenvolver. A terapia aproveita esse momento para corrigir o que o ambiente não estimulou adequadamente”, explica.
Segundo Amanda, o suporte psicológico ajuda não só a criança, mas também os pais e a rede de apoio a compreenderem melhor como lidar com os desafios emocionais da infância. “A terapia é um investimento no futuro emocional da criança e na saúde mental da família”, conclui.
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